Um perfil da UGT

Do Valor

UGT atrai sindicalistas avessos ao lulismo 

João Villaverde, de São Paulo
27/07/2010

Era domingo, 30 de agosto do ano passado, quando a União Geral dos Trabalhadores (UGT) realizou sua primeira plenária nacional, na Praia Grande (SP). No evento, quase mil representantes de todos os seus 584 sindicatos. O presidente da UGT, Ricardo Patah, convidara José Serra e Aécio Neves, do PSDB, Lula e Dilma Rousseff, do PT, Marina Silva, do PV, e Ciro Gomes, do PSB. Apenas Serra compareceu. Na ocasião, segundo noticiou o Valor, o atual candidato do PSDB à Presidência declarou: “Me considero aliado dos bons sindicalistas e por isso me considero aliado da UGT”. O destino de uma central que administra dirigentes filiados a PPS, DEM, PV e PSDB estava selado – não apoiaria a candidatura do PT.

À exceção da festa de 1º de maio deste ano, quando Dilma, Lula e Marina, em horários diferentes, compareceram, Serra esteve presente em todos os grandes eventos promovidos pela UGT: sua fundação, em 19 de julho de 2007, sua primeira plenária nacional, em agosto do ano passado, e o lançamento de seu manifesto eleitoral, na semana passada.

O Valor acompanhou o desenrolar das discussões no movimento sindical, tendo acompanhado reuniões entre presidentes e dirigentes das seis centrais sindicais reconhecidas pelo governo. A trajetória da UGT, que foge do consenso instaurado no movimento sindical, galvaniza atenções. Mais que isso: sindicalistas descontentes com suas centrais veem na UGT um atrativo para negociarem espaços na direção de suas entidades – ou mesmo migrarem.

Doin”Do início do ano para cá”, diz um dirigente da UGT que não quis se identificar, “dois grandes sindicatos e uma federação representativa, de São Paulo, já nos procuraram para conversar”. Eles procuram uma bandeira fora do lulismo.

O movimento sindical, que rachara em 1982 após a realização da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), iniciou trajetória de aproximação há quatro anos, pouco depois que Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República. As últimas fissuras ocorreram em 2007, quando o rol de centrais atingiu o número atual: seis entidades, que desde então passaram a dividir entre si quase R$ 150 milhões repassados pelo governo federal.

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“O governo Lula fez a missão impossível dos anos 1990: uniu CUT e Força Sindical”, diz um dirigente de alto escalão de uma central sindical. A percepção de ineditismo é generalizada no movimento. Na década passada, a disputa era acirrada. De um lado, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), assentada no sindicato dos metalúrgicos do ABC, que fora presidido por Luiz Inácio Lula da Silva, também fundador do PT. Do outro, a Força Sindical, sustentada pelo sindicato dos metalúrgicos de São Paulo, presidido por Luiz Antônio de Medeiros, que surgia, à época, como o “sindicalismo de resultados”, se opondo ao “sindicalismo de conflitos” da CUT. Uma estava com Lula. Outra, com Collor.

A Força Sindical, que optara por Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006, apoia Lula há quatro anos e seus dirigentes já manifestaram apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) – a primeira vez, desde sua fundação, há 20 anos, que a Força apoia o petismo. Surge como símbolo de um fenômeno que a une com CUT, CTB, CGTB e NCST. Das centrais que recebem uma parte do bolo arrecadado pelo Estado por meio da contribuição sindical, apenas a UGT não compartilha do caminho que uniu as eternas rivais CUT e Força às outras entidades.

A relação entre partidos e centrais é clara. Dirigentes da CUT pertencem ao PT, enquanto a CTB é ligada ao PC do B, a CGTB, em sua maior parte, ao PMDB e a Força Sindical predominantemente ao PDT. Todos os partidos formam a base aliada da candidatura Dilma à Presidência. A UGT, por outro lado, conta com dirigentes filiados a PPS, DEM, PSDB e PMDB paulista, todos apoiando a candidatura de José Serra, e outros ao PV, que lançou Marina Silva como candidata.

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Dos sete vice-presidentes da entidade, quatro são filiados a partidos. Antonio Carlos dos Reis, o Salim, é deputado federal pelo DEM e tenta a reeleição. David Zaia é presidente do PPS em São Paulo, Roberto Santiago é deputado federal pelo PV e Laerte Teixeira da Costa, é filiado ao PMDB. Além deles, Chiquinho Pereira, secretário de Organização Sindical, é tesoureiro do PPS em São Paulo e é um dos principais defensores da candidatura Serra na entidade, além de articular o trânsito de Roberto Freire, presidente nacional do PPS, na central.

Dirigentes, líderes e estrategistas de outras centrais avaliam que a posição “isolada” da UGT é, na verdade, “ideológica”. Para Wagner Gomes, presidente da CTB, a posição da UGT “não é moderna, ao não se definir por um ou outro candidato”, diz. Para Gomes, é “natural” que a UGT fique próxima de Serra, uma vez que seus dirigentes são militantes de partidos coligados ao PSDB.

Em evento realizado pela UGT na Faap em maio, que o Valor acompanhou, duas presenças evidenciam o desconforto das demais centrais: Roberto Freire e Antônio Ramalho – Freire preside o PPS e Ramalho, presidente do sindicato dos trabalhadores da construção civil de São Paulo, filiado à Força Sindical, é candidato à deputado estadual pelo PSDB. A reportagem apurou que as relações de Ramalho na Força não veem bem desde 2006 e sua presença em eventos da UGT pode sinalizar uma migração, dizem sindicalistas.

Em abril, membros da CTB entraram em conflito com os da UGT, quando as duas realizaram manifestações em frente ao Consulado de Cuba, no mesmo dia. “Enquanto eles defendiam os dissidentes, nós estávamos lá manifestando apoio ao povo e ao governo cubano”, diz Gomes, da CTB. Segundo Ricardo Patah, presidente da UGT, “o tempo mostrou que estávamos do lado certo, porque o regime de Castro liberou presos políticos à Espanha”. Os dirigentes das centrais colocaram panos quentes no episódio, especialmente porque a relação entre seus presidentes, Gomes e Patah, é boa.

Poucos depois, durante os preparativos finais para a realização da 2ª Conclat, a UGT decidiu romper o acordo fechado em janeiro, em reunião na sede da CUT em São Paulo, que o Valor esteve presente. Quando da realização da Conclat, no Estádio do Pacaembu, a UGT foi a única central que não participou. Na Conclat, as cinco centrais aprovaram documento de demandas sindicais aos candidatos à Presidência.

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A UGT resolveu realizar evento em separado, promovido há duas semanas em São Paulo, quando entregou documento próprio à Marina, Serra e Aldo Rebelo (PC do B), que representava Dilma. A constante presença de Serra, que no evento da entidade declarou que “está junto dos sindicalistas da UGT”, sensibiliza o alto escalão da entidade.

Até o fim do ano, o próximo grande evento da central será a inauguração de sua sede nacional, em São Paulo. Desde 2007, os dirigentes da UGT ocupam o mesmo espaço do sindicato dos comerciários de São Paulo, cuja sede no Vale do Anhangabaú é uma das maiores do país. A nova sede da UGT – um prédio alugado de dez andares no Centro de São Paulo – será inaugurada em setembro, a um mês das eleições. Até lá, diz Patah, “teremos regularizado quase mil sindicatos”.  

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