Quando Cabral era gay

Embora o dia da Parada, hoje, possa sugerir, o texto de Joel Rufino dos Santos não mantém nenhuma relação com com ela e sim com o Golpe de 64 e o sanatório geral instalado no país durante a ditadura.

Da Folha – Ilustríssima – 26/06/2011

ARQUIVO ABERTO

MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Quando Cabral era gay

Rio de Janeiro, 1965

JOEL RUFINO DOS SANTOS

O golpe de 64 fechou o Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), rasgou quadros, estripou poltronas, destruiu a valiosa biblioteca. Meses depois, suas raridades eram achadas em sebos, vendidas por policiais.
Eu era assistente de Nelson Werneck Sodré no departamento de história social do instituto. Fomos nos refugiar na casa do meu irmão, sargento do Exército, último lugar em que nos procurariam. Só que ele estava se separando da mulher.
Numa visita esporádica, encontrou na sala o estranho, que se identificou como general de brigada. Meu irmão hesitou entre se enquadrar e lavar a honra. Eu fora sondar o ambiente no bairro e cheguei na hora. Se meu irmão optasse pela segunda alternativa, não haveria o que vou contar.
Em 1965, os autores da coleção “História Nova” (produção conjunta do Iseb com o MEC), inclusive Sodré, fomos presos. Certo dia um tenente, jovem como eu, me tirou da cela para cortar meu cabelo. Não admitia cabeludos ali. O barbeiro era um velho sargento reformado ou talvez civil, não me recordo.
Enquanto me aplicava a máquina zero, com a curiosidade própria do ofício, perguntou ao tenente por que eu estava ali. “É um subversivo”, respondeu. Passa um tempo, o barbeiro insiste: “Mas subversivo como?” “Subversivo, porra”, ranhetou o tenente. Barbeiros não se conformam com meias respostas. “Mas o que fez?” O tenente, já de cara amarrada, braços cruzados, deu a explicação definitiva. “Um general comunista, Nelson Werneck Sodré, convenceu esse aí a reescrever a história do Brasil.”
Passam-se então alguns minutos. O barbeiro arrisca uma derradeira pergunta. “Reescrever a história do Brasil, como assim?” Furioso e embaraçado, o tenente encerra: “Eles escreveram, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral era viado!”.
Não é anedota. A contra-agitação daqueles anos se caracterizou por crendices assim. Sujeitos bem-intencionados, fardados ou não, reproduziam invencionices, precisavam delas para obedecer e agir. Os chefes mandavam prender; tenentes e investigadores, funcionando pela lei da gravidade, enchiam a cabeça de absurdos. Houve pior: fui agredido por um certo Bonecker por termos escrito que Caxias estuprara a própria avó.
A “História Nova” nem fora ideia de Werneck Sodré “”ele apenas a abraçou com entusiasmo. Nasceu numa tarde do verão de 1963, no Leblon. Um grupo de estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia, inconformado com a ruindade do ensino, planejou reescrever capítulos da história brasileira o descobrimento, as invasões holandesas, a independência de 1822, o sentido da Abolição e o advento da República, entre outros. Seriam a reforma de base no campo da história. Saíram cinco volumes pela Campanha de Assistência ao Estudante, do MEC.
Distribuídos gratuitamente a professores secundários, alcançaram êxito imediato, que se repetiu quando da segunda edição, em 1965, pela Brasiliense. Essa nova tiragem foi apreendida, e nós, presos. O policial nos indagou, de imediato, pelo paradeiro de um certo Immanuel Kant.
A “História Nova” não existiria sem Werneck Sodré. Éramos estudiosos, mas ignorantes. Ele, historiador consagrado, orientava, discutia conosco o texto, emprestava o nome. Tinha suas cismas. Uma vez, nos foi visitar um brasilianista de gravata borboleta. Queria dados da realidade brasileira. Sodré o levou pelo braço até a varanda e apontou a favela Santa Marta. “Está tudo ali. Passe bem.”

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