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Relembrando a crise de 2008: Os modelos financeiros globais

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Publicado originalmente em 25/1/2009

Por Indio Tupi

Aqui do Alto Xingu, os índios ponderam que grande parte do debate dentro da corrente principal sobre as causas da crise assume a forma de uma teoria “do acidente”, que explica a derrocada como resultado de ações contingenciais por parte, por exemplo, do FED de Alan Greenspan, ou dos bancos, ou dos supervisores ou das agências de classificação de risco. Uma estrutura relativamente coerente, que denominam do Novo Sistema de Wall Street, deve ser compreendida como tendo causado a crise. Mas, além do argumento acima, observam um aspecto notável dos últimos vinte anos: a extraordinária harmonia entre os operadores de Wall Street e os supervisores em Washington. Tipicamente, na história norte-americana ocorreram fases de grandes tensões, não apenas entre Wall Street e o Congresso, mas também entre Wall Street e o Executivo. Isso foi verdade, por exemplo, em grande parte dos anos 1970 e 1980. Contudo, ocorreu uma nítida convergência no último quarto de século, o sinal de um projeto algo bem integrado.Uma explicação alternativa, bem aceita nos meios social-democratas, argumenta que tanto Wall Street quanto Washington foram tomados por uma falsa ideologia “neoliberal” ou de “livre mercado”, que os desviou do bom caminho. Um giro criativo de extrema-direita nessa crença sugere que a ideologia problemática foi o “laissez-faire” – ou seja, nenhuma regulação -, enquanto o de que se necessita é um “pensamento de livre mercado”, o que implica alguma regulação. A conseqüência de qualquer das versões é normalmente uma discussão algo inócua sobre “a dose” ou “o tipo” de regulação que consertariam as coisas.

O problema com essa explicação é que, embora o Novo Sistema de Wall Street tenha sido legitimado pelas perspectivas do livre mercado, do laissez-faire ou do neoliberalismo, parece que essas não foram as ideologias operativas dos seus praticantes, seja em Washington ou em Wall Street.

No detalhado estudo dos bancos de investimento de Wall Street, intitulado “The Greed Merchants”, Philip Augar argumenta que eles operaram, em grande parte, como um cartel consciente – o oposto de um mercado livre. É evidente que nem Greenspan nem os Presidentes dos bancos acreditaram nas versões sérias desse credo: economia financeira neoclássica. Greenspan não tem argumentado que os mercados financeiros são eficientes ou transparentes; ele aceitou plenamente que eles podem tender para bolhas e estouros. Ele e seus colegas têm estado bem cônscios dos riscos de sérias crises financeiras, nas quais o estado norte-americano teria que lançar mão de vultosas quantias em dinheiro dos contribuintes para salvar o sistema.

Também entenderam que todos os diversos modelos de risco usados pelos bancos de Wall Street eram falhos – e estavam condenados a ser – uma vez que pressupunham um contexto geral de estabilidade do mercado financeiro, dentro do qual um banco, em um setor de mercado, poderia defrontar uma ameaça repentina; a solução deles era, em essência, diversificar o risco pelos mercados. Portanto, os modelos ignoraram as ameaças sistêmicas de que Greenspan e outros estavam bem conscientes: uma repentina reviravolta negativa em todos os mercados.

Os dois principais argumentos de Greenspan eram algo diferentes. O primeiro era que, entre os estouros, o melhor modo de as instituições faturarem horrores era eliminar as restrições sobre o que os atores privados podiam fazer; um setor altamente regulado faturaria muito menos. Essa ponderação é certamente verdadeira. Sua segunda ponderação é que, quando as bolhas estouram e as rupturas ocorrem, os bancos, intensamente ajudados pelas autoridades estatais, podem enfrentar as conseqüências. Esse também é um artigo de fé de Bernanke. O debate real sobre a organização dos sistemas financeiros nas economias capitalistas não é acerca dos métodos e modos de regulação.

É o debate entre opções sistêmicas em dois níveis: • um sistema bancário e de crédito público, voltado para a acumulação de capital no setor produtivo versus um sistema bancário e de crédito capitalista, que subordine todas as outras atividades a seus próprios impulsos para o lucro; e • um sistema monetário e financeiro sob controle cooperativo nacional-multilateral versus um sistema com caráter imperial, dominado pelos bancos e estados Atlânticos atuando em conjunto. Todos os sistemas econômicos modernos, capitalistas ou não, necessitam de instituições de crédito para facilitar as trocas e as transações; necessitam de bancos para produzir dinheiro a crédito e sistemas de compensação para facilitar a liquidação de dívidas. Esses são serviços públicos vitais, como um serviço de saúde.

