Por que Bolsonaro prefere o Twitter aos meios de comunicação tradicionais?

Presidente volta a atacar jornalistas. O que leva Bolsonaro a construir um isolamento em relação aos veículos tradicionais?

Jornal GGN – Alex MacAllister e Jawad Rhalib. Esses são os nomes de dois personagens que ajudam a desvendar um suposto esquema produzido pelos principais meios de comunicação do Brasil, entre eles o Estado de S.Paulo e O Globo, para acabar com governo Bolsonaro, antes mesmo de conseguir completar direito seu primeiro trimestre de gestão.

As provas? Um áudio em inglês, editado e com frases truncadas, de uma conversa entre a jornalista do Estado Constança Rezende e Alex MacAllister, jovem estudante interessado em fazer uma comparação entre Donald Trump e Jair Bolsonaro.

“I only do that, I think i’m on thirty days doing only this case, because it can compromise… can ruin Bolsonaro”. Tradução: “Eu só faço isso. Eu acho estou há 30 dias fazendo somente esse caso, porque isso pode comprometer, pode arruinar Bolsonaro”.

Essa única frase foi a base de toda a matéria de um tal jornalista francês chamado Jawad Rhalib (finalmente o autor do furo), desvendando o suposto esquema. O tradutor e divulgador da reportagem no Brasil foi o site Terça Livre, editado por Allan dos Santos, o mesmo que gerou polêmica nas redes sociais por sua posição anti-masturbação e, mais recentemente, um dos líderes da vaquinha nas redes sociais para pagar a operação de Olavo de Carvalho.

O texto da suposta reportagem atribui falsamente a Constança Rezende a afirmação de que o Estado de S. Paulo teria “a intenção” de “arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

Fundamentado nestas “sólidas” referências, o presidente Jair Bolsonaro se colocou neste domingo (10) em mais uma polêmica, passível de isolamento total dos principais meios de comunicação do país. Escreveu em sua conta pessoal do Twitter:

O Estado foi responsável pelo furo que descobriu a movimentação suspeita nas contas do ex-motorista Fabrício Queiroz, mas as matérias a respeito do tema foram assinadas pelo jornalista Fábio Serapião, e não por Constança.

Já O Globo foi responsável pela cobertura que mostrou a relação entre as milícias e o antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Isso explica colocar Constança no meio da jogada do falso conluio de mídias, mesmo não tendo sido ela a autora das reportagens sobre as movimentações suspeitas nas contas de Queiroz e Flávio Bolsonaro. Era preciso, a partir de uma (suposta) entrevista simples que ela deu a um jovem estudante, divulgada por um terceiro elemento, o jornalista francês, para chegar até um profissional do “O Globo”, responsável pelas primeiras matérias que começaram denunciar a relação entre a família do presidente com um grupo criminoso que atua no Rio de Janeiro, reduto eleitoral dos Bolsonaro.

Leia também:  PSL desidrata reforma da Previdência para atender policiais

Vale destacar ainda que, na última semana, o editor do Terça Livre, Allan dos Santos, chamou a imprensa de “porca”, “hipócrita” e “imunda”, por repercutir o impacto negativo da divulgação de um vídeo pornográfico pole presidente do Brasil.

Em seu blog, no UOL, Leonardo Sakamoto avalia que, ao usar sua conta no Twitter para compartilhar informação falsa sobre uma repórter, Bolsonaro se torna “corresponsável por qualquer ataque, ameaça e agressão contra ela”.

Nos momentos em que se seguiram à postagem do presidente, a jornalista do Estado de S.Paulo passou a ser alvo de ataques e ameaças nas redes sociais, do mesmo nível das perseguições sofridos pela jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, responsável pela série de reportagens relatando o caixa 2 da campanha eleitoral de Bolsonaro, entre outubro, novembro e dezembro do ano passado.

