Ricardo Boechat, jornalista

Não chegamos a ser íntimos, mas frequentemente trocávamos impressões sobre os fatos do dia, pelo telefone

Ricardo Boechat era um obcecado pelo furo. Conheci-o quando tocava a Coluna do Swan, a coluna de notas de O Globo. Estava permanentemente ligado nas notícias, parceiro à altura do colunismo social da época, que tinha em Zózimo Barroso do Amaral e em Ibrahim Sued (com quem trabalhou) os expoentes.

Tinha especial predileção pelas guerras comerciais, cultivando fontes dos dois lados, sempre atrás de furos.

Conheci-o quando me ligou certa vez, se oferecendo para me apresentar uma fonte, que queria me conhecer. Na época, já tinha o Dinheiro Vivo e, na newsletter, havia denunciado um golpe que estava sendo preparado para a futura privatização das teles: um projeto de lei propondo a atualização contábil de todos os ativos para que, quando houvesse a venda, diminuísse o Imposto de Renda dos compradores.

Por trás da estratégia, Daniel Dantas, ainda no Banco Icatu. A conversa foi apenas para Dantas mostrar como era ladino para os negócios, visionário etc. Mas me permitiu cultivar uma boa relação com Boechat.

Não chegamos a ser íntimos, mas frequentemente trocávamos impressões sobre os fatos do dia, pelo telefone.

Tempos depois, Boechat foi alvo do primeiro dos assassinatos de reputação de jornalistas perpetrado pela revista Veja, na era infame em que Roberto Civita assumiu a frente da revista. Foi grampeado quando conversava pelo telefone com Nelson Tanure, o grande adversário de Dantas no período. O grampo foi entregue a Veja, provavelmente pelo advogado Sergio Bermudez.

Boechat tornou-se capa. Conversas informais foram criminalizadas. Boechat tornou-se marcado. Perdeu o emprego em O Globo e passou uma temporada comendo o pão que o diabo amassou, com uma família com quatro filhos.

Quando resolvi enfrentar a Veja, lá por 2008, tive um almoço com ele. Informei-o de minha intenção. Machucado ainda pelo episódio anterior, queria refazer sua vida jornalística.

Deu a volta por cima com uma garra incomum. Tornou-se colunista da IstoÉ, comentarista da Bandeirantes. Rapidamente ganhou o lugar de âncora do Jornal da Band e da programação da manhã. Tornou-se figura central no jornalismo da emissora.

Na primeira década dos anos 2.000, nas pesquisas preparadas por agências de comunicação, sobre os jornalistas mais influentes junto ao meio empresarial e ao mercado, sempre ficava entre os três ou cinco. Era um dos poucos a figurar nesse Olimpo não tendo atrás de si a força de comunicação da Globo.

Fora o talento indiscutível, era uma pessoa encantadora, com seu bom humor, com as tiradas inteligentes. Em um período em que o jornalismo apanha de todos os lados, a morte de Boechat priva a imprensa de um dos nomes mais brilhantes.

Tinha suas implicâncias. Às vezes exagerava em uma direção ou outra, o que costuma ocorrer com jornalistas de opinião, ainda mais com o peso que suas opiniões passaram a ter. Mas tinha uma virtude inigualável de jornalista: a capacidade de não se amarrar a dogmas. Era capaz de críticas acerbas contra dogmas de esquerda, e da indignação santa contra o discurso de ódio da direita. Todas suas opiniões vinham amparado em raciocínios cartesianos. Mesmo os que discordavam sabiam que ele dava valor aos argumentos. Logo, poderia ser convencido por argumentos consistentes.

Nesses tempos em que presidentes não falam coisa com coisa, em que Ministros do Supremo mudam de opinião, em que o Judiciário, a política, os homens públicos em geral seguem os rumos do vento, a racionalidade de Boechat era um diferencial relevante.

Perde o jornalismo e perde o Brasil.

13 comentários

  1. Lamentável o passamento do cidadão Boechat, já o jornalista……….

    E todos naquele lugar puxam o saco do patrão…….lembro da jornalista rechonchuda certa vez malhando uma procissão das margaridas, gritando feito uma louca, porque achava que estavam atrapalhando o transito da rodovia e a imagem mostrava várias mulheres andando pacificamente no acostamento……….no dia seguinte a mesma senhora baixou o malho na prefeitura, do PT claro, por te-las deixado acampar no anhembi……….esses dias mesmo certo cidadão, que tem um programa de gritaria, dito esportivo, estava dizendo que tem toda a liberdade de dizer o que quer, apenas esqueceu-se de certo colega, ex-arbitro, que disse o que não agradou e foi chamado logo ao final do programa e demitido…………………………………..ali está reunido o que de pior existe no jornalismo…….

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