SÍRIA: SERÁ UMA EXCEÇÃO DAS REVOLTAS ÁRABES

 

Apesar da onda de protestos que se espalha pelo Oriente Médio, até agora o espírito revolucionário não logrou alcançar a Síria.

O autoritarismo, a corrupção e os problemas econômicos são características que a Síria divide tanto com o Egito, quanto com a Tunísia. No entanto, analistas dizem que, além do aparelho repressivo do Estado, fatores como a relativa popularidade do presidente e a diversidade religiosa fazem com que uma revolta no país seja improvável.

Ativistas online encorajam os sírios a irem às ruas, mas as tentativas de uma “revolução síria” há algumas semanas só resultaram em relatos não confirmados sobre pequenas mobilizações, principalmente no nordeste curdo.

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“Reino Silencioso”

Enquanto páginas no Facebook convocavam protestos nas cidades de todo o país no início do mês, mais de dez ativistas contaram à Human Rights Watch que foram contatados pelo serviço de segurança, que os avisou para não tentar se mobilizar.

“A Síria tem sido, há muitos anos, um ‘reino silencioso’”, disse Suhair Atassi, um ativista em Damasco, quando foi perguntado por que não ocorreram protestos contra o governo.

“O medo domina a vida das pessoas apesar da pobreza, da fome e da humilhação…” […]

Fawas Gerges, professor de política do Oriente Médio na London School of Economics, diz que a Síria é um dos países do Oriente Médio que tem menos probabilidade de ser atingido por protestos populares devido à sua estrutura de poder.

Ele afirma que a lealdade do exército na Síria é diferente tanto daquela na Tunísia, onde os militares rapidamente se tornaram os principais apoiadores da expulsão do presidente, quanto daquela no Egito, onde o exército não tomou lados.

“O exército na Síria é a estrutura do poder”, diz ele. “As forças armadas lutariam até o fim. Seria um banho de sangue, literalmente, uma vez que o exército lutaria pra proteger não só a instituição do exército, mas também o regime em si, pois o exército e o regime são duas partes de um todo”.

Presidente popular

Contudo, mesmo que o povo ousasse desafiar o exército e o temido serviço de inteligência Mukhabarat, analistas afirmam que o apetite por mudança no país não é tão grande.

Muitos Sírios tendem a apoiar Bashar al-Assad, o presidente que chegou ao poder em 2000 após a morte de seu pai, Hafez, que governou o país por 30 anos.

“Um importante fator é que ele é popular entre os jovens”, diz Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma.

“Ao contrário de Hosni Mubarak, que tem 83 anos, no Egito, Bashar al-Assad é jovem. Os jovens se orgulham dele. Eles podem não gostar do regime, eles não gostam de corrupção e de muitas outras coisas, mas tendem a culpar as pessoas ao seu redor por isso, a ‘velha guarda’.”

Um estudante sírio faz eco a esses comentários: “O presidente sabe que é necessária uma reforma e ele está trabalhando para isso”, diz ele.

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A postura rígida de al-Assad em relação ao Estado de Israel, contra o qual a Síria se encontra tecnicamente em guerra, também contribuiu para sua popularidade no âmbito doméstico e regional.

Sociedade plurirreligiosa

Analistas ressaltam que a mistura de comunidades religiosas e de grupos étnicos no país diferencia a Síria do Egito e da Tunísia, países que possuem populações amplamente homogêneas. Temendo tensões religiosas, muitos sírios acreditam que a ênfase secularista do partido governante Ba’ath é a melhor opção.

“O regime na Síria se apresenta como proteção para várias comunidades, afirmando, essencialmente: ‘se nós sairmos, vocês serão deixados aos lobos’”, disse Houry. “Isso dá ao regime a habilidade de mobilizar grandes segmentos da população”.

Muçulmanos sunitas formam cerca de 70% da população de 22 milhões de pessoas, mas os segmentos alauíta e xiita, ao qual o presidente pertence, possuem um poderoso papel apesar de serem uma minoria de 10%. Os curdos formam a maior minoria étnica.

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Partidos banidos

A Síria é, essencialmente, um Estado unipartidarista, governado pelo partido Ba’ath desde 1963. Muitos grupos políticos foram banidos. Contudo, Landis afirma que a liberdade política não parece ser uma grande preocupação entre as pessoas.

“Eu sempre fico impressionado com o fato de que as pessoas comuns na rua, o motorista de táxi, a pessoa com quem se conversa em um restaurante, quem seja, não falam sobre democracia. Elas reclamam da corrupção, elas querem justiça e igualdade, mas elas olham para as eleições no Líbano e riem, dizendo: quem precisa desse tipo de democracia?’”