“Por mais que diga que não ordena ataques a ninguém, a sobreposição de suas postagens à sua legião de seguidores serve como justificativa aos ataques. Ou, melhor dizendo, eles se tornam “necessários” para tirar o país do caos e levá-lo à ordem”, analisa Sakamoto completando:

“Suas declarações alimentam a intolerância, que depois é consumida por fãs malucos ou inconsequentes que fazem o serviço sujo. Ações irresponsáveis como essa têm o objetivo de fomentar um estado de apreensão constante, fundamental para que a base do bolsonarismo mantenha-se coesa e orientada a ficar firme nas guerras cultural e política”.

Logo após a publicação do presidente, o Estado de S.Paulo se posicionou por um artigo.

“A postagem de Bolsonaro foi ilustrada com um vídeo do Terça Livre, que expôs a foto de Constança Rezende e o áudio de um trecho da conversa gravada. A gravação foi divulgada primeiro por um site francês, em um texto de Jawad Rhalib, que se apresenta como jornalista. Rhalib também expõe a tese de que a gravação seria prova de que a imprensa distorce fatos para comprometer Bolsonaro”, pontua o jornal.

“Constança não deu entrevista ao jornalista francês nem dialogou com ele. Suas frases foram retiradas de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Donald Trump e Jair Bolsonaro”, argumenta o Estado arrematando que a suposta “denúncia” de Rhalib também atribui falsamente à repórter a publicação da primeira reportagem sobre a investigação do Coaf (Conselho de Atividades Financeiras) a respeito da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Queiroz, mas o autor verdadeiro da matéria é Fabio Serapião.

Leia também:  Empresa de eventos de Deltan poderia ser cliente da fundação de R$ 2,5 bi, por Luis Nassif

Nesta segunda-feira (11) Allan dos Santos decidiu “romper” com Alexandre Garcia, porque o ex-jornalista da Rede Globo compartilhou um post de Netuza Nery fazendo críticas à matéria falsa da Terça Livre.

Fator Bannon e redes sociais

O modus operandi de Bolsonaro nas redes sociais se assemelha ao de Donald Trump, esse último assessorado por Steve Bannon, ex-estrategista do presidente dos Estados Unidos na Casa Branca.

Não é novidade o relacionamento entre a família Bolsonaro e o assessor político. Em novembro, Eduardo esteve no aniversário de Bennon e, durante a corrida eleitoral, o norte-americano se manifestou publicamente defendendo a candidatura de Jair Bolsonaro.

A questão que surge nesse cenário, portanto, é: o uso das redes sociais como mídia de massa, em detrimento dos tradicionais meios de comunicação, seria uma estratégia de comunicação incentivada por essa relação entre Bannon e os Bolsonaro?

É possível. Na última década ficou constatado o poder das redes sociais na organização e movimentação política das massas. Em 2010, o meio de comunicação teve papel fundamental na Primavera Árabe – como ficou conhecida a onda de manifestações e protestos que ocorreram no Oriente Médio e no Norte da África .

Em 2011, as redes sociais também foram importantes para o Movimento dos Indignados, na Espanha, e que culminou na ocupação da Puerta del Sol (Madrid) e deu início a uma série de ocupações públicas em outros países, o mais famoso deles o Occupy Wall Street. Em 2013, no Brasil, as jornadas de Junho foi possível graças à viralização de informações sobre os protestos e as pautas reivindicadas pelo Facebook.

Todos esses movimentos nasceram de uma necessidade genuína da população por uma série de reivindicações políticas, econômicas e sociais. Entretanto, de alguma forma, o debate foi sequestrado para uma discussão dualista, ressuscitado a partir de ideias do período da Guerra Fria (aquela que tensionou a liderança do mundo entre Estados Unidos e a extinta União Soviética no século passado).

