Terras indígenas estocam 32% do carbono da Amazônia

As terras indígenas guardam 32% do carbono estocado na Amazônia – o equivalente a 15 bilhões de toneladas de compostos carboníferos, presentes nos troncos, galhos e solos da floresta, em um território de 109,8 milhões de hectares.

A avaliação foi realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e o Woods Hole Research Center. O total de carbono estimado nas reservas indígenas é 2,5 vezes superior à redução de gases-estufa encomendada no primeiro período do Protocolo de Quioto, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Por meio de simulações que compreendem o período de 2008 a 2050, os pesquisadores concluíram que se as reservas não forem protegidas, a derrubada e queima da vegetação resultará na emissão de 5 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, até 2050.

Estima-se que 75% do gás carbônico emitido no Brasil é decorrente do desmatamento, sobretudo na Amazônia. As terras indígenas representam 60% do total de áreas protegidas. Em reEm relatório, o IPAM afirma que as reservas atuam como obstáculos ao avanço da destruição em um espaço de até 10 quilômetros de distância, além dos seus limites.

A taxa atual de desmatamento na Amazônia brasileira é considerada alta (maior que 1 milhão de hectares/ano), enquanto o desmatamento dentro das áreas protegidas é menor que 3% do território total das reservas de conservação (que inclui espaços indígenas e de comunidades locais).

Acesse o relatório do Ipam.

Para a advogada ambientalista do Ipam, Paula Moreira, o governo tem tomado atitudes incoerentes em relação aos discursos feitos nos encontros internacionais. “No Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas, o Ministério do Meio Ambiente tem metas para reduzir em até 70% a devastação florestal. Em contrapartida, senadores aprovaram medida provisória [MP] incentivando a grilagem na região amazônica”, diz.

No dia 02 de junho, o Senado aprovou a MP 458, que trata da regularização fundiária na Amazônia. A medida foi apelidada de “MP da Grilagem” por permitir à União transferir, sem licitação, terrenos de até 1,5 hectare.

Ainda, tramita na Câmara dos Deputados, projeto para alteração do Código Florestal Brasileiro a fim de reduzir a área de reserva na Amazônia Legal, de 80% para 50%. “No Brasil temos, de um lado, os ministérios do Desenvolvimento, Agricultura, Casa Civil e Planejamento Estratégico. E do outro, apenas o Ministério do Meio Ambiente e a sociedade civil medindo forças”, conclui Moreira.

Biomassa

A fixação do carbono na constituição das plantas se dá por meio da fotossíntese. Os vegetais retiram o monóxido de carbono da atmosfera, e com a energia obtida da luz solar, o transformam em açúcares para sua alimentação. Assim, o carbono é estocado na forma de madeira e tecidos.

Segundo dados da organização não-governamental SOS Mata Atlântica, a maior parte da biomassa total (BT), em florestas tropicais, se concentra nas árvores sob forma de madeira – 70% da biomassa total, sendo 15% a 20%, água.

O cálculo utilizado para estimar a quantidade de carbono mantido nas florestas, ou BT, é a somatória:

– Da biomassa viva acima do solo (BVAS), que abrange desde a base do tronco até a copa;
– Da biomassa subterrânea (BS) – as raízes vivas;
– Da biomassa morta (BM) – folhas raízes e galhos e outras partes mortas do vegetal que caem no solo e ainda não foram decompostas;
– E da matéria orgânica do solo (MOS) – todas as partes decompostas.

A redução de gases-estufa no país ou a proteção de regiões florestadas possibilita a negociação de bônus de carbono entre nações em desenvolvimento e países obrigados a reduzirem o nível de poluição atmosférica.

Para entender os cálculos utilizados na obtenção do BT, clique aqui .

Créditos

A Convenção do Protocolo de Quioto determina que as nações industrializadas devem reduzir suas emissões em 5,2%, em relação aos níveis de 1990, entre o período de 2008-2012. Os países em desenvolvimento não são obrigados a aplicarem políticas de retenção ao gás carbônico.

Entretanto, a convenção mundial estabelece “ações de flexibilidade”, permitindo aos países ricos cumprir as metas exigidas fora de seus territórios, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo-MDL (Clean Developemente Mechanism).

No caso do Brasil, por exemplo, os proprietários de terras florestadas podem recorrer ao cálculo de carbono estocado para vender no mercado internacional de créditos de carbono.

Saiba mais no artigo: Desenvolvimento limpo: carbono para comprar e vender.

Mata Atlântica

Estima-se que o desmatamento da Mata Atlântica tenha liberado 13 milhões de toneladas de carbono. O bioma é um dos maiores em biodiversidade do planeta, mas já teve 93% da sua área total devastada. Originalmente a Mata Atlântica cobria 1,36 milhão de quilômetros quadrados abrangendo sete estados brasileiros.

O estudo “Estimativa da biomassa e estoques de carbono: o processo de Mata Atlântica”, produzido pelo programa Biota-Fapesp, da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, conclui que para cada hectares desmatado são emitidas cerca de 100 toneladas de carbono – atualmente existem 900 mil toneladas ainda estocadas nas árvores desse bioma.

Acesse o estudo da FAPESP (em inglês), na íntegra.

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