Precisamos de um país de engenheiros

Por Rogério Maestri

Precisamos um país de engenheiros.

Há pouco li que o Brasil é um dos países que tem mais Bacharéis em Ciências Jurídicas do mundo, tendo um número considerável de faculdades, escolas e universidades que fornecem cursos de Ciências Jurídicas.

Bacharéis de Ciências Jurídicas, como os advogados, promotores, juízes de desembargadores são essenciais para a existência de um país civilizado, porém todos estes profissionais não se justificam em si mesmo, a lei já foi aplicada por clérigos, reis e nobres em geral, talvez a aplicação não fosse justa nem permitia ao acusado ou aos prejudicados uma justiça correta, porém o mundo ia adiante e a fila andava. Criamos dentro do espírito republicano toda uma estrutura jurídica formal e mesmo desta forma a justiça sofre imensas restrições de grande parte da população, ou seja, mesmo com uma grande e complexa estrutura evoluímos pouco da justiça aplicada por um déspota esclarecido.

Colocando claro que as sociedades funcionam precariamente sem um judiciário, fica extremamente custoso ao país gastar imensos recursos para formar milhares de bacharéis em ciências jurídicas bem acima da necessidade do país.

Por outro lado, o que chamo de engenheiro, baseado na raiz etimológica da palavra latina  ingenium, isto é, aquele que tem qualidade, talento, genialidade, habilidade para engenhar (fabricar, montar ou consertar), seriam todas as profissões que trabalham na base da criatividade e da engenhosidade. Um Arquiteto, um Geólogo, um Pedreiro, um Soldador, um Químico, um Cirurgião ou um Torneiro Mecânico são todos engenheiros, pois todos devem ter a qualidade de produzir algo, ou engenhar algo.

Estas profissões são essenciais para vida moderna, diferentemente dos bacharéis, uma sociedade que não possuísse engenheiros na concepção lata da palavra, seria uma sociedade de caçadores-coletores. Ou seja, voltaríamos para antes da idade da pedra, pois para lascar a pedra é necessário engenharia.

Vemos que nos dias atuais, mesmo na ciência jurídica, tanto no civil como no criminal necessita de especialistas fora da área do direito, exames de DNA, impressões digitais, análise de conteúdo em computadores tudo isto se não utilizado torna o direito uma ciência do século XIX. Um dos maiores problemas de nossas polícias, um dos pilares do sistema jurídico esta na exigência de ter como chefe da investigação necessariamente um bacharel de ciências jurídicas, e vemos que nas sociedades mais desenvolvidas as investigações são mais técnicas do que meramente a de enquadramento de um réu a um determinado artigo das inúmeras leis que temos. Não adianta nada, termos alguém que chefiando um grupo de investigações tem perfeitamente claro todos os códigos e todas as leis, mas não tem conhecimento científico para achar o criminoso.

Uma sociedade de engenheiros, como preconizo para o Brasil, seria uma sociedade que valorizaria a criatividade, o talento e a engenhosidade, se aliada a estas características natas do brasileiro, teríamos uma sociedade de notáveis.

Estamos copiando o modelo norte-americano a partir do meio do século XX, onde as figuras dos advogados reinam como figuras proeminentes e notáveis. Esquecemos que este país cresceu não por suas escolas de direito, mas sim pela engenhosidade e criatividade dos seus engenheiros do início do século XX, engenheiros que na época muitos não tinham uma educação formal, mas através de sólidos conhecimentos dos produtos que fabricavam e comercializavam levaram a sociedade norte-americana para frente. A partir do fim do século XX, a figura do engenheiro norte-americano se tornou no seio de sua sociedade como algo patético e intercambiável. O marketing, a propaganda e os esquemas comerciais passaram a ser o mais relevante, e a capacidade de produzir vai se perdendo pouco a pouco substituída pela capacidade de produzir dos orientais, primeiro os japoneses, depois os coreanos e chineses, numa sucessão de perda de capacidade de produzir que um dia poderá ser posta em questão por aqueles que ainda aceitam o dólar como moeda de troca.

Precisamos transformar nossos criativos construtores de engenhocas e gambiarras em criativos construtores de produtos de qualidade, mas para isto precisamos valorizar quem engenha e é criativo, não quem não deve ser criativo, pois deve seguir as leis dentro de seus rigores e não inventar novas leis.

Precisamos um país de engenheiros, engenheiros no sentido lato da palavra, como aquele que engenha e produz, pois de leis e bacharéis já temos em excesso.

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