Processo de internacionalização deve estar alinhado com governo

A sétima edição do Fórum de Debates Brasilianas.org, realizado nesta segunda-feira (29), no Instituto de Engenharia, em São Paulo, foi dedicada às multinacionais brasileiras, seus desafios e avanços no mercado internacional. Entre os convidados, o público presente assistiu a apresentações de representantes do BNDES, da Odebrecht e da Apex, entre outros.

No início do primeiro painel do evento, o vice-presidente de Planejamento, Pessoa e Organização da Odebrecht, André Amaro, forneceu um panorama de toda a holding, mostrando os principais fatores de sucesso e equívocos da empresa, que começou como empreiteira, há 67 anos.

Segundo Amaro, o processo de internacionalização da Odebrecht aconteceu de forma precoce, tendo por trás a idéia de que atuar em outros países é tão natural quanto atuar nos demais estados brasileiros. A partir da década de 1980, a companhia partiu para Peru, Chile Venezuela, onde tem atuação forte, e, há 20 anos, nos EUA, com expansão orgânica, permanente e natural.

Em relação a Angola, a Odebrecht atua no segmento de óleo e gás, com um campo de petróleo. De acordo com Amaro, a expansão deve avançar na África, uma vez que o continente está saindo do ostracismo e se firmando como mercado importante em crescimento.

Sobre as realizações imobiliárias, o representante da Odebrecht afirmou que, aqui no Brasil, não se verificou a bolha especulativa, e com isso o país está, hoje, ampliando as linhas de crédito para construir uma estrutura imobiliária que antes não existia.

Em 2009, o faturamento da Odebrecht foi de US$ 23,340 milhões, com um total de 88 mil integrantes. Para Amaro, o crescimento é equilibrado, dentro e fora do país. Mesmo assim, a construtora é o braço da holding que mais atua internacionalmente; foram R$ 20 bilhões em novos contratos internacionais. Amaro explicou que, embora o Brasil apresente oportunidades cada vez mais crescentes, a Odebrecht segue o fundamento da descentralização. “A operação nos outros países aumenta e já falamos em novos países para investir. No nosso planejamento, queremos promover uma abertura de novos mercados”, disse.

Amaro acredita que, para que isso ocorra, não se pode levar em conta uma agenda oportunista e leviana. É preciso, nesse contexto, conciliar os interesses dos países envolvidos, pois cada um tem interesses próprios, com características específicas de mercado. E, no caso de uma multinacional, é preciso construir estratégias capazes de convergir com diferentes realidades. Para exemplificar, o convidado citou Portugal, onde a Odebrecht também atua, e onde há, no momento, problemas relacionados à atual crise do continente europeu.

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Entre as outras empresas da holding, Amaro citou a ETH, que se fundiu com a Brenco, tornando-se a empresa líder no Brasil na produção de etanol e na co-geração de energia, contando com nove unidades no Brasil. Já a Braskem, também sob o véu da Odebrecht, consolidou-se na posição de empresa petroquímica líder na América Latina e maior produtora de resinas das Américas, contando com 29 plantas petroquímicas – 26 no Brasil e 3 nos EUA, com capacidade de produção superior a 6 mil kt por ano.

Durante a apresentação, Amaro ainda aproveitou para falar de como a imagem do Brasil no cenário internacional, por meio do processo de internacionalização, está em alta. “Há um grande respeito pela capacidade industrial brasileira, uma curiosidade. Olham para o brasileiro como alguém que veio compartilhar conhecimento de alto nível”, apontou.

No âmbito da exportação de serviços, a Odebrecht é a maior exportadora brasileira, com forte presença internacional (mais de 70% da receita em 2009).Segundo Amaro, o valor exportado foi de US$ 458 milhões. Além disso, a companhia se preocupa com a formação de uma cadeia produtiva, por meio da capacitação dos fornecedores brasileiros; hoje, são 1330 fornecedores de bens, sendo 40% formados por pequenas e médias empresas, e 1544 prestadoras de serviços, sendo 90% formados por pequenas e médias empresas.

Sobre os parceiros, Amaro disse que, depois de 30 anos, vários deles já foram para fora com a Odebrecht, o que aumenta a robustez da empresa. Entretanto, há certos fornecimentos, de baixo valor agregado, que não justificam a ida desses parceiros para fora.

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As parcerias com o governo federal também foram destacadas por Amaro. De acordo com ele, a consolidação da presença da Odebrecht no mercado financeiro internacional seria impossível sem a parceria com o governo e as agências de fomento. Foram determinantes, também, os recursos do Banco Mundial e do BNDES, mas ainda é difícil precisar quais são os fatores conjunturais e quais os fatores relativos à própria empresa, responsáveis pela consolidação da Odebrecht no exterior.

Sobre o gargalo de pessoas qualificadas, Amaro acredita que quando se trabalha com descentralização muito grande, precisa-se de uma confiança extrema depositada nos líderes que ficam nos mais diversos países onde a Odebrecht opera. “A melhor forma de desenvolver um integrante é formá-lo pelo trabalho, por meio de um bom programa de ação, que o eduque pelo trabalho”, explicou.

Nesse sentido, a experiência estrutural da Odebrecht se destaca com um sistema de troca de conhecimento bastante participativo e não hierarquizado. O esquema funciona baseado na troca de informações técnicas entre funcionários localizados em vários países, inclusive o Brasil. De maneira natural, foram estabelecidas comunidades de especialistas, formadas por engenheiros, economistas e técnicos, que trocam conhecimentos em fóruns. Dessa forma, os integrantes podem identificar quais as melhores práticas e se elas podem ser adotadas em todos os demais países. Por último, Amaro disse ser imprescindível que a organização esteja alinhada geopoliticamente com o governo brasileiro. “Não podemos ir à contramão do governo federal”, ressaltou.

Para acessar a apresentação de André Amaro na íntegra, clique aqui.

Saiba mais sobre o que foi discutido no 7º Fórum de debates Brasilianas.org – As Multinacionais Brasileiras:

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