Robopocalypse – Pode Um Computador Fazer o Teu Trabalho?

 

Washington DC
VoaNews/DigitalFrontiers

Em 1949, o escritor Kurt Vonnegut viu algo que o surpreendeu. Trabalhando em uma fábrica da General Electric, ele notou uma grande máquina que cortava as pás do rotor para os motores a jato. “Isso era uma coisa muito cara para um mecânico fazer, cortar uma peça que tem essencialmente o formato “Brancusi “(*), Vonnegut lembrou anos mais tarde em uma entrevista à Playboy Magazine. “Eles tinham uma fresadora operada por computador construída para cortar as pás, e eu fiquei fascinado por aquilo. Isso foi em 1949 e os caras que estavam trabalhando nela, previam todos os tipos de máquinas sendo controladas por pequenas caixas e cartões perfurados”.
A experiência inspirou o primeiro romance publicado de Vonnegut, “Player Piano” – uma história sombria que passa em um futuro onde as máquinas substituiriam a classe trabalhadora, deixando-a à deriva e perdida.

Sessenta e três anos depois, embora os cartões perfurados desapareceram, as máquinas comandadas pelas pequenas caixas estão povoando as fábricas ao redor do mundo. Hoje, o robô industrial está cada vez mais ágil, preciso e confiável do que até mesmo os trabalhadores mais altamente treinados. E o computador que o controla – aquela caixinha – está se movendo para além da simples tarefa repetitiva e começando a demonstrar uma capacidade de resolver problemas, pensando quase como um humano.

Ainda assim, muitas pessoas, provavelmente, se sentem como eu: “Mas um robô nunca poderá fazer o meu trabalho”. O trabalho de fábrica é uma coisa (eu já trabalhei em fábrica, operando máquinas injetoras), mas eu sou um jornalista – um escritor. Eu conto histórias de outras pessoas, e espero que com um pouco de discernimento e muita paixão. Como poderia uma máquina fazer isso?

Pelas notícias: eles podem… E cada dia que passa, podem mais.

Ned Ludd encontra Watson.

Desde o início da Revolução Industrial, existiram pessoas que temiam máquinas, especificamente aquelas que poderiam tomar seus empregos. Ned Ludd“(*) provavelmente não foi o primeiro a bater o martelo contra a máquina – mas ele inspirou muitos a fazer o mesmo, dando origem ao termo, agora pejorativo, “Ludita“(*). Embora John Henry do folclore americano, “o homem de aço”(*) vencera o duelo contra um martelo a vapor, e também a união dos trabalhadores da auto-indústria lutaram para manter mais seres humanos e menos máquinas na linha de produção, as batalhas ainda estão entre nós. Como lamenta o compositor Maurice John Vaughn em seu bluesy “Computer Took My Job“(*). “Eu estava no trabalho, naquela manhã, quando os enormes caminhões vieram, com as grandes máquinas lá dentro. Computadores.

Meu chefe reuniu todos em sua volta e disse: “os computadores vão fazer o seu trabalho com mais facilidade, não se preocupem mais com nada”.

Você pode ver onde isso está indo. O que pode explicar, em parte, porque é tão difícil para muitos pensar sobre onde a tecnologia está nos levando. O jornalista Frank Tobe documenta exatamente isso em seu brilhante “Robot Report“(*) – uma coleção diária de histórias que acompanham o que os robôs estão fazendo, e onde eles estão fazendo isso. Na semana passada, Tobe deu uma profunda olhada no anúncio de que a gigante de tecnologia asiática, Foxconn, planeja implantar um milhão de robôs em suas fábricas nos próximos três anos.

A Foxconn diz que muitos estarão fazendo o trabalho do robô tradicional: tarefas repetitivas como soldagem ou pulverização. Mas muitos não significa todos. Como também Thomas Ricker reporta sobre esse aparelhamento,(*) a Foxconn vai implantar um número incontável de robôs FRIDA(*) – pequenos dispositivos ágeis que, puramente por acaso, podem se encaixar no mesmo espaço de trabalho atualmente ocupado por seres humanos. “Só pode haver uma única conclusão lógica desta característica”, escreve Ricker: “FRIDA e sua turma vão um dia substituir os milhões de jovens trabalhadores chineses que montam os nossos aparelhos”.

Isto pode ser ou não verdade, mas as preocupações dos trabalhadores não podem ser aliviadas pelo vídeo no YouTube, FRIDA, onde o fabricante dá um gênero a ela e diz coisas como “FRIDA aplica-se na seção de manufatura na sua empresa. Ela vem para fazer parte da equipe”. (Nada disso ajuda pelo fato que, no vídeo, FRIDA parece ter prazer em se mostrar aos novos empregadores).

