Urariano Mota
Escritor, jornalista. Autor de "A mais longa duração da juventude", "O filho renegado de Deus" e "Soledad no Recife". Também publicou o "Dicionário Amoroso do Recife".
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Soledad nas vésperas da morte

 



 


Nos quarenta anos da execução de Soledad Barrett no Recife. Publicado no Blog da Boitempo, http://boitempoeditorial.wordpress.com/2013/01/08/soledad-nas-vesperas-da-morte/ 


 


 


“Mamãe, mamãe, não chore. A vida é assim mesmo, eu fui embora….” tocava na radiola da casa dos padres. “Eu tenho um beijo preso na garganta…”. Então Soledad, a viejita, viejita desde os 5 anos de idade, teve um estremeço, um estremeço como as mulheres possuídas por santos nos terreiros. “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos…”. E por isso descalçou as sandálias, e se pôs a dançar, a bailar, sozinha, ela e seu fogo presente no útero. Abriu os braços, e com toques graciosos nas mãos, com os pezinhos a bater com o calcanhar o ritmo. A saia de estampas de flores ondulou nos quartos largos de mulher parideira. “Mamãe, mamãe não chore, eu nunca mais vou voltar por aí”. Os padres, as freiras, abriram uma roda. Soledad Barrett Viedma disso não se deu conta. “Eu tenho um jeito de quem não se espanta”. Quem era essa Gal Costa que cantava tão bem para uma guerreira no desamparo? “Leia um romance. Leia ‘Elzira, a morta virgem’…”. Então ela, ela e o seu santo, ela e o seu útero, ela e aquele que jamais teria nome ficaram tontos. Ficaram tontos, mas não do girar. Ainda que girem, Soledad y la viejita eram aptas para girar enquanto bailavam. Ficaram tontas com uma súbita punção no fígado. Então ela se apoiou em um pezinho e parou, e desceu no chão. Cercam-na.


 


– O que foi? um dos padres lhe pergunta.


 


– O que se passa? Daniel a interroga.


 


– Nada, ela responde, e se põe sentada. Sem perceber, leva uma das mãos para o ventre, como uma criancinha ao apontar o dodói.


 


– Você bebeu? volta Daniel.


 


– Sim. Uma aguardente com mel, pesada, ela mente, e sorri.


 


– Sabes que não podes. Sabes que o teu organismo é frágil. Sabes … – Daniel lhe diz, pondo-lhe uma das mãos no ombro, enquanto os seus olhos correm a assistência. – Bem sabes… – continua com voz quente e audível.


 


Há nessa voz um quê de falso, Soledad percebe. Então ela recebe um novo estremeço e se põe em pé.


 


– Fiebre, ele lhe diz.


 


Vontade Soledad tem de cuspir à cara, dele, desse amante cuja máscara fria ela agora descobre. As palavras que ele diz não se harmonizam com os traços rígidos, sem verde e sem vida do rosto. Se ele fala com máscara – um santo, um gênio sopra ao ouvido de Soledad -, se ele fala assim, então ponha a máscara conforme a cena e o espetáculo.


 


– Sol, querida …


 


Soledad antevê no ar uma ameaça de beijo, e mais grave, de toque com lábios frios que apenas delatam, que falam para outros que ela seria a sua amada. Toque de lábios que mentem. A máscara não está conforme o


 


– Sol, querida…


 


Então ela lhe dá as costas, sob o gentil pretexto


 


– Tentarei algo de bom na cozinha.


 


– Mas estás bem? ele retorna, mas ela não ouve, ou não escuta.


