Terceirizado da Vale morre após queda de talude no Córrego do Feijão, em Brumadinho

Mina é a mesma onde ocorreu o crime de janeiro de 2019, que deixou mais de 270 mortos e espalhou lama tóxica pela região

Pai de uma criança de três meses, Júlio César de Oliveira Cordeiro morreu soterrado por volta das 16h - Divulgação/Corpo de Bombeiros
do Brasil de Fato
por Daniel Giovanaz, de São Paulo (SP)

O operador de retroescavadeira Júlio César de Oliveira Cordeiro, de 34 anos, morreu soterrado na tarde da última sexta-feira (18) após o desmoronamento de parte da encosta de um talude próximo à cava da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), a mesma onde ocorreu o crime socioambiental da mineradora Vale em janeiro de 2019, que deixou mais de 270 mortos.

O talude é um plano de terreno inclinado construído para garantir a estabilidade do aterro que contém os rejeitos de mineração.

Cordeiro era casado, pai de uma criança de três meses, e trabalhava como terceirizado da Vale, vinculado à empreiteira Vale Verde. No momento da morte, ele fazia a limpeza da barragem B1 da mina do Córrego do Feijão.

A família de Cordeiro vivia no município de Santa Luzia (MG). O trabalhador estava alojado há 15 dias no bairro Funil, em Mário Campos (MG), que faz divisa com Brumadinho. A informação foi confirmada por Sammanta Bleme, que integra a comissão de moradores do bairro Funil.

“Ontem passaram os bombeiros com a sirene ligada, e automaticamente veio a lembrança daquele dia [25 de janeiro de 2020]. Em seguida, veio a notícia do soterramento”, descreve.

Repercussões

“Não foi acidente! A Vale mata rio, mata peixe e mata gente”, posicionou-se o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) pelas redes sociais na manhã de sábado (19). “O MAB reafirma que a Vale segue matando nosso povo, nos rompimentos das barragens, nos crimes trabalhistas, e também na sua política de não reparação com os atingidos. Esta é a prática de quem coloca o lucro acima da vida.”

Alenice Baeta, gestora de Informação do projeto Paraopeba da Região 2 da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas), diz que o desmoronamento mostra uma inconsistência geotécnica no talude.

“Se era uma área de alto risco, não poderia ter ninguém ali”, ressalta. “O talude não cai de uma vez. Sempre há indícios, rachaduras. Não se pode arriscar vidas humanas dessa forma, e é preciso investigar se não há risco de novos rompimentos. Porque o medo e o desespero das comunidades próximas àquele local é muito grande.”

Em nota à imprensa, a Vale afirmou que se solidariza com os familiares da vítima. “Juntamente com a empresa contratada, [a Vale] dará apoio aos familiares do empregado. As empresas estão apoiando as autoridades no atendimento ao caso e na apuração das causas do acidente. As atividades de manutenção no local serão suspensas para novos estudos e avaliações das condições de segurança”, diz o texto da mineradora.

O prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo Barcelos (PV), publicou imediatamente após a morte de Cordeiro o decreto municipal nº 210, que suspendeu os alvarás de funcionamento e localização da Vale e suas terceirizadas por sete dias “ou até que sejam esclarecidos os fatos do acidente ocorrido em 18 de dezembro de 2020 e garantidas as condições de segurança para os trabalhadores que atuam no local.”

Edição: Mauro Ramos

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