Um vírus que derrubou o castelo de cartas de Paul Virilio, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um vírus que derrubou o castelo de cartas de Paul Virilio

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A pandemia que paralisou o mundo, não causou nenhuma ruptura na comunicação virtual. Muito pelo contrário. ela se tornou a ferramenta primordial do trabalho e do consumo de centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta. Mais velocidade num mundo em que a principal experiência é a monotonia da vida cotidiana do confinamento. A outra opção é o contágio, o sofrimento num hospital e a possibilidade de morte.

Paul Virilio disse num de seus livros que “O desequilíbrio entre a informação direta de nossos sentidos e a informação mediatizada das tecnologias avançadas é hoje tão grande que terminamos por transferir nossos julgamentos de valor, nossa medida das coisas, do objeto para sua figura, da forma para sua imagem, assim como dos episódios de nossa história para sua tendência estatística, de onde o grande risco tecnológico de um delírio generalizado de interpretação.” (O Espaço Crítico, Paul Virilio, editora 34, Rio de Janeiro, 2a. edição, 1999, p. 40)

O delírio generalizado de interpretação nesse momento é justamento o oposto: aquele que preconiza a retomada da vida cotidiana como se a pandemia não existisse, como se a letalidade do COVID-19 fosse uma Fake News, como se o predomínio da vida conectada não fosse uma realidade necessária imposta temporariamente por uma doença mortal.

Virilio comparou o advento da velocidade das conexões que abolem as distâncias a um culto solar. A pandemia transformou a natureza do apego à vida urbana enraizada na dimensão geográfica num culto de morte. Sendo a única opção à disposição, o culto solar criticado pelo filósofo francês se tornou a única opção de celebração da vida.

O filósofo francês rejeitou uma vida em que “… cidade que desaparece então na heterogeneidade do regime de temporalidade das tecnologias avançadas.” (O Espaço Crítico, Paul Virilio, editora 34, Rio de Janeiro, 2a. edição, 1999, p. 11). Nesse momento, o desaparecimento da cidade é algo que se impõe. A outra opção é o desaparecimento no cemitério, algo que já ocorreu a 350 mil brasileiros (muitos dos quais adeptos da preservação da vida cotidiana normal em tempos anormais).

A vida confinada equiparou os homens livres aos prisioneiros. A realidade dessa identidade é difícil de ser aceita, exceto num caso: aquele em que a vida se torna mais importante do que o movimento despreocupado por espaços urbanos que foram transformados em armadilhas letais.

Desafiar a morte é virtude. Mas ninguém precisa ser virtuoso durante uma pandemia. A tarefa de cada qual é apenas sobreviver. Isso só é possível admitindo a hegemonia da ciência e o cultivo da paciência. Nesse sentido, a frenética movimentação “on line” para colonizar novos territórios virtuais (e eventualmente disputar rendas oriundas dos espaços monetizados na internet) pode ajudar.

A “Sedentarização terminal definitiva, consequência prática do advento de um terceiro e último horizonte de visibilidade indireta…” (O Espaço Crítico, Paul Virilio, editora 34, Rio de Janeiro, 2a. edição, 1999, p. 108) está salvando vidas. As sociedades humanas que enfrentaram epidemias igualmente mortais (a Peste Negra, a Gripe Espanhola, etc…) não sofreram menos.

Mas em compensação na Idade Média e no início do século XX os seres humanos não estavam em condições de se comunicar em tempo real com seus amigos e familiares em locais distantes. Tampouco podiam trabalhar em casa em atividades que exigiriam seu deslocamento pelas cidades-mortalhas.

É muito legal desfrutar o confinamento com acesso a internet. Mas se alguém cortasse nosso acesso à rede mundial de computadores o resultado não seria um acréscimo de felicidade e de humanização (como imaginava Paul Virilio) e sim um aprofundamento da solidão, do desespero e da depressão.

É evidente que a obra do filósofo francês envelheceu mal. Ele imaginou um mundo estático em que a velocidade da comunicação aboliria a geografia desumanizando os espaços urbanos. Em momento algum ele foi capaz de admitir a hipótese de que as novas tecnologias tinham um papel importante a cumprir se o mundo fosse uma vez mais submetido aos rigores de uma catástrofe sanitária.

Aplica-se aqui um princípio bem conhecido. Fazer uma história do futuro projetando a perpetuação do presente reforçando apenas os aspectos considerados maléficos é algo muito fácil. Mas quando o imprevisto intervém o “castelo de cartas” edificado sob conceitos rígidos supostamente bem amarrados se desfaz com facilidade expondo o filósofo ao ridículo.

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