Por que o Imperialismo não adota a mesma solução de sempre?

Por que o Imperialismo não adota a mesma solução de sempre?

No artigo publicado no Blog BoitempoRumo ao desconhecido: endividamento mundial, crise monetária e colapso capitalista”, e republicado no GGN o autor, Maurilio Lima Botelho faz um resumo da economia internacional atual, com alguns erros, que não invalidam em nada o seu texto, sobre o impasse que vive o capitalismo nos dias atuais.

Na explicação do desenvolvimento do nível de endividamento dos Estados, dos empresas particulares e por fim das famílias o autor no texto que pode parecer longo, mas que é insuficiente para descrever em detalhes a origem de todo este endividamento, ele coloca algumas interpretações que ficam meio pairando no ar e, mais uma vez, devido ao texto reduzido ele não explica direito o porque deste endividamento caindo simplesmente em justificativas políticas que não são complementadas pela evolução completa do fenômeno. Mais uma vez aqui não há erros, mas sim omissões.

Porém o que merece uma crítica ao texto é dada pela simples leitura das três primeiras do título, ou seja, “Rumo ao desconhecido….”. Na verdade, estas palavras ditas como o caminho do Capitalismo na presença de uma forte crise, não coloca o porquê que a “a mesma solução de sempre” não está sendo adotada pelo Imperialismo.

O autor esquece a saída principal que o Imperialismo sempre adota como uma forma de recomposição de seu poder, A GUERRA. No século XX as nações imperialistas, claramente na primeira grande guerra e de forma disfarçada pelas políticas racistas da Alemanha, que na verdade na sua extensão foi encoberta tanto pelo Eixo como pelas forças Aliadas, foram guerras por mercados e melhor, foram guerras para o mercado.

Entretanto o impasse principal nas últimas décadas não está na negação do Imperialismo em utilizar guerras como solução de crises, pois como se vê no próprio trabalho de Thomas Piketty, O Capital no século XXI, que apesar de críticas mostra claramente que com as destruições ocorridas durante as guerras, posteriormente produz uma nova distribuição da riqueza com surtos de crescimento econômico em que parte da concentração é invertida.

Ou seja, guerras imperialistas não servem simplesmente para reforçar a economia de países imperialistas hegemônicos na época, ou transferir a hegemonia entre os países capitalistas de topo, mas também como uma solução natural de zerando grande parte do capital na mão de determinados grupos econômicos, começa um novo ciclo de acumulação e concentração. Já dito por autores precedentes, e confirmado modernamente por Piketty, as guerras fazem parte do principal mecanismo de reavivamento dos processos capitalistas.

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A novidade que nem Piketty nem outros autores das duas últimas décadas, explica é o porque que o Imperialismo não adota esta solução nos dias atuais. Talvez o que leva esta impossibilidade de adoção desta solução esteja nas características modernas das guerras e na correta definição do que são países imperialistas nos dias de hoje.

Várias pessoas tentam classificar tanto a Rússia e principalmente a China como países Imperialistas como classicamente se conhece. Tomando como definição de Imperialismo: “Imperialismo é a política adotada por países capitalistas hegemônicos para expandindo o seu domínio militar, territorial, cultural e econômico, simplesmente governar nações geograficamente e economicamente periféricas ao seu proveito”, fica difícil, mesmo para uma economia forte como a Chinesa defini-la como imperialista, pois subsidiariamente podemos dizer que o imperialismo, quando estabelecido, transfere a produção para as suas colônias como uma forma de transferir riquezas destas para a matriz. A China contrariamente do que faz os Estados Unidos, França, Inglaterra e algumas potências imperiais de menor potência, guarda para si a maior parte da produção, pois seu objetivo principal é introduzir no mercado de trabalho internacional imensos contingentes de nativos do seu país que ainda não participam da produção para o mercado internacional.

Por outro lado, a aposta da China em manter a produção no seu país, agindo mais como numa época pré-Imperialista onde o importante era ter produção fabril no próprio país, e por uma relação de trocas desfavorável entre seus produtos industriais aos produtores de produtos de baixo valor agregado das colônias, obter a exploração das mesmas, traz consequências que aos poucos o grande Império Norte-americano se dá conta: A capacidade de produção de armamentos crescente na China tanto em quantidade como em qualidade.

