“Quando Eu Era Vivo” mergulha na matriz edipiana do terror

Em um circuito dominado pelas comédias do Globo Filmes, é bem vinda a nova geração de cineastas brasileiros que se enveredam pelo gênero do terror. É o caso de Marco Dutra com produção recente “Quando Eu Era Vivo” (2014). Se no filme anterior “Trabalhar Cansa” (2011) a atmosfera de estranhamento e terror era construída dentro do drama social do trabalho precarizado da classe média, agora Dutra mergulha na matriz edipiana do gênero do terror: tensão e mal estar na relação pai, mãe e filho. Com ótima fotografia e design de áudio, um apartamento aos poucos se transforma em um casarão gótico mal assombrado por uma estranha energia que vem do passado e parece possuir aos poucos o protagonista. Novamente Marco Dutra traça um perfil psicológico da classe média: o apego a uma espécie de “superstição secundária” baseada no pastiche esotérico-religioso que tenta esconjurar a realidade de um fracasso conjugal. Filme sugerido pelo nosso leitor Mário.

O gênero terror é um ótimo objeto para as análises de psicanálise no cinema. Principalmente porque a sua matriz é essencialmente edipiana: dramas envolvendo culpa, incesto, a sedução da inocência, sexo culpado (sadomasoquista), a percepção corpo fragmentada do corpo pelo infante pré-formação do ego (daí o porquê do fascínio pelos corpos despedaçados, vísceras e sangue no cinema de terror) etc.

E, principalmente, o Mal e o Estranho como os nossos próprios impulsos aos quais deveremos renunciar na resolução do Édipo e na entrada ao mundo da Cultura. Os filmes de terror dramatizariam a nossa própria luta interna em ter que renunciar a Natureza (prazer, impulso, gratificação imediata) em nome da Cultura (renúncia e sublimação).

O gênero terror nunca teve uma tradição no cinema brasileiro, mas apenas poucos nomes. O primeiro deles Zé do Caixão nos anos 1960, passando por Walter Hugo Khouri (Anjo da Noite e As Filhas do Fogo) e Carlos Christensen (Enigma para Demônios) na década de 1970 e nos anos 1980 a dupla José Antônio Garcia e Ícaro Martins (A Estrela Nua, 1984) e Antonio Carlos Fontoura (Espelho de Carne, 1984).

       

Aos poucos, filmes de uma nova geração de cineastas que experimentam esse gênero estão chegando ao circuito comercial atualmente dominado pelas comédias blockbusters da Globo Filmes. A dupla Marco Dutra e Juliana Rojas é um exemplo: construíram uma série de curtas do gênero Fantástico para chegar ao primeiro longa Trabalhar Cansa (2011, já analisado por esse blog, clique aqui). Se nesse filme o terror é mais sugerido, tendo como pano de fundo um drama social, em Quando Eu Era Vivo Marco Dutra aprofunda no suspense e terror, aproximando-se da iconografia e clichês do terror mais hollywoodiano.

Por abandonar (ou nem tanto, como veremos) o drama social como pano de fundo, Marco Dutra mergulha na essência da matriz edipiana do terror: o mal estar e a tensão não resolvida entre filho, pai e mãe. Dutra segue à risca as fórmulas do gênero terror, porém com um diferencial: assim como em Trabalhar Cansa, o diretor parece fazer um estudo psicográfico ou etnográfico das classes médias brasileiras.

Em Trabalhar Cansa, o mal estar do trabalho precarizado e do desemprego associado a busca de explicações no sobrenatural e na magia; em Quando Eu Era Vivo, o drama edipiano tardio de um filho recém-separado que retorna à casa do pai para ser apoderado por alguma energia sinistra que vem de um passado não resolvido.

O Filme

O filme acompanha Júnior (Marat Descartes) retornando à casa do pai viúvo chamado Sênior (Antônio Fagundes), depois do fim de um casamento, o desemprego e a luta na Justiça pela guarda do filho. O pai o recebe, mas percebemos que há um mal estar difuso entre os dois. Sênior tenta arrumar vaga em Hotel e contatos de trabalho para o filho, mas Júnior recusa tudo: ele prefere morar em um quartinho na área de serviço do apartamento ao descobrir lá reminiscências escondidas da falecida mãe.

 

          Enquanto Sênior  quer fugir das lembranças imergindo nos exercícios físicos (o apartamento é repleto de aparelhos de ginástica e halteres) e em aventuras amorosas, Júnior está fascinados pelos objetos, cartas, desenhos e partituras musicais deixadas por sua mãe.

Aos poucos descobrimos que ela tinha uma forte tendência para o ocultismo, o que vai levar a narrativa aos elementos consagrados do gênero: rabiscos macabros de criança, cantigas, estranhas, mensagens cifradas, bibelôs e objetos de decoração sinistramente kitschs e, claro, bonecos de pano que dão o toque da inocência ultrajada, um dos leitmotifs edipianos do gênero terror.

Sênior aluga um quarto para Bruna (Sandy Leah), uma estudante de música e canto. A escolha inusitada de Sandy para o filme não poderia ter sido mais acertada: segue à risca o manual do gênero ao escolher uma beleza de porcelana com sua voz doce que se torna particularmente perturbadora em uma cena envolvendo magia negra. Mais uma vez o tema edipiano da inocência ultrajada. Toda a sua beleza e pureza aos poucos vai se convertendo em perversão. Enquanto sua voz suave vai aos poucos adquirindo uma tonalidade macabra.

Júnior acredita que sua mãe está lhe querendo dizer alguma coisa. Os estranhos vídeos que encontra mostrando ele e seu irmão na infância envolvidos em estranhos rituais com sua mãe (como, por exemplo, a produção das cabeças de gesso dos garotos em um ritual que se torna ainda mais sinistro nas imagens granuladas e de baixa qualidade em VHS) só reforçam sua curiosidade que evolui para a obsessão e loucura.

A tensão edipiana

Ao contrário do terror hollywoodiano cheio de reviravoltas, em Quando Eu Era Vivo acompanhamos um processo lento cuja fotografia e design de áudio são fundamentais para a criação progressiva de uma atmosfera claustrofóbica aterrorizante que faz lembrar o terror “sala-quarto-cozinha” como em O Inquilino e O Bebê de Rosemary de Roman Polanski – o filme começa com um apartamento iluminado daquelas lâmpadas econômicas de classe média para evoluir para a escuridão, transformando um pequeno apartamento em um casarão gótico em constante clima de velório.

     

A tensão edipiana tardia sugerida pela narrativa é curiosa, pois não reedita as clássicas relações com a mãe. O drama está concentrado na relação pai e filho. O apego do filho à memória da mãe, a forma como espalha seus objetos kitschs novamente pela casa, tentando reencenar o passado, apontam o tema moderno da dificuldade em introjetar o pai.

“Esse homem não é o meu pai”, diz constantemente Júnior, sugerindo a possibilidade de um parricídio. Júnior odeia o pai por ele nunca ter compactuado com as “manias” ocultistas e religiosas da mãe. Já vimos em postagem anterior que ausência do pai (física e/ou simbólica) faz parte do processo de esvaziamento simbólico das funções de socialização da família atual. A introjeção do Pai (Cultura e a Lei) passam problematicamente para os meios de comunicação e sociedade de consumo – sobre isso clique aqui.

 

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