Saqueadores profissionais, mas golpistas amadores.

Saqueadores profissionais, mas golpistas amadores.

Vamos voltar um pouco na história para se entender melhor o que se passa.

1964

Guerra fria, um presidente popular nos USA que na época ainda não era considerado um alvo pelo Imperialismo baseado no sistema militar norte-americano, logo os generais e os fabricantes de armas ainda batiam continência apesar de continuarem governando e conspirando. No Brasil tínhamos a propaganda da aliança para o progresso e na Europa a CIA subornava a intelectualidade de “esquerda”. O capitalismo ia bem na figura e conseguia ainda transferir parte dos aumentos dos seus lucros para a pequena burguesia norte-americana.

Ou seja, tínhamos um cenário estável onde um presidente norte-americano podia enviar para um país com um governo eleito e legítimo uma frota de navios capitaneado por um porta-aviões (com a possibilidade de envio de um segundo) para apoiar um golpe militar. Na embaixada norte-americana tínhamos um Lincoln Gordon, um acadêmico de direita, que além de chefiar a famosa aliança para o progresso (que não tinha nenhuma restrição do ingênuo governo Jango) comandava DIRETAMENTE o golpe através de uma série de governadores direitistas no Brasil, e os traía combinando diretamente com as forças militares do país que deveriam já a priori tomar o poder dos civis traidores das instituições democráticas.

A guerra fria, com os mitos e os não mitos do ouro de Moscou como o apoio dos guerrilheiros de Sierra Maestra, faziam o frisson e o medo de amplos setores da oligarquia rural que dominava o Brasil e da pequena burguesia associada ao Estado e/ou ao grande capital (nacional ou internacional) morriam de medo da sovietizarão do país. A esquerda era ainda mais inconsistente do que nos dias atuais, tínhamos um governo central que se apoiava numa série de sindicatos chapa branca que no fim não se sabia quem mais tinha poder nestes sindicatos, se era o governo sobre os sindicatos ou os sindicatos sobre o governo, ou ainda um emaranhado não identificável a onde estava a ponta do fio do emaranhado.

A pujança do capitalismo seduzia a todos, no pseudo comando do país mais poderoso do mundo tínhamos um presidente charmoso e o soft-power norte-americano estava ainda no seu auge (a definição de soft-power ainda nem existia, só aparece em 1990 exatamente quando esta já está em declinio). No mundo desenvolvido somente dois generais, um general Francês e outro Iugoslavo, resistiam a esta onda hegemônica ocidental. Na URSS tínhamos uma gerontocracia que se mantinham como podiam, a China era algo que nem entrava no cálculo do poder mundial.

Em resumo, apesar da existência de uma teimosa URSS, o imperialismo dava as cartas para o mundo, mas sempre lutando contra forças nacionalistas provenientes dos movimentos de descolonização. A realidade internacional era outra.

O Brasil era um país agrário, mesmo se começasse a inverter a ocupação demográfica para as grandes de média cidades, a mentalidade subserviente do pequeno agricultor e do homem do campo em geral, que migrava ainda sofria a doutrinação moldada pela repressão de três séculos do escravagismo e domínio da Igreja Católica.

Os meios de comunicação eram centralizados e existia somente alguns poucos jornais que lutavam contra a corrente, os meios de comunicação de massa estavam na sua juventude, e mesmo nesta juventude já eram dominados pela velha oligarquia.

Os líderes políticos de centro esquerda eram regionais ou alguns que de uma forma pessoal tinham alguma penetração em regiões importantes, e o menu de posições políticas era extremamente limitado.

2017

A guerra fria acabou, a luta contra um fabricado inimigo do ocidente não convence praticamente ninguém fora dos países centrais, o fantasma do islamismo é tão verdadeiro como uma nota de três reais, e quem consegue combater este é exatamente os descendentes da URSS. O atual presidente norte-americano leva uma política exterior errática que não é seguida nem pelo seu próprio governo. Há uma ruptura clara entre o establishment daquele país e a política interna e externa do seu presidente. Tudo isto produto de uma perda de vigor do capitalismo internacional que não consegue mais transferir recursos para a imensa maioria da sua população. O grau de concentração da riqueza é tal que fica inviável a mesma transferência. O próprio controle das instituições de segurança norte-americanas foi totalmente perdido tanto na realidade (como já em 1964) como na aparência externa.

A capacidade do presidente norte-americano atual de lançar suas armadas para qualquer parte do mundo encontra-se limitado não só pelas potências que compartilham o Imperialismo internacional, mas por pequenos estados que os afrontam. No terceiro mundo a farsesca Aliança para o Progresso foi substituída pelo simples ou entregam tudo ou o tomamos. Nas embaixadas podemos até ter técnicos em golpes, mas a capacidade analítica dos scholars norte-americanos foi substituída por técnicos em golpes que não sabem diferenciar o que é um país como Honduras ou mesmo o Paraguai do Brasil. Não há mais no país um governo de centro esquerda para sofrer uma invasão, e com isto as opções não ficam claras pois também o inimigo não está no poder, o que impede uma ação militar.