Vemos pelas provocações crescentes que a capital do Império do ocidente faz tanto com a Rússia como conta a China, mostra o animus beligerante que testou a Rússia na Síria e começa a afrontar a China em outras partes do mundo.

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Porém, toda esta vontade de adotar a mesma solução de sempre, ou seja, as guerras, tem sido barrado por um motivo que supera o econômico, guerras para potências só podem ser feitas quando esta tem possibilidade de vencer!

Quem acompanha de perto as preocupações norte-americanas com a sua própria capacidade bélica, vê que nas últimas duas décadas, a capacidade do Império em levar uma guerra exitosa contra Rússia, China e mais outros países, como o Irã está totalmente abalada pelos estrategistas militares quem não estão a serviço direto dos empreiteiros de construção militar. Se seguirmos as publicações de revistas especializadas não só em armamentos, mas também em estratégia militar, vemos que está havendo uma série de opções adotadas em termos de armamentos e estratégia que consomem enorme orçamentos sem uma correspondente supremacia efetiva em termos de confronto direto ou mesmo em guerras por procuração.

A estratégia militar de supremacia dos Estados Unidos, seguiu ao êxito que eles obtiveram na segunda grande guerra, principalmente lutando contra o Japão, ou seja, uma marinha que projeta o poder ao longo do mundo pela presença de seus onze porta-aviões com mais dois a serem terminados em 2020 e 2023. Os demais países do mundo, excetuando a Inglaterra nos meados do século XX e o Japão durante a segunda grande guerra, nunca tiveram mais de dois ou três porta-aviões. A diferença principal da China e Rússia aos Estados Unidos é que enquanto este último ainda gasta fortunas da ordem do trilhão de dólares nos seus navios eles investem em mísseis hipersônicos dedicados a afundar porta-aviões. Na própria marinha norte-americana há diversas críticas a concentração do poder naval em porta-aviões, pois como dizem alguns almirantes, os países sempre estão se armando para lutar a última guerra que fizeram, e criticam a fragilidade destes navios em relação aos mísseis a eles dedicados.

Além da marinha os Estados Unidos até o início deste século mantinham uma superioridade aérea incontestável, porém más escolhas levaram a aviões de manutenção extremamente caras (F-22 que foi descontinuado) e o enigmático F-35 (Lockheed Martin F-35), que era previsto para substituir os aviões da aeronáutica, da marinha e dos fuzileiros navais. Este avião, análogo aos equipamentos de som três em um, era planejado por ser modulado de acordo com as três forças, entretanto com o tempo se verificou que a economia de escala que pensavam que teria resultou em três aviões distintos. Diversos problemas atrasaram a entrega prevista das três versões entre 2012 a 2014, resultando que só uma das versões, a para o exército foi considerada operacional (após rebaixar as exigências iniciais) em 2018 e o custo total do projeto se elevou a 1,8 trilhão de dólares.

Com todos os erros cometidos, tanto na insistência dos porta-aviões como na demora da colocação em serviço dos aviões “stealth” (aviões furtivos ou invisíveis ao radar) deu tempo para a China colocar em uso o seu próprio avião “stealth” o Chengdu J-20 (com previsão de um segundo) e a Rússia termina o seu Sukhoi S-57 Pak FA. Como o J-20 já está em operação desde janeiro de 2018 e o S-57 já foi testado brevemente na Síria, o domínio da tecnologia “stealth” deixou de ser uma vantagem norte-americana. Além disto as versões para a Marinha e para os Fuzileiros Navais ainda não foram comissionadas.

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Com todos estes problemas nos armamentos norte-americanos, os USA não tem mais certeza da sua superioridade contra a Rússia e China juntos, sendo que na verdade até para bloquear o estreito de Oman (onde passa 20% do petróleo do mundo) os Iranianos estão planejando e implementando sistemas de mísseis de curto alcance que não deixa tranquilo a US Navy, mesmo países ocidentais, como a Suécia, que num jogo de guerra “afundou” o principal porta-aviões norte-americano na época (2005) o Nimitz com um pequeno e silencioso submarino convencional que custa menos do que um dos aviões embarcados. A Alemanha tem um projeto em desenvolvimento para criar radares que enxergam os aviões invisíveis!

Em resumo, além de uma possibilidade de uma guerra nuclear, que demoliria o mundo, na guerra convencional a única coisa que é certa que só ganham são os grandes empreiteiros de armamentos norte-americanos que vedem gato por lebre para o governo.

 

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