“Se a Carmen resolver, melhor”: Procuradores discutiram estratégia em tribunais superiores para impedir liberdade de Lula

Nos diálogos da Vaza Jato, Deltan tratou a suposta conversa de Carmén Lúcia com o ex-ministro Raul Jungmann como assunto "sensível" que não poderia "vazar" para a imprensa

Foto: Fernando Frazão/ABr

Jornal GGN – Enquanto aguardavam o presidente do TRF-4, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, proferir a decisão que veio a derrubar o habeas corpus do desembargador Rogério Favreto, que mandara soltar o ex-presidente Lula, os procuradores da Lava Jato em Curitiba discutiram uma estratégia envolvendo tribunais superiores. Nesse contexto, o nome da ministra Carmén Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, foi citado pela segunda vez nos diálogos que deram origem à chamada Vaza Jato e que foram remetidos ao STF, nesta semana, pela defesa de Lula.

Em uma das mensagens hackeadas do Telegram da força-tarefa, uma procuradora identificada como “Maria Emília” escreveu: “Acho que precisamos insistir na Reclamação STF/STJ. Por ora o Humberto pensa em fazer para o STJ. Mas vamos vendo.”

Era 8 de julho de 2018. Sábado, plantão do desembargador Rogério Favreto. Um grupo de deputados do PT entrou com pedido de habeas corpus para soltar Lula sem coordenar com a defesa técnica do ex-presidente. Favreto acolheu o pedido. Sergio Moro, de férias, tentou impedir com um despacho. Favreto não se curvou. O relator da Lava Jato, João Gebran Neto, amigo de Moro, interveio. A Polícia Federal, em vez de cumprir a ordem do desembargador competente – Favreto – decidiu esperar até que Thompson Flores, presidente do TRF-4, falasse mais alto que seus pares.

Durante todo o dia, os procuradores demonstraram preocupação em Lula ser solto por ordem de Favreto e agiram para que a Polícia Federal não cumprisse a ordem. O próprio Deltan Dallagnol ligou para o superintendente da PF em Curitiba, Maurício Valeixo, para fazer o apelo. Januário Paludo, entre outros colegas, acusavam Favreto de cometer abuso de autoridade e ameaçavam processá-lo.

Em meio ao clima de tensão, os procuradores começaram a discutir uma estratégia em cortes superiores. Humberto e o também procurador José Alfredo foram os responsáveis por trabalhar na reclamação contra a decisão de Favreto no próprio TRF-4 e seguiriam instâncias acima, se necessário.

Thompson Flores, segundo revelaram os diálogos da Vaza Jato, recebeu o pedido do Ministério Público Federal para manter Lula preso pelo WhatsApp, tamanha era a pressa dos procuradores em ver o habeas corpus, concedido por Favretto, enterrado.

Por volta das 18h40 daquele dia, enquanto Thompson analisava a questão com urgência, Deltan Dallagnol escreveu no Telegram: “Falei c Alfredo pra manter a estratégia lá”. A estratégia, pelo contexto da conversa, seria preparar um recurso ao STJ.

Um procurador chamado “Welter”, possivelmente achando que se tratava de recurso ao Supremo, respondeu: “Acho bom. Se a Carmen resolver, melhor.”

A menção à ministra Carmén Lúcia havia aparecido de forma mais explícita minutos antes no chat, quando Deltan revelou que “Carmém Lucia ligou pra [Raul] Jungman [então ministro da Justiça, a quem a Polícia Federal é subordinada] e mandou não cumprir [a ordem de soltura de Lula] e teria falado tb com Thompson.”

Carmén Lúcia é parte da segunda turma do STF, que julga os recursos de Lula na Lava Jato. Ela já proferiu seu voto contra a suspeição de Sergio Moro.

Deltan então explicou a Welter que ele estava falando sobre uma “estratégia” no Superior Tribunal de Justiça (STJ), e não direto no Supremo. “Será Laurita na verdade [a resolver a questão no STJ]”, corrigiu, numa possível menção à ministra Laurita Vaz.

Seguindo a conversa. Às 18h44 do dia 8 de julho, a procuradora Maria Emilia pediu com urgência o número do telefone do procurador Humberto. O procurador Januário Paludo respondeu: “Está falando com a Carmem Lucia. Já te passo.”

Mais tarde, Deltan tratou a suposta conversa de Carmén Lúcia com o ex-ministro Raul Jungmann como assunto “sensível” que não poderia “vazar” para a imprensa.

Procurada pela Folha de S. Paulo, a ministra Carmén Lucia ainda não se manifestou. Já o ex-ministro da Justiça negou que Carmén Lúcia tenha tentado interferir na Polícia Federal para obstruir o cumprimento do alvará de soltura de Lula. Ele disse que vai interpelar Deltan Dallagnol para explicar de onde ele tirou essa história.

As mensagens da Vaza Jato foram analisadas e enviadas ao Supremo Tribunal Federal pela defesa de Lula nesta semana.

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