 


Ela deixa um rastro na festa, porque sai e não se ausenta. Está na cozinha, todos sabem. No entanto, algo, alguma coisa não é mais como antes. Não se trata da comum percepção de que se ela estivesse no mesmo lugar, já não seria como antes. Trata-se de que há uma descontinuidade agora. Por exemplo, a música já não se toca, mas continuam a existir pilhas de discos de Chico, de Caetano, de Gal, de Mercedes Sosa, de Santana a um canto. Por quê? Ninguém então disso se dá conta. Há murmúrios, porque todos viram o que cada um pensou que somente ele próprio vira. Todos viram os estremeções, a posse de Soledad pelo espírito do baile, o giro de flor e a sua queda. Isso foi para todos um espetáculo e um encanto. Diferente do teatro e da função de circo, aquilo, todos notam, não poderia ser repetido. Aquilo havia sido uma função de outro gênero, uma criação de outra arte. Ela parecia estar em um reino de humanidade inexplorada. Isso não é percebido como um conceito. Então se murmura.


 


Para seu desconforto, Daniel nota que todos olham para ele. Por isso ele, ou seu papel de  rapaz livre, senta-se no jardim, sobre a grama. E a cada olhar que o varre, ele sorri. Sorri sempre, na esperança da experiência de que as pessoas captam o particular, nunca o todo em seu rosto. E se levanta, porque na ilha em que se plantou ninguém vem ao seu encontro. Vai a um dos grupos formados. Penetra no que se acha a Irmã Célia. O rum se bebe farto com coca-cola. No centro, como liderança, a Irmã Célia é uma luz que pisca, como se fosse uma lâmpada que se interrompe rápido e volta, nos olhos azuis que se turvam e voltam em breves piscadelas. Ninguém distingue se essas piscadas são um tique nervoso ou um namoro a susto com o pecado. Irmã Célia é pequena, magra, franzina, mas dotada de uma energia que a faz mover-se como um dínamo quando age e fala. Ela muito se assemelha a Mércia, uma advogado do Recife que defendeu inúmeros perseguidos na ditadura. Ela, ao perceber Daniel, simula uma surpresa em veloz escurecer e brilho nas pupilas. Ele, atento ao sketch e à mímica, também se toma de surpresa.


 


– Irmã Célia, você por aqui? Eu não tinha ainda notado, ele diz, e a beija de modo respeitoso, gelado, na testa morna.


 


– Eu sou muito grande, sou não? responde-lhe a Irmã Célia, no seu português que às vezes é tradução literal da língua inglesa.


 


– Um pouco big, ele responde.


 


No grupo todos riem. É um riso nervoso, de conveniência, de quem acaba de sair de uma iluminação espiritual, de uma encenação incomum, mas não quer mostrar que se abalou, porque, afinal, a vida continua, tudo bem, nada vimos. Ele também ri, ri no seu costume, ambíguo. Se o ambiente for bom para o riso, é riso. Se não, é mostrar dentes, sem rosnar. Diferente dos animais de ataque aberto, ele insinua e se contrai.


 


E como Daniel sorri e ri alto, com os dentes mostrados por mero reflexo do ato de rir. Mas com um movimento rápido se contrai, porque o seu papel é mais alto: à vera, ele é o marido preocupado com a saúde de Soledad. Não vê a hora de que lhe perguntem, “o que houve com Sol?”, para que responda, com ar grave, “nada, ela está bem”. E se insistirem que ela não parecia estar assim tão bem, ele responderá: “De fato. Ela toma antidepressivos. Uns probleminhas psiquiátricos…”. Mas não, esse momento não chega. Todos – assim ele percebe -, todos o veem, todos o perseguem com os olhos, como se dele desconfiassem, como se ele fosse um criminoso. E nada falam. Sabem e não dizem, porque de nada em palavras, em provas, o acusam. Então ele fala observações, melhor dizendo, frases retiradas do nada, sobre a música de Vandré, do artista engajado Vandré. Engajado, ele diz, com o mesmo acento de Enganado, o Enganado Vandré:


 


– Um engajado. Grande artista! Vocês não têm aqui Caminhando?


 


– Não dá. Está censurado, não é?


 


– Mas têm ou não?