Eles são também inerentemente instáveis; a essência de um banco, afinal de contas, é a de que eles não mantêm fundos suficientes para satisfazer instantaneamente todos os direitos de seus depositantes. Assegurar a segurança do sistema exige que a competição entre os bancos deva ser suprimida. Ademais, as questões de diretrizes sobre para onde o crédito deve ser canalizado são aspectos de grande importância econômica, social e política. Assim, é racional a propriedade pública do sistema bancário e de crédito e, na verdade, necessária, juntamente com o controle democrático. Um modelo público dentro dessas linhas pode, em princípio, funcionar no capitalismo. Mesmo hoje, a maior parte do sistema bancário alemão permanece em mãos do setor público, por meio dos bancos de poupança e dos bancos estaduais.

O sistema financeiro chinês é esmagadoramente centrado num punhado de grandes bancos de propriedade pública, e o governo chinês, na verdade, dirige suas estratégias de crédito. É possível divisar tal modelo público operando com bancos privatizados. O sistema bancário japonês do pós-guerra teve esse caráter, com todos os bancos estritamente subordinados aos controles das diretrizes do Banco do Japão por meio da “janela do redesconto”. No pós-guerra, o cartel dos bancos comerciais britânicos pode também ser considerado como operando amplamente dentro dessa estrutura, embora extraindo lucros excessivos de sua clientela.

Mas o sistema de crédito privado capitalista, centrado nos bancos, operaria dentro da lógica do capital dinheiro – na fórmula de Marx, D-D`: adiantando dinheiro a terceiros para ganhar mais dinheiro. Assim que esse princípio é aceito como o alfa e o Omega do sistema bancário, a lógica funcional aponta em direção à apoteose de Greenspan. Esse é o modelo que foi adotado pelos Estados Unidos e o Reino Unido desde os anos 1980: tornar rei o capital dinheiro. Envolve a total subordinação das funções públicas do sistema de crédito à auto-expansão do capital dinheiro. Na verdade, todo o espectro da atividade capitalista submerge sob o manto do capital dinheiro, no sentido de que este último absorve uma parcela crescente do lucro gerado em todos os outros setores. Esse tem sido o modelo que ascendeu à dominância como o que denominamos o Novo Sistema de Wall Street.

Tem sido um gerador de riqueza extraordinária dentro do sistema financeiro e, na verdade, transformou o processo de formação de classes nas economias anglo-saxônicas. Esse modelo, hoje, está em crise profunda. O segundo debate envolve a garantia dos sistemas financeiros. Seja público ou privado, os sistemas bancário e de crédito são inerentemente instáveis em qualquer sistema em que o produto é validado após a produção, no mercado. Em tais circunstâncias, esses sistemas devem ser garantidos e controlados pelas autoridades públicas que detenham o poder de tributar e de emitir moeda.

Enquanto forem entidades minimamente públicas – não inteiramente cooptadas pelos interesses privados do capital dinheiro – essas autoridades desejarão prevenir crises tentando colocar o comportamento do sistema financeiro aproximadamente de acordo com as linhas dos objetivos (micro e macro) econômicos. Atualmente, apenas os estados têm capacidade para desempenhar esse papel. Os manuais de Basel I ou II não podem fazer isso; nem a Comissão Européia ou o BCE. Intrigantemente, o projeto Atlântico agrupado sob o nome de “globalização econômica” – o sistema de fiat dólar, de fim dos controles de capitais, de livre ingresso e saída dos grandes operadores do Atlântico nos outros sistemas financeiros – tem assegurado que a maioria dos estados foi despojada da capacidade de garantir e controlar seus próprios sistemas financeiros: daí as intermináveis explosões no Sul ao longo dos últimos trinta anos.

Os interesses empresariais do Atlântico se beneficiaram dessas crises, não apenas porque suas perdas foram cobertas pelo seguro do FMI – pagas posteriormente pelo povo pobre dos países afetados – mas também porque foram usadas como oportunidades para escancararem os mercados de bens e trabalho desses países para a penetração Atlântica. Mas, agora, a explosão atingiu a própria metrópole central. Obviamente, as economias Atlânticas desejam manter esse sistema em vigor: as práticas abrangidas pela “globalização financeira” constituem seu setor de exportação mais rentável. Mas não está muito claro se o resto do mundo comprará uma fórmula para fazer mais do mesmo.

A alternativa seria retornar ao controle público, juntamente com a garantia pública. Isso poderia apenas ser atingido se os estados nacionais individualmente retomarem o controle efetivo, por meio de sistemas multilaterais cooperativos comparáveis àqueles que existiram antes de 1971, implementados em escala regional, senão que inteiramente em escala global.

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