SOBRE GATUNOS E CÍNICOS

 

A se confirmar o atual cenário, o Brasil vive nas próximas eleições uma situação esdrúxula, para dizer o mínimo.

De um lado o impedimento da candidatura de Lula com sua condenação.

De outro sua condição, manifestada em todas as pesquisas, de preferido pelo povo brasileiro, que, como soberano, escolhe entre os candidatos aquele que deverá assumir a presidência.

No campo democrático, que aqui nos interessa (com os defensores da ditadura não cabe diálogo), os que defendem a legitimidade da situação se valem de argumentos cínicos. Alguns mais protocolares, outros apenas cínicos.

Os simplesmente cínicos assumem que não querem que Lula seja eleito. Se julgam iluminados e esclarecidos e revelam seu desprezo pela soberania popular. Seu cinismo se revela quando se dizem democratas. Nem ao menos admitem a possibilidade de que Lula seja candidato, valendo-se da premissa de que o risco de sua vitória justifica seu impedimento. Daí a preocupação com prazos de processo, que, com certeza, já tem seu cronograma definido em uma destas planilhas de gestão de processo, garantia do cumprimento de prazos em projetos de engenharia. Com tudo, são, pelo menos mais honestos.

Os protocolares defendem a ideia de que tal candidatura, como qualquer outra, deve ser definida pelos critérios definidos em lei, independentemente de seu apelo popular. Se revestem de uma fantasia que os torna aparentemente menos arrogantes, mas no fundo, são tanto quanto, e ainda por cima são mais desonestos porque desenvolvem argumentos falsos para defender sua tese, enquanto os primeiros, pelo menos, falam efetivamente aquilo que pensam.

Defendem que a operação lava-jato não tem relação com interesses políticos, colocando na cadeia os corruptos e impedindo que eles continuem suas práticas delituosas. Provada sua tese, ninguém, em sã consciência iria contra tais tratativas.

O problema deles é que existe uma pedra no caminho, uma pedra que já foi chamada de sapo barbudo e que atende pelo nome de Luis Inácio Lula da Silva.

Tal cidadão, como sabemos, foi condenado em primeira instância e, se confirmado o quadro que apresentamos, condenado em segunda instância, estará impedido de concorrer novamente em 2018.

Os protocolares aparentam defender (e juram de pés juntos que o fazem) que o aparato processual está perfeito, e que uma possível absolvição do réu o capacitaria a se candidatar.

Na verdade, como aqueles gatunos que se aproveitam das sombras da calada da noite para adentrar em nossas casas e se apossarem de nossos bens, eles atuam, junto à opinião pública, junto ao sistema judicial, nos processos políticos, para que a defesa do réu não tenha a menor chance de vencer a causa. Cada um dentro de suas possibilidades, os mais poderosos com ações efetivas, os menos com aplausos em cerimônias públicas, curtindo e compartilhando insinuações nas redes sociais.

Sua impostura, no entanto, fica evidente quando, depois de anos de exposição de possíveis delitos cometidos pelo réu em todas os meios que propagam informações neste país, utilizando de todos os recursos, muitos deles arbitrários, Lula continua a ser o candidato mais forte para a presidência.

O povo brasileiro não se deixa convencer de sua culpa. A esta constatação, doutos sofistas argumentam: o que o povo entende de lei? O povo pode não entender de lei, mas o povo brasileiro é honesto e sabe muito bem o que é honestidade.

Concluindo, num regime democrático, a legimitimidade da operação lava-jato dependeria em última instância dela provar ao povo (legítimo soberano) que Lula é efetivamente culpado (e com isto, naturalmente, ele deixaria de ter competitividade no processo eleitoral). ​De outra forma, resta um longo caminho para o Brasil chegar à democracia, ainda que em seus princípios mais elementares.

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