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Trecho exclusivo de "Em Busca de Iara" revela intensidade do amor de Lamarca

Jornal GGN - A moça da imagem ao lado é Iara Iavelberg, mais uma vítima da ação sem escrúpulos das forças de repressão sustentadas pelo regime militar (1964-1985).

A jovem morreu em 1971, aos 28 anos, caçada por ser militante da extrema esquerda e mulher do guerrilheiro Carlos Lamarca, um dos ícones da revolução socialista armada contra a ditadura militar.

Longe de ser apenas mais um rostinho bonito, Iara foi mentora política de Lamarca, até então um desertor do Exército brasileiro e dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária. Membro de família judia, a jovem deixou para trás a vida afortunada, o curso na USP e até mesmo um casamento celado aos 16 anos para acompanhar o guerrilheiro nas ações contra o regime ditatorial. Ele morreu pouco tempo depois da emboscada que tirou a vida de Iara.

“A morte de Iara afetou muito a vida da minha família. Os meus dois tios, irmãos mais novos dela, também entraram para a luta armada, mas em determinado momento, quando o cerco começou a fechar, eles saíram do País. Minha avó nunca se recuperou dessa perda. Minha mãe estava grávida de mim quando recebeu a notícia da morte da irmã pelo rádio. É uma história muito dolorida”, relata Mariana Pamplona.

Mariana é sobrinha de Iara, produtora e roteirista do documentário Em Busca de Iara, que conta a trajetória da militante a partir da exumação de seu corpo, em 2003. A produtora Kinoscópio enviou ao Jornal GGN trechos exclusivos da obra que estreou no circuito nacional no dia 27 de março.

Formada em Filosofia, Mariana decidiu mergulhar na história de Iara percorrendo os indícios de que a morte da militante não foi um suicídio, ao contrário do que sustenta o Estado. Esse é o fio condutor do documentário.

Há cenas da exumação do corpo de Iara, conquistada pós anos de luta no Judiciário. A jovem foi enterrada na ala suicida do Cemitério Israelita de São Paulo - o que, segundo a família, é uma afronta, pois Iara pode ter sido executada. O laudo médico recente produzido pelo médico Daniel Munhoz, da USP, aponta que a jovem não disparou um tiro contra o próprio peito. 

“Não é um filme ‘biography’ comum. É um filme de investigação, em que tentamos desconstruir a versão oficial [da morte de Iara] e construir uma nova para os fatos. Tudo isso com depoimentos, imagens de arquivos e documentos”, pontua Mariana.

Segundo Mariana, a família teve acesso, nos últimos anos, a documentos que estavam guardados em Brasília, em sigilo. “Havia detalhes de como o cerco [em um prédio em Salvador, onde Iara se escondia, distante de Lamarca] foi montando. Quantos homens tinham, qual o posicionamento de casa um. A gente pôde entender a fundo como o cerco aconteceu”, revela.

O amor e a guerra

No documentário, os depoimentos de amigos e as cartas que Lamarca escrevia para Iara emocionam por evidenciar a intensidade do relacionamento de ambos os simbolos da resistência. O casal fez a última viagem juntos rumo à Bahia. Ele se estabeleceu em um esconderijo no interior do Estado e ela, em Salvador. Quando Iara morreu, seu corpo ficou trancado em uma gaveta de necrotério, utilizado como isca para o namorado. A família só soube da morte de Iara quando, enfim, Lamarca, foi morto pela Ditadura. 

Outras histórias

A morte de Iara é um episódio relacionado à crueldade praticada também contra Nilda Cunha. A adolescente abrigou a mulher de Lamarca em Salvador e, quando da morte da militante, foi presa e torturada de forma violenta. Diz a história que Nilda foi obrigada a tocar em Iara morta. Saiu da prisão, mas morreu pouco tempo depois.

“Temos depoimentos de Leônia, irmã da Nilda. É um momento forte, emotivo. O caso é outro que está para ser revisto. Quando ela foi solta, em pouquíssimo tempo depois ela ficou cega e morreu. Suspeita-se que foi envenenada, estuprada, e isso deve ser investigado”, sustenta Mariana.

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Douglas Laurindo

Infelizmente demorou muito a

Infelizmente demorou muito a morrer, ela e o canalha, rato e traidor covarde do Lamarca. Antes disso fizeram muitas vítimas inocentes, terroristas imundos.

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Já viu o filme, tavinho

Já viu o filme, tavinho frias?

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serralheiro 70

Emoção pura! Ainda mais pelas

Emoção pura! Ainda mais pelas minhas lembranças da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras que frequentei em 1962, Muito a lamentar desta jovem e promissora elite emasculada por gorilas armados.

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