Temer: um governo indestrutível, por Sergio Saraiva

Michel Temer, ministros e deputados da base aliada em café da manhã no Palácio da Alvorada (Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República)
Foto: Marcos Corrêa/Presidência da República

Por Sergio Saraiva

Quais são as forças e os interesses que mantêm Temer no poder?

“Hoje, deve ter muito pouca gente querendo sair na foto com o Temer”. A frase-síntese de Rubens Ricupero – diplomata e ex-ministro – sobre governo Temer contém uma constatação aparentemente óbvia, mas equivocada, e um paradoxo.

A constatação que seria óbvia é a de que um governo em que 92% da população não confiam, segundo a Pesquisa CNI de setembro de 2017 – não deveria teve ter muitos correligionários dispostos a se perfilarem com ele.

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Pior ainda quando 89% não têm perspectiva de melhora e quase 60% começam a ter saudades do governo anterior. O governo de Dilma Rousseff – derrubada em um golpe comandado por seu vice-presidente decorativo. Justamente o presidente atual.

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O paradoxo Temer

O paradoxo: por que, assim sendo, tal governo é um dos mais fortes desde a redemocratização? Nada parece ter força para derrubá-lo.

Resiste à derrocada da economia e ao desemprego que ela traz. Resiste aos efeitos de uma austeridade insana e seus custos sociais.

Resiste a denúncias da Suprema Corte baseadas em evidências registradas em áudios onde se ouve a própria voz do presidente. Resiste a malas de dinheiro recebidas tanto pelo seu auxiliar direto quanto por seu ex-ministro. Malas filmadas e fotografadas.

Na imprensa, tais evidências de posturas não éticas do presidente da República surgem em um dia e somem dia seguinte – passam para a história. Isso quando não são desacreditadas. Nessa mesma imprensa, a notícia de que o presidente compra apoio de deputados e senadores para se safar de qualquer investigação é tratada como um dado comum da realpolitik nacional. E não como um escândalo.

As forças e os interesses que mantém Temer no poder

A verdade, porém, é que não há realmente um paradoxo.

O presidente possui o apoio necessário para manter-se no poder.

E não é verdade que ninguém queira ser fotografado ao seu lado. Em ambientes públicos, com certeza. Já em ambientes controlados …

Para conhecer seus apoiadores, basta ler os jornais. A Folha de São Paulo inclusive os nomeia: empresariado, ruralistas e segmentos conservadores – a tal “Bancada BBB” – boi, bíblia e bala.

Estão muito satisfeitos com Temer. Das 36 “propostas para o Brasil sair da crise”, enviadas ao governo Temer pela mesma CNI que patrocina a pesquisa citada acima, 29 avançaram. Um índice de 80% de atendimento. Os ruralistas encaminharam 17 reivindicações – 13 foram atendidas – ou 76%.

Como esclarece o jornal: “entre os destaques para esses dois setores estão a reforma trabalhista, a regulamentação da terceirização, o programa de refinanciamento de débitos tributários das empresas, uma generosa renegociação de débitos dos produtores rurais, a lei de regularização fundiária e a flexibilização das regras de licenciamento ambiental”.

Além disso, a bancada religiosa segue barrando projetos contrários aos seus interesses e promovendo outros como o “escola sem partido. A bancada da bala encaminha projetos que alteram a seu favor o Estatuto do Desarmamento e a revisão da maioridade penal de 18 para 16 anos.

Por que motivo tais setores estariam contrários ao governo Temer?

José Augusto Fernandes – diretor de Política e Estratégia da CNI: “não há dúvida de que o governo tem tido maior capacidade de condução”.

Marcos Montes – deputado pelo PSD-MG e presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio: “o governo correspondeu plenamente às nossas expectativas. Foram ações de coragem, de um governo que não está pensando nas eleições do ano que vem. Acho que ele ousou em muita coisa”.

Everybody loves Temer

Tampouco é verdade que o governo Temer seja o fiasco que perece ser internacionalmente.

Sim, Temer é desdenhado em todos os eventos entre chefes de Estado dos quais participa.

Mas isso não deve ser confundido com insatisfação.

Para tanto, basta ver o editorial elogioso onde a Folha comemora as mais recentes privatizações feitas por Temer – ”Infraestrutura à venda”.