 


Ouve-se então, da cozinha, uma voz que canta La navidad de Juanito Laguna. Ninguém ali, na praia de Piedade, ainda a conhece. Se fácil seria rejeitá-la como uma canção desconhecida, se fácil seria não ouvir uma língua a que não estão acostumados, porque não é a língua inglesa, fácil não é se descolar e deslocar da voz e da melodia. Então ocorre na festa primeiro um falar baixo, um murmúrio débil, até que se faça um silêncio não pedido, um silêncio que os próprios silenciados não percebem, um silêncio como de voyeur, de que ouve atrás da porta o sussurro de uma intimidade vizinha.


 


“Juanito de la inocencia


canta en dormido Laguna


así por dentro del sueño


pasa llorando la luna”.

 

É doce, agradável e bem-vinda, e aqui, para esses níveis de sentimento, difícil é distinguir a voz que canta da melodia. Quem conhece um bom intérprete sabe. Há intérpretes que gravam tão bem uma canção, que a tornam carne e osso de uma só vida. Impossível separá-los, ou não será a mesma canção. Porque Soledad não é só a mulher bonita de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel de um peito dinâmico. Bonita de tal modo, que se dirá do fotógrafo o que se diz do mau desenhista, “como isto não parece com ela … não saiu parecido”. E se pedirá então ao fotógrafo o impossível, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, inalienável, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tara e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que lembre essa flor – e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma pétala -, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, porque hoje, neste dia do seu aniversário, ela está mais bela que antes, porque, dizem os médicos, a mulher grávida é mais bonita que as não embaraçadas, tentemos um método férreo, duro e cruel: olvidemos a beleza física de Soledad.


 


Pois não a veem, e a princípio, nos primeiros versos, não ligam a mulher que conhecem à voz que canta:


 


“Se le va hundiendo en los ojos


largo el camino.


Muy distraído se queda


Com su destino…”.


 


Daniel, Anselmo, Anselmo/Daniel vai até o muro do jardim e olha o mar azul de Piedade. Para fazer o que tem vontade, ele pularia o muro e, longe desse canto, ele voltaria a ser Simbad, o marujo, em busca de aventuras, do heroísmo de Hollywood, das histórias em quadrinhos. Então ele seria resgatado pela esquadra norte-americana, rumo ao Pacífico, ao Havaí, longe, bem longe dessa história concreta de ter de entregar isso. “Isso” é Soledad. Se o vemos mal, dele vemos que não lhe dói em absoluto entregar, delatar, fazer aprisionar, eliminar isso, essa mulher. Todas as ações necessárias, exceto trair. Trair, nunca. Não se trai aquilo em que não se acredita, ou, pelo menos, aquilo em que um lance esperto de sobrevivência foi levado a acreditar. Ele não é nem será jamais um traidor. Traidor é quem trai a pátria. Traidor não pode ser quem entrega o terror, o terrorismo, os terroristas. Pero Soledad ergue a voz na cozinha, ou por decibéis sensíveis aos ouvidos de captação de Anselmo, ou pelo silêncio que se faz no encanto, parece erguer a voz. Nem sequer se ouve um riso, uma folha que cai, um gelo em um copo. No cigarro que ele fuma, a própria fumaça canta:


 


“La Navidad que les canto


no tiene luz


se va tiznando en la noche


de Juan Laguna”


 


E Anselmo, Anselmo sua máscara entende esse espanhol y esa Navidad, que lhe chega também com o sentido de nascimento, la navidad que les canto no tiene luz. Vira-se para a esquerda e olha o mar. “Isso passa. Calma, hombre. Terás a compreensão daqueles olhos verdes, claros e vivos de Fleury”. E sorri íntimo.


 


 


 


*Do livro “Soledad no Recife”

Urariano Mota

Escritor, jornalista. Autor de "A mais longa duração da juventude", "O filho renegado de Deus" e "Soledad no Recife". Também publicou o "Dicionário Amoroso do Recife".

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