Porque negros seriam marionetes de brancos?

O Diário do Centro Mundo, do jornalista Paulo Nogueira, faz a chamada para o texto de Cidinha da Silva, anunciando “a nova marionete negra do MBL”, uma missionária angolana, negra, que papagueia clichês de extrema-direita, usando sua negritude como local de fala para legitimar tais posições – afinal, se uma negra está falando…
Deixo de lado Ruth Catala, a missionária do ódio, e a estratégia manjada e eficiente do MBL, que se aproveita dessa legitimidade como ator político construído a duras pelas pelos movimentos de minorias para minar as próprias minorias, e me centro no texto de Cidinha.
Seu texto sofre de um péssimo cacoete dos movimentos de minorias com pé na academia, em que a política é substituída pela epistemologia, na (vã) esperança de alcançar uma verdade e com isso vencer o debate público, e ontologizam (ainda que pela esquerda) aspectos eminentemente políticos. Dizer que Ruth Catala, assim como Fernando “Holiday” Silva, são “marionetes do MBL” é de um preconceito equivalente de quando a classe média formada nos cursos mais disputados da USP fala que “nordestino” (esse ente genérico que mora do meio de Minas Gerais para cima) não sabe votar e vende seu voto pelo “Bolsa-Família do Lula”.
Que sejam utilizados pelo MBL, não há dúvida; a questão é: também eles não se utilizam do MBL? Ruth Catala ainda é uma tentativa, mas Fernando Holiday Silva mostra que ele foi feliz no seu intento.
Se tivesse se unido ao movimento negro em busca de mais dignidade para todos, qual a possibilidade de Holiday estar ganhando hoje 15 mil reais por mês, de poder pedir que a GCM proteja suas “criancices” fascistas, ao invés de estar tomando geral da PM toda vez que resolvesse se divertir inocentemente à noite, de ser conhecido e reconhecido em todo o país como uma celebridade política do espetáculo? Ainda que preste um desserviço aos negros, às atuais e futuras gerações, ao Brasil, é preciso admitir que pessoalmente ele se deu bem, muito bem – e Ruth Catala percebeu e tenta vencer na vida pelo mesmo rumo. O fato de serem negros não os tornam menos responsáveis pelo caminho que decidiram tomar, não os tornam menos pulhas pelo discurso de ódio que proferem.
Achar que negro que ataca negro é mera marionete de branco é recusar aos negros sua condição de sujeitos; e há sujeitos mau-caráter entre negros assim como há entre brancos, entre mulheres como há entre homens, entre gays como há entre heteros: somos todos do mesmo barro, a cor da pele não cria uma forma particular de pensar, a condição de oprimido não beatifica ninguém, pertencer a uma minoria não é automaticamente um despertar da consciência de sua condição e de seus próximos.
Paulo Freire mofa nas prateleiras da esquerda (talvez mais que nas da direita) à espera de ser relido. Não é a reforma do Ensino Médio proposta pelo golpista que gerou essa situação (muito menos que vai mudá-la): quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor. O conhecimento produzido por pesquisadores preocupados com seus índices de produtividade (condição para seu sucesso pessoal acadêmico), confinados em campus distantes da população, cercados, normatizados e vigiados, até agora pouco tem ajudado na libertação de uma massa que sobrevive com rebarbas da opressão escravocrata – por sorte, fora da universidade, por sua própria coragem e vontade, a população resiste e reage, ainda que a custo de sangue. Se Catala e Holiday são sujeitos e chegaram aonde chegaram, isso é graças às lutas do movimento negro. Mas enquanto o nosso foco estiver em epistemologizar questões sociais, em vencer pela episte o que é uma doxa, em achar que a ciência vai superar a política, esta seguirá com sua soneca tranquila, para deleite da direita.

08 de março de 2017

Texto da Cidinha da Silva no DCM: http://bit.ly/2mlmQ7N

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