Um Raio-X da crise econômica

Um dos elementos para entender a crise que a política de juros desastrada do governo federal engendrou é um fenômeno conhecido pelos keynesianos de empoçamento de liquidez. É o que acontece quando a preferência pela liquidez aumenta rapidamente frente a uma crise econômica. Nesses casos, há uma corrida por ativos seguros, geralmente títulos públicos, que inviabiliza recursos para investimentos produtivos. Como resultado, há o aumento da capacidade ociosa, com equivalente crescimento do desemprego. No caso brasileiro o último ciclo de aperto monetário durou entre outubro de 2014 e agosto de 2015, com manutenção até outubro de 2016. O resultado foi que o percentual em relação ao PIB do M4, títulos públicos reajustados pela selic, saiu de algo um pouco acima de 11,5% para próximo de 14%. Trata-se de um volume significativo de recursos que foi drenado pelo Estado, com diversas consequências recessivas.

Uma gama significativa de economistas consideram não haver motivos econômicos para a manutenção da taxa de juros dos títulos públicos brasileiros em níveis tão elevados. De fato, comparadas com diversos países a taxa dos títulos brasileiros é muito elevada. 

É possível observar que, mesmo com a queda nas últimas reuniões do COPOM, de 14,25 em agosto de 2016, para os 12,25 atuais, o Brasil ainda apresenta a maior taxa de juros. A questão é que, mesmo considerado ultrapassado, o debate sobre a neutralidade da moeda na teoria econômica é concensual em um aspecto: uma política monetária mal gerida pode causar efeitos devastadores na economia. Nesse aspecto, seria interessante entender porque a taxa de juros dos títulos públicos em níveis elevados pode ser prejudicial para o sistema econômico. 

O momento de outubro de 2012 foi escolhido por representar a menor taxa de juros da história dos títulos públicos brasileiros em 7,25%. O ano de 2013 marcou o primeiro ciclo de ajuste monetário, que durou até o início de 2014. Observa-se, a partir do gráfico 3, que naquele momento o aumento dos juros não representou uma corrida por títulos públicos, porque a economia encontrava-se em expansão (também pode-se interpretar como um carregamento das taxas e juros mais baixas no momento anterior já que a série é a média dos 12 meses anteriores).

O problema mais grave aconteceu no segundo ciclo de aperto monetário. Nesse momento, houve uma evidente corrida por títulos públicos, uma vez que a economia já encontrava-se em recessão. Posteriormente, mesmo com a manutenção das taxas de juros em nível de 14,75 os spreads e as taxas de juros continuaram aumentando. Ao mesmo tempo, houve uma trajetória consistente de aumento corrida por títulos públicos.

Há, nesse caso, duas consequências importantes: i) aumento das taxas de juros na ponta; e consequentemente ii) aumento da capacidade ociosa. Ou seja, a diminuição das taxas de juros no final de 2015 não trariam nenhum efeito inflacionário, afinal, por um lado, o novo incentivo para financiamentos somente traria de volta a atratividade dos títulos públicos para os níveis anteriores e, por outro, havia (como ainda há) capacidade ociosa para suprir a demanda sem pressões inflacionárias [4].

Em economês esse fenômeno poderia ser descrito como um aumento da preferência pela liquidez [3]. Em termos gerais, o aperto monetário desviou algo em torno de 2,25% do PIB, ou R$ 141 bilhões [4] de investimentos para títulos públicos. Todas essas questões colocadas, espera-se que o novo ciclo de afrouxo monetário não fique preso a dogmas monetaristas de condução da política monetária com observações práticas consistentemente diferentes da teoria.

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[1] http://pt.tradingeconomics.com/country-list/interest-rate

[2] https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries

[3] Ainda em economês, a consequência seria uma diminuição na velocidade de circulação da moeda, uma heresia entre os ortodoxos, e o que tornaria os modelos de previsão completamente inúteis, pois não existia como saber a nova velocidade de circulação da moeda.

[4] No final de 2016 era 14% e em 2014 chegou próximo de 11,75% (14%-11,74%=2,25%)

[4] http://www.portaldaindustria.com.br/agenciacni/noticias/2016/07/ociosidade-na-industria-em-2016-sera-a-maior-em-15-anos/

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