Sobre o significado da festa de Chanucá

(Começa hoje à noite e dura 8 dias. Pela proximidade com o solstício de verão e Natal leva a um pouco de confusão. Como me escreveu um amigo judeu: “tentam equiparar com o natal por causa dos presentes, mas não tem nada a ver, tem a ver com a reaçao judaica contra a tentativa de helenização da regiao”.)

http://www.cip.org.br/mensagem-chanuca/

Quando “aqueles dias” e “este momento” se encontram

por Michel Schlesinger, rabino da CIP

Baruch sheassá nissim laavoteinu baiamim hahem bazeman hazé. Abençoado seja Deus que fez milagres aos nossos antepassados naqueles dias, neste momento. A brachá do acendimento das velas de Chanucá traz uma contradição. Afinal de contas: é naqueles dias ou neste momento?

A festa de Chanucá parece nos colocar, sistematicamente, diante de opostos para que nós busquemos o equilíbrio. Diversos símbolos ligados à Festa das Luzes expressam contradições e nos desafiam para a procura de um caminho intermediário.

Baiamim hahem bazeman hazé. Naqueles dias, neste momento. A história precisa dialogar com o cotidiano. Sem história somos árvores sem raízes. Se tivermos apenas história, nos transformaremos em um museu de antiguidades. É justamente a releitura da história de forma criativa que imprime relevância ao judaísmo contemporâneo.

Os motivos principais da celebração de Chanucá são a vitória dos macabeus sobre os gregos e o milagre do azeite que durou oito dias. A crença em Deus é importante. Devemos ter esperança mesmo quando as condições físicas e materiais são extremamente adversas. O judaísmo nos convida a ter fé sempre. Ao mesmo tempo, o milagre do azeite nunca teria ocorrido se não fosse pela coragem de Matitiahu e seus filhos. Caso não tivesse Iehudá Hamacabí liderado uma revolta a favor da nossa liberdade religiosa, não teria acontecido milagre algum. O milagre, na perspectiva judaica, é a responsabilidade que delegamos a Deus depois de realizarmos absolutamente tudo que se encontra ao nosso alcance.

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Acendemos as velas de Shabat dentro de nossas casas. O local correto de se colocar as duas chamas que iluminam nossos jantares de sexta-feira é perto da mesa de jantar, para que possamos nos utilizar da luz da chama durante a refeição. Já em Chanucá é diferente. Devemos colocar a vela perto da janela ou do lado de fora de nossas casas. Havia antigamente um costume de se colocar a chanukiá nas batentes das casas no lado oposto damezuzá. Isto acontece porque o milagre deve ser divulgado. Temos a obrigação de propagar a luz para além dos nossos lares. Devemos fortalecer o particularismo judaico para sermos melhores cidadãos do mundo. Mais uma vez vemos a busca do equilíbrio entre aquilo que nos é privado e nossa responsabilidade universal.

A própria luz traz uma interessante contradição. Quando não existe claridade alguma, ficamos perdidos. Ao mesmo tempo, quando somos expostos à luz excessiva, também ficamos cegos. O termo aramaico para cego é saguei nahor, ou ‘demasiadamente iluminado’. A luz excessiva traz tantos danos quanto a ausência absoluta de luz. Nosso desafio é buscar uma iluminação que seja forte, por um lado, mas que não ofusque nossa visão por outro.

As comemorações judaicas são, de uma maneira geral, a conjugação de um motivo histórico e a celebração de uma nova etapa da natureza. Pessach comemora a saída do Egito e também o início da Primavera. Shavuot celebra a entrega dos Dez Mandamentos e também a chegada dos primeiros frutos. Sucot relembra a vida em moradias temporárias no deserto e a última colheita do ano agrícola. Será que a festa de Chanucá lembra somente a história dos macabeus e o jarro de azeite ou também tem algum motivo ligado à natureza?

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Segundo os estudiosos do judaísmo, existe ainda um motivo ligado a Chanucá que foi esquecido com o passar dos anos: o solstício de inverno. A Festa das Luzes também marcava o dia mais curto do ano no hemisfério norte e o início do aumento das horas de luz a partir daquele instante.

Segundo estes pesquisadores, o ritual de acender uma vela a mais a cada dia pode ter se relacionado, no princípio, com o renascimento anual do sol. Na medida em que os dias iam se tornando mais longos, os judeus acendiam velas para celebrar esta transição. A comemoração de uma festa de luzes a partir do dia mais curto do ano ajudava a espantar a escuridão que assombrava o coração das pessoas. Enquanto muitos ficavam deprimidos e alimentavam sentimentos derrotistas, nosso povo se engajava em um ritual de esperança, coragem e luz.

Existe a famosa discussão entre Shamai e Hillel sobre a forma correta de se acender as velas. Enquanto Shamai queria que diminuíssemos as chamas a cada dia, Hillel sustentava de deveríamos sempre acrescentar uma chama. Isto porque em termos de santidade, devemos sempre incrementar e nunca diminuir. Sabemos que não é possível. Sabemos que nossa observância religiosa cresce e diminui ao longo de nossa vida. Nossa cashrut não é sempre a mesma, rezamos mais, ou menos, em períodos diferentes; conseguimos ser mais ou menos altruístas em fases distintas da nossa vida. Às vezes, agregamos luzes e outras tantas acendemos velas a menos. Eu tive um professor em Jerusalém, Shlomo Fucs, que acendia duas chanukiottodos os dias da festa. Em uma ele acrescentava velas e na outra diminuía.

O óleo é um dos símbolos desta festa. Por este motivo comemos alimentos fritos, como os sonhos e os latkes. Nós sabemos que, ao colocarmos azeite em um copo com água, eles não se misturam. Apenas uma fina camada do azeite entra em contato com a água. Assim é o desafio da sobrevivência judaica. Se nos misturamos totalmente, perdemos nossa identidade própria. As mesmo tempo, se ignoramos o mundo que nos cerca, perdemos a oportunidade de nos enriquecer com aquilo que é estranho e deixamos de cumprir nossa missão de tornar o mundo mais humano. É justamente por meio de um instrumento supostamente grego – o pião ou sevivon– que celebramos a sobrevivência judaica.

O principal desafio de Chanucá, acredito, é buscar equilíbrio em um mundo complexo. Conciliar passado e presente, individualismo e universalismo, escuridão e luz em excesso, identidade e isolamento. Baiamim hahem bazeman hazé, naqueles dias e também neste momento.

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