Uma prova de vestibular em 1960, o trumpvírus, o bozovírus e o coronavírus, por Sebastião Nunes

Mas o que foi mesmo que aconteceu nesses 60 anos, que vão de um vestibular falhado ao aparecimento do coronavírus? Muita coisa, inclusive a invenção do neoliberalismo

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Eram trinta ou quarenta carinhas apertados numa sala, tentando obter os pontos necessários para entrar na Faculdade de Medicina da UFMG. Roendo a ponta do lápis, eu encarava a esfinge, que ameaçava me devorar:

“O que significa ecologia?”

Fodido e mal pago, era o que eu estava. Como uma pergunta tão estúpida podia ser feita numa prova de biologia? Quem é que teria condições de resolver um problema desse tamanho? Ecologia? E eu sabia lá o que era ecologia?

Levei 3,5 na prova. Insuficiente. Nem que eu tirasse 9, 9,5 ou 10 nas outras duas conseguiria passar. Com menos de 4 estava eliminado sem choro nem vela.

No quadro que me chumbava, comparecia, arrogante, petulante, de nariz em pé, também a nota de química: 2,8. Duas vezes bombardeado. Mas, como é que se podia, numa prova de vestibular, exigir a fórmula estrutural da nicotina?

Se eu fumava? Claro que fumava. Às custas do meu pai, mas fumava. Talvez meia dúzia de cigarros por dia – mero principiante. Mas fumava. E não tinha a mínima noção de como seria a fórmula estrutural da nicotina.

IGNORÂNCIA POUCA É BOBAGEM

Naquele tempo, ou você decorava nomes, fórmulas e palavrões esdrúxulos tipo “ecologia”, ou estava lascado.

Foi assim que eu me lasquei numa derrota por 3×0, uma vez que, na prova de física, eu mal conseguira – e nem sei como – chegar a estupendos 1,8 pontos em 10.

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Botei o rabo entre as pernas e voltei para a casa de dona Anita, proprietária de uma boa pensão para estudantes, capaz de servir bife de baleia quando baleia estava mais em conta do que boi. Pois é, naquele tempo carne de baleia estava na moda.

Cheguei, me espichei na cama, abri um jornal que comprara no caminho e, entre outras coisas, encontrei um anúncio para o vestibular de publicidade na UMA – Universidade Mineira de Arte, que eu nunca vira mais gorda. E foi assim que virei publicitário. E foi assim que fui ser prostituto na vida.

DÉCADAS ANTES DO INSTANTÂNEO

Se você está pensando no Google e rindo de mim, pode parar de rir. Naqueles tempos remotíssimos nada existia, além do famoso decoreba, que salvasse um ignorante de levar pau no vestibular.

Naqueles tempos, com exceção de geógrafos, biólogos e outros CDFs, ninguém tinha a mínima ideia do que fosse ecologia.

Nem preservação da natureza. Na maior inocência, a gente ia para o mato, pois havia mato naquele tempo, e lá, no meio do mato, metia chumbo em pombas, codornas, marrecos – bichos de pena –, e em socós, preás, soins, capivaras – bichos de pelo.

Felizes da vida, a gente chegava em casa, despejava a muamba dentro da pia, a empregada que se virasse para limpar aquela nojeira toda, naquele tempo sem direitos da mulher e quando feminismo era pouco mais que uma palavra elegante.

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A TRÍPLICE COROA DA DESGRAÇA

Mas o que foi mesmo que aconteceu nesses 60 anos, que vão do meu vestibular falhado em 1960 ao aparecimento do coronavírus, a praga mundial mais recente?

Dezenas de golpes de estado, centenas de guerras localizadas, milhares de leis estúpidas, milhões de assassinados pela polícia e pelas milícias, bilhões de mortos de fome pela tecnologia mais avançada que, avançando como nunca, só avançou para os que têm grana. Quanto ao restante da população sobrevivente (algo como 7 bilhões de indivíduos), foi transformado pela bruxa tecnológica em 6,6 bilhões de robôs.

Mas como desgraça pouca é bobagem, um pouco antes do coronavírus surgiu o trumpvírus, que se apossou da Casa Branca e anda fazendo o possível e o impossível para foder o mundo.

Depois, imitação subdesenvolvida e tropical do trumpvírus, foi parido o bozovírus, que se apoderou do Palácio do Planalto e anda fazendo o possível e o impossível para foder o Brasil.

Finalmente, como se não bastassem esses dois merdavírus, ainda apareceu o coitado do coronavírus, bichinho insignificante que, devagarinho, comendo pelas beiradas que nem mineiro comendo mingau, vai fodendo o mundo, rindo de nossas caras, do mesmo jeito que riem os vírus humanoides trumpvírus e bozovírus.

Resumindo: o mundo piorou muito desde que eu levei pau no vestibular, os financistas inventaram o neoliberalismo e longos 60 anos passaram voando entre os séculos XX e XXI.