Rio de Janeiro: vende-se, permuta-se ou arrenda-se (mínimo de 500 anos), por Sebastião Nunes

Avança a discussão sobre a venda do Estado do Rio. Entre uma ideia e outra, meus amigos mortos se livram do genocida Jair Messias que, mesmo no outro mundo, insistia em espionar.

Rio de Janeiro: vende-se, permuta-se ou arrenda-se (mínimo de 500 anos)

por Sebastião Nunes

Enquanto a turma meditava patafisicamente, Adão Ventura, publicitário da velha guarda, desovou rapidamente o texto acima e o exibiu aos amigos.

– Não entendi o prazo: por que 500 anos? – perguntou Sérgio Sant’Anna, com a desconfiança que adquiriu depois de viver mais de um decênio em Belo Horizonte antes de voltar a morar em Laranjeiras, entre tiroteios e balas perdidas.

– Porque – respondeu o sabichão Adão –, esse tempo deve bastar para extinguir a dinastia de malandros e produzir um carioca novo e sem sujeira debaixo dos tapetes.

 – Duvido – contestou Luís Gonzaga Vieira. – Nasci em Ouro Fino, no sul de Minas, mudei para Belo Horizonte e depois fui trabalhar no Rio, onde vivi 50 anos. Pelo que conheço daquele latifúndio de marginais nem 1.000 anos serão suficientes.

– Vamos deixar os números pra depois e voltar ao essencial – sugeriu Manoel Lobato, com a autoridade de advogado, jornalista, farmacêutico e conselheiro de putas no baixo meretrício de BH.

– Concordo – aprovou Otávio Ramos. – Mesmo porque quando se mexe com a ética e seus vespeiros, o buraco é mais fundo, e talvez nem tenha fundo.

ENQUANTO ISSO, JAIR MESSIAS…

Pastando seu capim gostoso, sacudindo as orelhas e abanando o rabo, Bolsonaro olhava de banda, prestando a maior atenção naquele papo. Afinal, o Rio era seu feudo, lá pontificou, aprendeu a fazer política e arregimentou sua multidão de paus-mandados, agregados, cupinchas, serviçais e outros indivíduos da pior extração.

– Não tenho nada com isso – disse Jimi Hendrix afinando a guitarra. – Mas, se me permitem, a besta do Jair Messias (nos dois sentidos) tá ligadaço no papo de vocês.

– De fato – concordou Janis Joplin, com aquela cara de sonsa que Deus lhe deu. – Só não disse nada porque minha filosofia não me permite ser dedo-duro.

– Vamos então acabar com a intromissão do orelhudo – entrou na dança o gordo Sancho Pança, que de bobo não tinha nada, aproveitando para servir uma rodada de haxixe e outras guloseimas para a rapaziada velha.

– Como? – Perguntou em uníssono a velha rapaziada, já um pouco chapada.

– Simples – disse o companheiro inseparável de Dom Quixote, que infelizmente tinha se perdido do companheiro diante do Portão do Paraíso. – Basta pendurá-lo pelo rabo no bosque El Greco, que tem árvores grandes, esgalhadas e muito apropriadas.

Ideia aprovada, sacudiram a inexistente poeira e puseram-se em marcha.

Passaram pelo bosque Giotto, enveredaram à direita do bosque Caravaggio, ultrapassaram o bosque Bosch e finalmente – arrastando pelo cabresto um resistente muar genocida, chegaram ao destino.

Arrancando alguns cipós de gigantesco fícus, trançaram uma corda resistente entre as lianas e o rabo de Bolsonaro. Testada a resistência, levantaram o corpanzil de Jair Messias, pendurando-o de cabeça para baixo. E lá o abandonaram, entre livros-frutas de arte antiga, com alguns feixes de capim ao alcance dos beiços.

DE VOLTA AOS NEGÓCIOS

– Minha ideia é contratar um designer e espalhar nas redes sociais da Terra, em todas as línguas vivas e mortas, o texto que escrevi – continuou o ótimo publicitário Adão. – Que acham da ideia?

– Nada contra – disse Otávio, aconselhado por sua preguiça tenaz e cujo lema era: “nunca faça hoje o que puder deixar para amanhã”. – Me parece um bom princípio.

– Como princípio? – estranhou Vieira. – Basta esse anúncio e estaremos prontos para vender, permutar ou trocar, por no mínimo 500 anos, o estado do Rio.

– Não ficou claro que se trata do estado inteiro – interveio Lobato. – Assim fica parecendo que é só a capital.

– Publicidade é assim mesmo – argumentou Adão. – A gente não precisa dizer que está incluída, por exemplo, a baixada fluminense. Desmerece a mercadoria.

– Ah, é? – irritou-se Sérgio. – O Rio já virou mercadoria?

– Não seja bairrista, Sérgio – disse Adão. – Mercadoria é só uma maneira de me referir ao produto.

– Nem mercadoria nem produto – esbravejou Sérgio. – O Rio não merece ser tão rebaixado. Podemos vender, trocar ou arrendar, mas sem baixaria.

– Tá bom, tá bom – apaziguou Adão. – Mas se não é mercadoria ou produto, o que será então? Como denominar neste caso o estado do Rio?

– Me ocorreram dois problemas – disse Otávio, jogando água fria nos dois cabeças quentes. – O primeiro é que ainda não discutimos o valor da venda, permuta ou arrendamento. O segundo é: por que logo o Rio e não outro estado qualquer? Os outros vão ficar enciumados.

Durante quinze segundos nossos amigos entreolharam-se abestalhados e silentes, antes de começarem a discutir nervosamente.

(No próximo capítulo, avançam as tratativas.)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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