Por ele, ficamos sabendo que as usinas hidroelétricas da Cemig vendidas aos chineses por R$ 12,1 bilhões são um ativo maduro, ou seja, pronto e em operação. Basta portanto, assumir o controle e passar a realizar lucros – nada do risco relacionado a investimentos sujeitos ao payback.

Assim também, os campos petrolíferos vendidos – R$ 3,8 bilhões – foram aqueles com “potencial de rentabilidade bem mapeado”. Ou seja, campos já pesquisados pela Petrobras e que agora serão explorados pela americana Exxon-Mobil igualmente sem riscos e em regime de concessão.

Apenas para lembrar, em 2013, no governo Dilma, a mesma Exxon decidiu não participar do leilão sob o regime de partilha. Até parece que a Exxon já sabia do que viria a seguir – o impeachment de Dilma e a ascensão ao poder de Michel Temer. E regras generosas para as petrolíferas estrangeiras.

Temer está cacifado em dólar – o que por certo lhe dará ”oxigênio paramentar” – e não creio que os estrangeiros estejam com níveis baixos de satisfação em relação ao governo brasileiro.

Não esperem a cavalaria

Por fim, com apoio irrestrito do poder econômico, da bancada BBB e com altos índices de satisfação de governos estrangeiros, quem tiraria Michel Temer do poder?

O povo e as Forças Armadas insatisfeitos?

Nenhum dos dois.

Sim, parte do povo desesperançado pede intervenção das Forças Armadas. Porém, não há porque nutrir esperanças. Vejamos o que disse o general Edson Leal Pujol – comandante militar do Sul:

“Não estamos gostando, mas estamos passivos. Quero saber quantos de vocês foram para rua se manifestar? Não adianta nós usarmos só as mídias sociais. Se vocês estão insatisfeitos, vão para a rua se manifestar “.

Eis a cilada em que estamos. O povo espera a ação das Forças Armadas, mas as Forças Armadas esperam ação do povo.

Temer ficará onde está sem maiores problemas.

Até porque, o que esperar do povo?

Sim, ele está indignado. Sim ele não votará em Temer e não pretende votar em ninguém que o apoie. Motivo pelo qual ninguém quer estar ao lado de Temer em uma foto pública.

Ocorre que isso já é sabido e já foi precificado pela classe política. Basta ler a segunda parte da declaração do deputado representante do agronegócio sobre o governo Temer: um governo que não está pensando nas eleições do ano que vem”.

Mas até 2018, Temer é indestrutível. E quando 2018 chegar, veremos se realmente haverá eleições.

O povo está com saudades de Lula? Lula lidera em todos os cenários para as eleições de 2018?

Lula será preso.

E, tirando Lula, que importa quem será o presidente? Bolsonaro, Doria? Em que seriam diferentes de Temer?

Temer eterno.

Smoke gets in our eyes

E por que o povo não se revolta como se indaga o general?

Os militares parecem estar apenas esperando esse sinal. Por que ele não vem?

A resposta está na própria pesquisa CNI. Basta ver do que o povo se lembra do noticiário com o qual é bombardeado a cada Jornal Nacional:

Jogaram fumaça nos olhos do povo. 

Polêmica mesmo é somente “criança viada” e homem pelado em exposição de arte.

Inútil lembrar das “Jornadas de junho de 2013”, inútil esperar os “camisas amarelas” gritando “Fora Temer”.

Quem botou, então, o povo na rua estava insatisfeito com o governo que tinha, mas agora está satisfeito com o governo e o povo que tem.

Não haverá mais domingueiras na Paulista.

 

PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia: quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte.

15 comentários

  1. Verdadeiro Poder

    O texto descreve bem a existência de um poder por trás da democracia, do voto e da constituição.

    Não há poder popular, este é apenas tolerado e tutelado, para manter as aparências e continuar caminhando pelo caminho traçado pelos verdadeiros donos do poder. A classe política é sustentada pelo poder econômico-financeiro via corrupção e pelo financiamento de campanhas. Também é tutelada e alienada a camada de cima do funcionalismo público, incluindo MPF, PF, BC e Judiciário.