Com o fim da guerra fria o espectro do ouro de Moscou (real ou imaginário) desapareceu por completo, os guerrilheiros da Sierra Maestra morreram de velhos e não foram substituídos por novos, logo somente alucinados e adeptos de teorias conspiratórias do “Fórum de São Paulo” ainda procuram todas as notes comunistas de baixo de suas camas. A pequena burguesia que estava motivada por outro fantasma, o combate a corrupção, vai aos poucos se dando conta que o fantasma real é outro, ninguém em sã consciência, mesmo a esquerda revolucionária não alucinada espera que surjam movimentos organizados de uma hora para outra para implantar o bolivarianismo no Brasil. A centro esquerda, que encontrava-se tão desorganizada como em 1964 está ganhando com o tempo, e com o ataque as conquistas sociais mínimas obtidas pela classe trabalhadora começa a se reagrupar em torno de um programa comum contra os desmandos das forças conservadoras do país.

A pujança do capitalismo que seduzia a todos foi substituída por uma resignação provisória a inevitabilidade da pauperização da população que foi impingida a todos. O “soft-power” desapareceu por completo dando lugar ao “hard power”, mas o surgimento de um novo ator no cenário internacional, a China, que aliada a Rússia formam um par que apresentam condições de contrariar o poder militar norte-americano. Ou seja, um gigante asiático que despertou começa em todos continentes a propor soluções as que os norte-americanos só conseguem contrapor com uma presença e um poder militar cada vez mais questionável.

Os países que lutavam contra as forças imperialistas e colonialistas, cederam aos encantos do liberalismo que no lugar de promover o crescimento das antigas colônias as levam a miséria e aos conflitos internos ou externos, mas não há nenhum grande plano a curto ou médio prazo de inverter o empobrecimento dos países periféricos.

O Brasil atual é um dos países mais urbanizados do MUNDO, a mentalidade dos pais e avós que eram dominados com princípios da Igreja Católica de autoflagelamento foi substituído ou em uma parte da população por uma teologia da prosperidade, que só pode prosperar quando há uma prosperidade real e outra parte da população encontra-se revoltada e claramente vendo na burguesia o seu inimigo real, a reação é de um proletariado sem consciência de classe, que mais pensa ir a forra do que uma luta política. Porém estas forças tem um latente “perigo” de se conscientizar do que continuar como está.

Os meios de comunicação de massa continuam centralizados e os poucos jornais que existiam estão sendo substituídos por também poucos blogs e outros meios de comunicação digital que apesar de não ter poder como os poucos jornais do passado, são difusos e diversos, ficando bem mais difícil para num golpe militar fechar (no caso seria emprisionar) estas mídias do que fechar meia dúzia de redações de jornais de centro esquerda que existiam no passado.

Quanto as lideranças de centro-esquerda há somente uma que é a maior do país e provavelmente surgirão inúmeras se a perseguição política inviabilizar esta liderança.

Análise das diferenças e os erros dos golpistas.

Como se pode ver há uma diferença substantiva entre a realidade de 1964 para 2017, e se alguém de forma anacrônica quiser copiar o passado a chance de dar errado é total.

Não há apoio consistente das forças do imperialismo, simplesmente por dois motivos, o primeiro e mais facilmente detectável, que não existem condições tão simples para uma intervenção direta através de verdadeiros analistas da situação internacional que já não existem mais. Porém o motivo mais importante é que não há o mínimo interesse de achar soluções negociadas e mais ou menos pacíficas para o confronto oligarquias locais versus povo. Isto é causado principalmente pela soberba que tem o Império de que manipulando os Facebook’s e outras redes sociais poderão manipular o que se fazia com os “scholars” do passado.

Da verdadeira Inteligência golpista do passado surgiu uma geração de analistas de sistemas informáticos que com sistemas de poucas variáveis pensam em dominar algo que é infinitas vezes maior do que isto. Podem ler as centenas ou mesmo centenas de milhares de informações que obtém nas redes, porém enquanto não identificarem cem por cento dos seus inimigos se 10% sobrarem fora da lente estes podem inverter por completo o quadro.

Esta ausência de uma inteligência articulada, gerada na cabeça de “scholars” do sistema imperialista do passado, faz com que o suporte aos golpistas nacionais seja fraco, confuso e errático. Fazendo com que golpistas que são verdadeiros saqueadores profissionais, não se convertam em golpistas profissionais.

Uma coisa é ser um golpista, outra coisa é ser um saqueador, um quer o poder e pensa na sua perpetuação e o outro quer o produto do saque mesmo que se mal feito produza uma derrocada posterior e relativamente prematura do poder.

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