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“De certa forma, o fato de ser pró-americano forçou o Egito a permitir uma maior sociedade civil, enquanto a Síria se manteve fechada em relação ao ocidente”, diz ele. “A oposição na Síria é muito fragmentada. Os curdos conseguem reunir os maiores números, mas há 14 partidos curdos… e quanto aos líderes a favor dos direitos humanos, metade deles está na cadeia, alguns estão na cadeia há bastante tempo”. […]

Ribal al-Assad, um primo exilado do presidente al-Assad e diretor da Organização pela Democracia e pela Liberdade na Síria sediada em Londres, afirma que as pessoas que convocavam os protestos estavam situadas no exterior e não se surpreende com o fato de nada ter acontecido dentro no país.

“A campanha foi um pouco ultrajante. Primeiro, eles escolheram uma date que lembra o povo da revolta da Irmandade Muçulmana [o 29º aniversário do massacre de Hama]”, diz ele.

“As pessoas não querem se lembrar do passado. Elas querem mudança, liberdade, mas querem isso de forma pacífica. Além disso, a imagem usada no Facebook, um pulso cerrado e uma cor vermelha como sangue ao fundo, foi como se fosse uma chamada para a guerra civil, e quem em sã consciência quer isso?”

“No entanto, é claro que as pessoas querem mudança, pois há pobreza, corrupção, pessoas sendo presas sem mandados, cujo paradeiro não é revelado pelo Estado durante meses, etc. Elas são sentenciadas devido a julgamentos injustos, muitas vezes por causas idiotas como ‘enfraquecer a moral da nação’ por dizer que querem democracia e liberdade. Se alguém está enfraquecendo a moral da nação, o culpado é o próprio governo.”

Não aliado a Israel

Um sírio que se tornou um “fã” da página do Facebook que se opunha aos protestos diz que não consegue imaginar, e não quer imaginar, levantes contra o governo semelhantes àqueles do Egito se espalhando pela Síria.

“Eu amo meu país e não quero ver o povo lutando. Não consigo imaginar os eventos ocorridos no Egito acontecendo na Síria, porque nós realmente gostamos do nosso presidente, não porque nos ensinaram a gostar dele”, diz ele. […]

“Além disso, ele é o único presidente na região árabe que não aceita nenhuma oferta de Israel, como outros presidentes. Eu, e a maioria dos sírios, se não todos, não conseguimos aceitar um presidente que ande de mãos dadas com Israel.”

Assim como no Egito e na Tunísia, o desemprego na Síria é alto. A taxa oficial de desemprego está por volta dos 10%, mas analistas afirmam que o dobro disso seja uma estimativa mais realista. De acordo com um relatório da Silatech [organização que promove o emprego para jovens] baseado em uma enquete da Gallup [serviço de estatísticas] no ano passado, 32% dos jovens sírios dizem não fazer parte nem da força de trabalho nem do corpo de estudantes do país.

Desde que o atual presidente sírio chegou ao cargo, o sistema econômico do país vem se movendo lentamente do socialismo ao capitalismo. Os mercados foram abertos a empresas estrangeiras e espera-se que a taxa de crescimento do PIB alcance 5,5% em 2011. […]

“A Síria está se movendo em direção ao capitalismo. Isso resultou em uma maior taxa de crescimento, mas com esse crescimento vem a desigualdade. Isso está atraindo o investimento estrangeiro e os 10% mais ricos estão começando a ganhar salários reais em uma escala internacional, pois estão trabalhado para esses novos bancos e indústrias. Contudo, a situação dos 50% mais pobres piora, porque eles estão presos a rendas fixas e são atingidos pela inflação, pelos subsídios reduzidos, além do fato de que a escassez de água na Síria estar atingindo níveis absurdos.”

Reformas são necessárias

Em uma entrevista com o Wall Street Journal no fim de janeiro, o presidente al-Assad admitiu a necessidade de reformas na Síria, mas também disse que seu país é “imune” ao tipo de revolta visto na Tunísia e no Egito.

“Nós enfrentamos circunstâncias mais difíceis do que a maioria dos países árabes, mas, apesar disso, a Síria é estável. Por quê? Porque é preciso estar ligado de maneira próxima às crenças do povo. Esse é o principal motivo. Quando há divergência entre a sua política e aquilo que o povo acredita – e seus interesses –, há um vácuo que cria perturbações”, disse ele.

No entanto, Ribal al-Assad afirma que é óbvio que o governo está preocupado em relação ao descontentamento e à raiva que se espalham pelo Oriente Médio.

“Será interessante ver como as coisas irão se desenrolar ao longo dos próximos meses”, ele disse. “Os sírios, assim como em qualquer outra casa árabe, têm suas televisões ligadas na Al Jazeera. Eles estão veem o que está acontecendo na Tunísia e no Egito. A liberdade é um sentimento contagioso e eu acho que as pessoas vão querer mais liberdade”.

Tradução de Luiza Andriotti

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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