Tirania em vertigem, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Assim como o nazismo, o bolsonarismo é um vírus mortal que se alastra pelo tecido social – e seu avanço só será interrompido com sua derrota

Povos indígenas têm sido os mais aguerridos contra as medidas tomadas pelo bolsonarismo. Foto: José Cruz/AgenciaBrasil

Tirania em vertigem

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um vírus sozinho não faz o cadáver. É preciso que ele se multiplique até sobrepujar as defesas naturais do organismo. No momento em que consegue realizar sua missão, o vírus começa a se propagar do corpo condenado à morte para outro saudável. E então o ciclo recomeça. Ele somente será interrompido quando o vírus for derrotado.

A tirania também é um vírus mortal. Ela também não destrói imediatamente o tecido social. Isso é feito aos poucos. O nazismo não começou pelas câmaras de gás. Ele começou com uma guerra cultural que queimou livros antes de poder começar a incinerar cadáveres.

No Brasil, a primeira vítima da tirania também foi um livro: a Constituição Cidadã. Aqueles que estavam encarregados de serem os guardiões dele ajudaram a rasgá-lo. O resto é consequência.

Foi um golpe “com o Supremo, com tudo”. E agora nenhum livro está em segurança. Num dia, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que ninguém precisa ler livros para ser conservador. No outro, um governador conservador divulga uma lista de livros proibidos em seu Estado. O Ministro da Economia e o Ministro da Justiça ficaram em silêncio. O presidente se limitou a fazer um vídeo para ridicularizar as cabeças dos pernambucanos.

Como o nazismo, o bolsonarismo é um vírus mortal que se alastra rapidamente pelo tecido social. Ele infecta o país aos poucos. A maioria dos Ministros do STF foi o vetor que nos transmitiu essa tirania em vertigem. Ao aderir ao golpe de estado contra Dilma Rousseff para possibilitar a introdução de reformas neoliberais indesejadas pela população, os Ministros daquele Tribunal rasgaram o art. 1o. da Constituição Cidadã.

Assim que a soberania popular foi removida da equação política, todos os demais princípios constitucionais enfraqueceram e começaram a morrer. O direito à saúde está sob ataque orçamentário. O direito à educação universitária está sendo aceleradamente suprimido. A liberdade pedagógica deixou de existir. A religião ocupou o espaço da política. A censura retornou com força. As garantias outorgadas aos índios foram cruelmente pisoteadas. E até o direito à vida dos cidadãos foi revogado e a pedagogia do assassinato assumiu seu lugar.

Enquanto o tirano sorri satisfeito com o resultado de sua obra, centenas de brasileiros estão sendo agredidos gratuitamente e mortos diariamente pelos adeptos do bolsonarismo. As instituições que deveriam garantir a paz social estão em guerra contra a população brasileira. E até os servidores públicos são considerados parasitas.

Os índios, coitados, são os únicos saudáveis o suficiente para resistir dentro e fora do país. Mas o exemplo deles é ignorado pela população. No momento de maior perigo, as últimas defesas imunológicas contra o bolsonarismo são justamente os povos que correm o maior risco de ser exterminados. A defesa dos índios é a defesa de tudo o que existe de mais valioso no Brasil. Se não formos capazes de perceber isso, a tirania em vertigem venceu e o vírus transmitido pelos juízes destruirá a humanidade que resta em todos nós.

Um vírus sozinho não faz o cadáver. Foi um golpe “com o Supremo com tudo”. Os juízes não nos libertarão da doença que eles ajudaram a espalhar.

Recorrer ao Direito não é a solução. Ele é a fonte do problema. Os índios não precisaram do Direito para se perpetuar. Muito pelo contrário.

Sempre que se expandiu pelo território de Pindorama, o Direito causou a destruição das comunidades indígenas. Nesse momento, suponho, os índios consideram o nosso Direito uma doença mais terrível e contagiosa do que o vírus da gripe, que os colonos também transportaram em suas caravelas no século XVI. Os índios só conseguiram sobreviver ao objeto de veneração/desprezo dos juízes porque cultivaram duas medicinas: a amorosidade pelos outros seres humanos e um profundo respeito pela natureza.

O nosso Direito não é amoroso. Ele é tão destrutivo que gerou o bolsonarismo no exato momento em que a maioria do STF implodiu o sistema constitucional que deveria defender. O nosso Direito não respeita a natureza. Ele se propaga ao infinito nas folhas de papel confeccionadas com as árvores que foram derrubadas. E nessas mesmas folhas de papel não existe espaço para qualquer decisão que afaste Bolsonaro do poder, ou que o responsabilize pelos crimes que estão sendo cometidos com a ajuda do Direito e dos juízes.

A cura está a nossa disposição. Mas nós continuamos cegos. Acreditamos que o Judiciário pode nos salvar de uma doença que os próprios juízes ajudam a propagar. Essa tirania em vertigem veste toga. Certos estão os índios. Eles vão ao exterior denunciar os crimes cometidos pelos juízes brasileiros. É isso que nós também devemos fazer.

Essa tirania é um vírus mortal que se alimenta do Direito. Aquilo que a fortalece não deve ser considerado uma medicina. Apenas os índios conhecem as medicinas que nós precisamos.

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1 comentário

  1. O fato que mais me preocupa são as escolas militarizadas para formar a “Juventude Hitlerista”. Ninguem, nenhum democrata, fala nada sobre isso!!!

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