São coisas como esta que pode estar alimentando o que parece ser um ressurgimento da robôfobia. O site da rede americana G4TV apresenta um segmento periódico chamado Robot News Online(*), que promete “… todas as notícias que vos permitirá se preparar para a eventual colonização e controle por robôs.” O best-seller “Robopocalypse“(*) já está em pré-produção do filme, com nada menos que Steven Spielberg, um mestre da Techno angústia/emoção, na cadeira do diretor. E como ele poderia não aceitar, com motes como estes?
“Eles estão em sua casa. Eles estão em seu carro. Eles estão no céu … Agora, eles estão vindo para você.

Bá-bá-bummmm!

Assustador para alguns, mas as mentes mais frias voltam à questão: pode o cérebro do computador e seus corpos robóticos fazer o que os seres humanos fazem? Tudo aquilo que os humanos fazem? Claro, a Inteligência Artificial da IBM de nome “Watson” pode ajudar um médico a diagnosticar uma doença, mas pode confortar um paciente perturbado? Pode um robô sorrir e ajudar as pessoas a encontrar o que estão procurando e dizer ‘Por favor’ e ‘Obrigado’? Pode uma maquina escrever uma notícia, ou poesia, ou fazer arte?

Você não é tão especial como você pensa.

Estas são algumas das perguntas que o Slate(*) jornalista Farhad Manjoo vem fazendo em sua atual série de histórias “Os robôs roubarão teu emprego?” E suas respostas não são muito reconfortantes. “Você está em perigo”, diz ele no início, avisando:

“Neste momento, há alguém em treinamento para o seu trabalho. Ele pode não ser tão inteligente como você é, na verdade, ele pode até ser bastante estúpido, mas o que lhe falta em inteligência, ele compensa na força, confiabilidade, consistência e preço. Ele está disposto a trabalhar por mais horas, e é capaz de fazer um trabalho melhor, com um salário muito mais baixo. Ele não pede recursos para a saúde ou benefícios da aposentadoria, não descansa dias por doença, e ele não vagabundeia no horário de serviço.”

Aquele que se surpreender com o fato de “ele” ser um robô pode sair da sala agora.

Em sua série, Manjoo explora se máquinas de inteligência artificial (IA) podem fazer o trabalho que seu pai faz (ele é farmacêutico) ou sua esposa (uma patologista). Não surpreendentemente, acontecem ainda, de haver muitas coisas que um computador não pode fazer. Por exemplo, seu enorme banco de dados significa que ele pode diagnosticar uma doença rara que um médico do interior poderia não entender. Mas ele não pode fornecer esse diagnóstico com qualquer empatia. Computadores não são agradáveis. Robôs são objetivos, não fofocam no cafezinho. São estas qualidades, que o inovador Ray Kurzweil (*) chama de “as sutilezas e maleabilidades das emoções humanas e de inteligência”, que nos tornam especiais… Pelo menos por agora.

No entanto, ambos, Kurzweil e Manjoo, observam que as Inteligências Artificiais estão se desenvolvendo muito rapidamente… Em campos que exigem tanta especialidade como na medicina, e tanto humanismo quanto em enfermagem. Ainda assim, para Manjoo, isso não é suficiente. E assim, sempre o escritor – completo com o ego do escritor – que recentemente virou a mesa em si mesmo, perguntando se uma máquina pode ser um jornalista:
“Como escritor, eu gosto de pensar em mim como tendo habilidades exclusivamente humana. Eu escrevo colunas sobre coisas que os leitores humanos se preocupam, e com isso eu tento provocar emoções humanas como, alegria, fascinação e fúria. As máquinas ainda não podem imitar este tipo de criatividade. Mas enquanto eu pesquisava os ​​esforços para automatizar o jornalismo… Eu descobri que meu trabalho não pode ser superior à capacidade de um robô.”

Realmente, os computadores ainda não estão aptos à tarefa de revelar um escândalo como Watergate, ou realizar uma entrevista ousada, ou escrever aquele espetáculo fascinante que as pessoas comentarão por anos. Mas quando se trata do arroz com feijão das notícias – notícias básicas iguais a: o quê, quem, quando, como e onde – eles são surpreendentemente (ou perturbadamente) excelentes.

