RESPONDENDO AO DESAFIO DO MENTIROSO OLAVO DE CARVALHO

Antonio Barbosa Filho (*)

 
O livro, de 2015, tornou-se extremamente atual quando Olavo de Carvalho, um falso filósofo de extrema-direita, indicou pelo menos dois ministros para o novo governo de Jair Bolsonaro. Todos foram alunos de seus “cursos de Filosofia”, ministrados em sua casa, nos Estados Unidos, ou por internet, aos que lhe pagam para aprenderem a odiar qualquer sistema democrático ou que não se submeta inteiramente aos Estados Unidos e a uma religiosidade medieval. 
Neste capítulo (aqui resumido), desminto uma de várias mentiras do gurú da extrema-direita brasileira, hoje chegando ao poder por vias suspeitas: 
Nosso herói Olavo de Carvalho repete em dezenas de manifestações na internet que o golpe civil-militar no Brasil em 1964 não teve nenhuma participação da Agência Central de Inteligência, a famosa CIA, do governo dos Estados Unidos. Todos os documentos, gravações telefonicas e telegramas trocados entre a Embaixada dos EUA no Brasil e os órgãos superiores do governo norte-americano, inclusive os presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson, fazem parte de uma grande farsa montada…pela onipresente KGB, a agencia similar da então URSS.
“A falsificação do relato começou praticamente no dia seguinte ao golpe, quando o escritório da KGB no Rio de Janeiro, chefiado por Ladislau Pitman, inventou a história de que o golpe havia sido tramado em Washington. Ele espalhou pela mídia um documento forjado no qual um alto funcionário do Departamento de Estado cumprimentava um agente do FBI no Brasil pelo sucesso do golpe. Por que um agente do FBI? Porque o pessoal da KGB não conhecia um único agente da CIA no pais. Então usaram um do FBI”, afirma o mentiroso guru.
E Olavo, no seu tom intimidatório que causa arrepios de excitação na espinha de olavetes de ambos os sexos, lança o repto: “Continua o desafio: ô saberetas, me digam o nome de um agente da CIA lotado no Brasil na época.
Eu lhe dou o nome de trocentos agentes da KGB que estavam lá, brasileiros. Tinha inclusive um embaixador brasileiro em Moscou que era agente da KGB. Sem falar jornalistas, tem lá várias dúzias, e estão adinda aí, nem todos morreram”.
Ora, poderíamos vencer o desafio de Olavo por este segundo parágrafo de sua repetida mentira: não havia dois embaixadores do Brasil em Moscou em março de 1964. Era um só, e portanto é fácil identificar a quem Olavo calunia: o sr. Vasco Leitão da Cunha que, aliás, já estava no cargo em 1961, quando da crise dos mísseis instalados pela URSS na ilha de Fidel, o que por pouco não levou o mundo a uma terceira guerra mundial.
Pois bem: segundo Olavo, o sr. Vasco Leitão da Cunha era agente da KGB, um comunista de confiança do governo russo, certo?
A mentira cai pelo simples fato de que o mesmo Vasco foi promovido a ministro das Relações Exteriores do Brasil logo após a vitória do golpe que colocou o general Castelo Branco no poder! Ou seja: a ditadura implantada contra o comunismo, a se crer na fábula inventada por Olavo, levou um destacado comunista para o Gabinete chefiado por um ditador de direita!
Porém, há mais mentiras nesse discurso do guru do Alabama. Ele deve ser o único jornalista brasileiro que não conhece o general Vernon Walters. Ele havia servido de elemento de ligação e tradutor (falava vários idiomas) entre o comando militar norte-americano e as tropas da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália, em 1944. Foi assim que conheceu e tornou-se amigo de Castelo Branco, cujo nome apoiaria (ou indicaria, segundo algumas fontes) para ser o primeiro “presidente” pós-golpe.
Em 64, Walters era o adido militar da Embaixada norte-americana. Tinha total acesso aos oficiais superiores das Forças Armadas, especialmente do Exército.
Qualquer historiador medianamente sério, diante da profusão de documentos já abertos ao público pelos arquivos norte-americanos e brasileiros, sabe do papel de Vernon Walters na conspiração, execução e consolidação do golpe no Brasil. E o general-diplomata era um notório e destacado membro da comunidade de informações do seu país. Olavo não sabe que depois de cumprir sua missão no Brasil, entre 1962 e 1964 (mera coincidência…), o agente foi promovido a vice-diretor da CIA, em 1972, designado pelo presidente Richard Nixon. Nesta função, atuou fortemente no golpe que derrubou o presidente socialista (eleito democraticamente) Salvador Allende, no Chile. Olavo não sabe que Vernon Walters, o amigo íntimo de Castelo Branco e que indicou o general cearense para “presidir” o nosso país, foi incluído no Hall da Fama da Inteligência Militar dos EUA.
(…)
Mas não quero vencer o desafio de Olavo assim, de maneira tão sumária. Sua mentira merece ser desnudada de maneira mais detalhada (…)