    A classe política ficou intoxicada de tanta falsa democracia turbinada pelo poder, gerando dezenas de novos partidos políticos e de bancadas, uma verdadeira torre de babel.

    A grande mídia vive graças ao poder financeiro, sendo a ele submissa e dirigida.

    Lula foi tolerado e tutelado. Teve que fazer uma “carta aos brasileiros” prometendo que não iria reestatizar a VALE e etc. Os governos do PT tiveram que conviver com a participação de partidos de sustentação e tampar o nariz. Dilma tentou quebrar essa relação e se deu mal. Hoje Lula acorda disposto a fazer diferente, a fechar a Globo, a reestatizar as empresas, mas, agora irão prendê-lo para não poder fazer aquilo.

    Hoje é o Temer no Palácio, que poderia ter sido o Maia ou qualquer um, até o Eduardo Cunha. A democracia foi sucateada, desgastada, rasparam o fundo da panela e temos hoje apenas a última base ou camada de tinta, de onde aparece o verdadeiro poder que manda no Brasil e no mundo.

    Se houve um lado positivo em tudo isso foi a queda da máscara da falsa democracia que vivíamos no Brasil, como numa caverna de Platão, com poderes ocultos que já não estão mais tão ocultos assim. Hoje as bandeiras são bastante claras e específicas. Hoje é o espírito do Brizola quem deve nortear esta caminhada. Brizola foi quem levantou este assunto e lutou contra isso na sua vida toda, contra as “perdas internacionais” que a mídia colocava no ridículo, mas que hoje aparecem sem mais nenhuma máscara.

    Requião e outros, assim como o PT, naturalmente caminham agora com a bandeira nacionalista e do desenvolvimento social. O poder econômico tenta prender Lula, a mídia bota cortinas de fumaça com assuntos de pedofilia e de gay, para gerar polemicas de distração (caça-bobos) e tirar votos da esquerda e evitar que setores de costumes mais religiosas, familiares e conservadoras apoiem a causa nacionalista.

    Pelo menos, hoje temos o jogo claro e sabemos exatamente o que fazer. Lula já soube, e saiu a caminhar pelo Brasil.

    O verdadeiro poder está nu!

  2. Está cabalmente provado então

    Está cabalmente provado então que quem tem o poder no brasil não são os políticos e muito menos o povo.

    Quem manda e desmanda são aqueles 1 ou 2% de endinheirados que tem o poder de fato. Os outros 4% se devem àqueles que pensam que tem poder.

    Os outros 94%? 

    Ora, que se fodam.

  3. O povo Brasileiro é uma MERDA

    O povo Brasileiro é uma MERDA !!! É um povo, VIL, CANALHA e COVARDE !!!

    Conversava sábado no Detran com um sujeito revoltado com pobres ganahando de graça um aparelho para converter a TV analógica para sinal digital. Nossa classe média baixa, tem inveja de pobre !!!

    Povinho de merda e canalha !!! Tudo o que está acontecendo é pouco perto do que merecemos !!!

    • O povo somos nozes… infelizmente

      Sempre que eu ouvia essa frase, ingenuamente corrigia: “O povo somos nós… nós somos parte do povo… quem diz que o povo é burro, ou está admitindo a própria burrice, ou é elitista e se vê acima do povo”.

      Depois de julho de 2013 eu, sinceramente, não me identifico mais com o povo desse país. Eu pensava que nosso fracasso era culpa do colonialismo e da falta de auto-estima… 

      Hoje eu vejo que a resposta é mais simplista mesmo: SOMOS BURROS! FATO CONSUMADO E INDISCUTÍVEL!!!

      EU TENHO VERGONHA DESSE POVO E DESSE PAÍS… NÃO VEJO FUTURO ALGUM EM NOSSO HORIZONTE.

      Educação não resolve… a classe-média, que é mais educada, se mostra pior que a classe-baixa… 

      Juízes, imprensa, policiais, médicos, atores… que bando de idiotas!!! É impossível sair na rua, pegar um ônibus, ir em algum lugar público, sem perder a fé na humanidade por completo… que merda de país!

      O jeito é virar um hermitão… viver isolado dessa zona… aposto que muita gente deve estar fazendo essa escolha.

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