Tomemos, por exemplo MotownBall – um website maluco sobre beisebol com cobertura completa de todos os jogos de beisebol dos Tigres de Detroit. “Tigres Top Yankees 5-3, Tie ALCS 1-1” diz a manchete da matéria principal, um resumo do que foi o playoff mais recente entre os Tigres e o New York Yankees:

Com o jogo ainda sem escore no topo do primeiro, os Tigres inauguraram o placar quando Cabrera balançou o lançador Freddy Garcia… (para quem entende de basebol). Veja aqui o resto da história (*) e a matéria.
Agora, considere que MotownBall seja executado inteiramente por computadores. Em nenhum ponto da cadeia editorial – desde a seleção da história até o título e do texto até o web layout – nenhum ser vivo ou um jornalista que respira contribui. Seus “jornalistas” são totalmente digitais.

Com certeza, os computadores e seus softwares foram criados por pessoas reais, neste caso, uma empresa chamada Automated Insights,(*) que coordena esses robo-web sites, um para cada equipe de baseball da MLB. Os engenheiros automatizados da Insights criam a IA – em suas palavras, para “… transformar os dados brutos em conteúdo narrativo convincente …” – mas, uma vez que eles estejam ligados, os computadores assumem completamente. E eles finalizam a historia. O jornalismo esportivo pode ser bastante automatizado (um computador natural), mas também tem uma longa tradição de escrever com entusiasmo, o que MotownBall tem em abundância. Você será perdoado se pensar que alguém que torce para os Tigres escreveu a reportagem.

     – Somente para ilustrar vou citar aqui a informação sobre um ex engenheiro de sistemas da Cisco, agora proprietário de uma empresa que coordena sites para os times de basquete da NBA, seu nome Allen (*):

     – Allen pega as estatísticas de um jogo, que ele compra de uma empresa da Filadélfia, e usando algoritmos transforma os dados em historia.

 Algoritmos são conjuntos de instruções de computadores que geram significados de um conjunto de dados.

     – Nós pegamos esses significados que retiramos dos dados e colocamos palavras em volta deles. Allen disse. Nós tivemos que desenvolver softwares muito complexos para fazer isso.

     – Essas historias digitais são breves e brandas… São claras e completamente serenas.

O Homem Maquina.
Se os computadores podem escrever (MotownBall) e editar (ver Google News) (*), podem também tomar o meu emprego hoje? Ainda não… Felizmente. Boas reportagens não é apenas compilar fatos e aplicar verbos pungentes. É conversando com as pessoas – ouvindo o que elas estão dizendo e não dizer na história o que eles contam. 
É usar um pouco de intuição para farejar uma mentira, ou tentar algo pouco convencional para chegar a uma verdade. Ainda há um monte de trabalho onde você tenta entender os outros seres humanos. 

Que, no final, pode ser a última área genuína onde os seres humanos levam vantagem sobre os robôs e IAs. Apesar do grande número de esforços (*), ainda não há nenhum computador que possa escrever uma poesia que valha a pena ler. Ou conduzir uma terapia com alguém que apresenta uma depressão clínica. Ou fazer um filme que alguém realmente pague para ver… apesar de sites como o Animoto ou XtraNormal demonstrarem uma assustadora habilidade (*) na montagem de vídeos com interessantes músicas e com um mínimo de participação humana. Robôs não têm emoções. Nunca eles poderão (embora possam aprender a imitá-los(*) muito bem) entenderem os humanos que os criaram. 

Por enquanto, meu trabalho está seguro… pelo menos, em relação aos robôs. E apesar das preocupações de Farhad Manjoo, assim, também, estão muitas outras coisas que os seres humanos fazem com suas vidas. Por todas as preocupações distópicas, é improvável que a visão Vonnegut de um mundo habitado por robôs trabalhando e os humanos desempregados acontecerá.
Mas é uma certeza que, quanto mais os robôs e IAs melhoram, mais deles vamos ter em torno do nosso trabalho e das nossas casas. Máquinas com precisão e resistência super-humana  se tornarão melhores pensadores, solucionadores de problemas, e ainda ajudarão os companheiros. Vamos ter que se adaptar a elas, mesmo que elas aprendam a interagir conosco.
Como os fabricantes da FRIDA dizem de sua habilidosa nova criação: ela está ansiosa para colaborar com você.”
Vamos todos esperar que só fique em cooperação.

Veja o original no link: http://blogs.voanews.com/digital-frontiers/2011/10/03/robopocalypse/

Obs: As palavras em destaque (*) são links com mais informações.

 

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