Já nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que levaram milhares de senhoras às ruas de São Paulo e outros centros, de terços na mão, pedindo o fim do governo Goulart e bradando contra o Comunismo, havia o dedo de um padre que trabalhava para a CIA. Patrick Payton havia sido pároco em Hollywood, de onde foi retirado e enviado ao Brasil para insuflar as madames e ajudar a colocar a comunidade católica contra o presidente constitucional.
Documento oficial do National Security Archives (Arquivo de Segurança Nacional) afirma que “foi no governo Kennedy que a CIA começou a expandir suas ações em São Paulo e outras partes do Brasil. A CIA desenvolvia suas atividades clandestinas por todo o Brasil”. A CIA financiava instituiçõos como o IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, e o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática, que por sua vez investiram milhões de dólares nas campanhas de candidatos de direita nas eleições de 1963. “Os arquivos não deixam dúvida de que havia tal financiamento, de que havia operações secretas de propaganda da CIA no Brasil (´covered CIA propaganda operations in Brazil´). Operações de mídia, de sindicatos, dando suporte a greves, plantando falsas informações nos jornais (…) Tais medidas são feijão com arroz da CIA em muitos países onde eles organizaram a instabilidade e golpes de Estado”.
Antes que os olavetes chamem os funcionários do Arquivo norte-americano de “comunistas e petistas”, informo que o coronel Jarbas Passarinho, um “revolucionário de primeira hora” em 64, várias vezes ministro além de governador do Pará nomeado pela ditadura, confirmava que o IBAD “financiou deputados e governadores”. isso, aliás, rendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional.
Telegrama da Embaixada norte-americana ao Departamento de Estado em Washington, em 13 de março de 1964 (dezoito dias antes do golpe) dizia: “Estamos adotando medidas para fortalecer a resistência a Goulart. Ações secretas estão em curso para organizar passeatas, a fim de criar um sentimento anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas, na imprensa e nos grupos católicos”. Precisava ser mais explícito, mestre Olavo?
Tem mais: um dos maiores historiadores brasileiros, premiado nos EUA e na Alemanha, Moniz Bandeira, nos ajuda a derrubar as mentiras do “filósofo” Olavão: “A operação para eventualmente intervir no Brasil começou por volta de 1961. O Departamento de Estado, naquele ano, começara a solicitar ao Itamaraty vistos para cidadãos americanos que entravam no Brasil sob diferentes disfarces (religiosos, jornalistas, comerciantes, Peace Corps, etc) dirigindo-se a maioria para as regiões do Nordeste. Em meados de 1962, o deputado José Joffily, do Partido Social-Democrático, denunciou a ´penetration´e, no princípio de 1963, o jornalista José Frejat, através de O Semanário, revelou que mais de 5.000 norte-americanos, ´fantasiados de civis´, desenvolviam, no Nordeste, intenso trabalho de espionagem e desagregação do Brasil, para dividir o território nacional”. Há várias informações de que, caso o presidente Goulart resistisse ao golpe, com armas, a IV Frota dos EUA, que estava estacionada ao largo da costa brasileira, interviria a pretexto de “proteger os milhares de cidadãos norte-americanos”, e provocaria uma divisão do país, parte para os “vermelhos” e parte para “os democratas”. Uma Coréia do Norte e do Sul.
Documentos secretos da Marinha do Brasil foram revelados pela revista IstoÉ, em 2 de dezembro de 2011. Na matéria há várias menções a agentes da CIA atuando no país e participando de ações junto com agentes brasileiros. Dois nomes são citados, para desmoralizarmos de vez o desafio de Olavo: Manuel dos Santos Guerra Júnior e Adauto Alves dos Santos, ambos militantes do Partido Comunista Brasileiro aliciados pela CIA. Os dois casos são posteriores a 1964, mas indicam o esquema de infiltração da CIA nas organizações de esquerda, esquema que vinha de muito antes.
Chega a ser enfadonho ter que escrever sobre dados que estão ao alcance de qualquer pessoa curiosa. Pesoalmente, ouvi do ex-governador Migue Arraes que em 1963 haviam entrado no seu Estado, Pernambuco, pelo menos 600 norte-americanos que eram militares disfaçados de civis. Posteriormente, confirmei tal informação verbal do saudoso líder Miguel Arraes, mas com uma correção: o número de “imigrantes” dos EUA naquela fase foi muito maior.
Agora sou eu quem desafia Olavo de Carvalho: publique a tal lista que você diz ter, de 200 (você já disse que eram 100, e que eram 300, decida-se) jornalistas que recebiam dinheiro da KGB, no Brasil, em 1964. Até agora, depois de prometer dezenas de vezes, você não apresentou nem UM sequer!
(Trecho do livro “O Brasil na era dos imbecis – o discurso de ódio da direita”, de 1975, Clube de Autores)

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