“Existe uma tendência muito grande de as pessoas formarem a sua própria opinião e não mais serem teleguiadas por alguma massa de manobra. É muito mais confortável você ler e escutar o que você quer, entre aspas, e entender da sua forma, porque é a partir da sua visão e do seu entendimento. Então, por exemplo, sabe aquele famoso ‘escutou o que quer, e fez a sua própria opinião e o rumo da sua vida’? Existe uma tendência muito grande de cada um viver da sua forma. Hoje pode tudo e está tudo mais liberado, o mesmo na formação de opinião: ‘eu vou formar a minha própria, não vou seguir a de ninguém, porque eu sou mais criativo, entre aspas”, explica a psicóloga Ana Paula Lessa, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental.

Leia também:  Especial GGN: Confira 6 reportagens da série #OExemploDoChile e participe da campanha

O problema, completa a analista, é que na busca por formar a própria opinião, baseada nos mecanismos da internet e das redes sociais, pode estar contribuindo mais na indução de movimentos de massa do que para a formação de uma sociedade de pensadores livres.

“Acabamos [construído opiniões] sem pesquisa científica, sem base em nada, seguindo a grande massa da população”.

A psicóloga ressalta ainda outros fatores que se tornaram determinantes para as redes sociais substituírem a função da imprensa tradicional no consumo de notícias e informações.

“Hoje nós somos livre para nos expressarmos nas redes sociais, o fácil acesso de horário também facilita o uso dessas plataformas Não temos mais que parar para assistir ou escutar, se “prendendo” a um determinado horário e dia. Então isso está fazendo com que o ser humano use mais [as redes sociais e internet] para obter informações”, pondera.

“Outro ponto é que você pesquisa uma coisa e a internet vai te mandando informações do que você gosta e do que você mais pesquisa. Então, a internet sabe muito bem como dominar seu cérebro, no sentido atrair sua atenção. Por exemplo, se eu pesquisar sobre alugar uma casa, a internet irá selecionar vários anúncios sobre aluguel [que serão publicados nas páginas que for frequentar]. Se a pesquisa for sobre [determinada questão] política, a mesma coisa. Em resumo, o que mais tem influência hoje é a internet”, pontua Lessa.

Leia também: “Bando de cagão com medo da mídia”, é assim que Olavo de Carvalho se refere aos militares no governo

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

6 comentários

  1. “Por que Bolsonaro prefere o Twitter aos meios de comunicação tradicionais?”

    Porque ele não tolera o contraditório, só por isso. Basta ver que bloqueia quem o contesta.

  2. Nao são somente os boçalnaros que nao gostam da imprensa comercial, ela japerdeu a credibilidade há muito tempo, ois funcionam de acordo com interesses roprios, agenda propria, organizaçao propria, regulamento proprio e tudo mais a serviço de seus donos e aliados.

    No campo da esquerda, só os muito miopes ainda esperam alguma coisa desse pessoal. Vejo alguns ate comrando o barulho da jornalista do Abestado de Sao Paulo arrolada neste ultimo episódio..

    Deixa eles rolarem na lama, ora, ora; eles que são golpistas, eles que se entendam.

  3. Artigo bastante esclarecedor. Esqueceu um detalhe: no twitter Bolsonaro não precisa equacionar mais do que duas frases. Esgota sua capacidade de articulação verbal.

  4. Acredito que o Sr. Bolsonaro não esteja agindo isoladamente.Alguma inteligência maior do que a dele faça o comando para ele não “enfrentar” publicamente aos meios de comunicação tradicionais.Mas a inteligência maior que a dele sabe da dimensão e força dos tablets, celulares, noteboks…

  5. “Por que Bolsonaro prefere o Twitter aos meios de comunicação tradicionais?”

    É porque para quem não tem muito a dizer e fala merda a cada 20 palavras, algumas linhas são mais do que suficientes.
    Além disso, claro, é a rede social preferida do “Deus” dele, o Trump.

  6. Em tempos de inteligência artificial, o protagonismo da mensagem instantânea sem debates, sem o efeito dialógico e sem fundamentação, vale como verdade, sobretudo quando a serviço da desconstrução da realidade, pela pós-verdade, como nós tempos atuais.

    Veritas parit odium, como diria o latino Terêncio.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome