Uma tirania bem sucedida com um tirano fracassado

    Desde que tomou posse, o governo Bolsonaro se caracterizou pela adoção de medidas que colocavam em risco as liberdades democráticas produzindo um inevitável confronto entre o Executivo e o Sistema de Justiça. No momento em que o Judiciário resolveu se defender, a tirania perdeu impeto, o tirano ficou desmoralizado e perdeu totalmente a iniciativa.

    Há duas semanas Bolsonaro é obrigado a se defender em diversas frentes. O Inquérito das Fake News, que pode ou não levar à anulação da vitória eleitoral do bolsonarismo, desmantelou o esquema lucrativo criado para sustentar as manifestações de rua contra o STF. Abusiva ou não, a prisão de Sara Winter cumpriu uma importante função pedagógica.

    A localização e prisão de Fabrício Queiroz aumentou o cerco contra Flávio Bolsonaro. O poder soberano do Sistema de Justiça não poderá mais ser neutralizado pela base policial e miliciana do governo. Sem o apoio do comando do Exército, Jair Bolsonaro não conseguirá dar um golpe de estado. Mas isso não quer dizer que os militares são defensores da democracia ou apoiam o restabelecimento da Constituição Cidadã.

    Bolsonaro sonha virar ditador. Mas ele não conseguiu compreender que um novo tipo de ditadura emergiu do golpe de 2016.

    Em 1964 a imprensa, os militares, os banqueiros, os juízes, os políticos conservadores e a Igreja se uniram para dar um violento golpe de estado com a finalidade de construir um regime político que seria comandado por generais e desfrutado pelos capitalistas. Em 2016, a imprensa, os banqueiros, os juízes e os políticos conservadores conseguiram dar um golpe parlamentar cujo objetivo principal era impor a adoção de medidas neoliberais rejeitadas eleitoralmente.

    Os principais objetivos do golpe que derrubou Dilma Rousseff começaram a ser implantados por Michel Temer (revogação dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários) e podem seguir adiante no Congresso Nacional com ou sem o apoio de Jair Bolsonaro. Prova disso foi o sucesso do senador Tasso “coca-cola” Jereissati em aprovar a privatização da água no momento de maior fragilidade do bolsonarismo e sem o protagonismo do tirano.

    A imprensa rejeita uma ditadura clássica violenta comandada por Bolsonaro, mas apoia alegremente a tirania do capitalismo neoliberal. Os banqueiros toleram os arroubos autoritários do “führer bananeiro”, mas eles podem perfeitamente se livrar dele assim que isso se tornar necessário. O Exército se comprometeu com a ditadura impessoal neoliberal (comandada pelo Congresso e garantida pelo STF) e não vai sujar as mãos de sangue para realizar os sonhos delirantes de um capitão tresloucado que criou três filhos mafiosos.

    Uma tirania que não precisa da pessoa do tirano. Um tirano que começou a perceber que pode ser descartado. Uma população aterrorizada pela pandemia incontrolável, empobrecida pela crise econômica e incapaz de reagir contra a privatização de tudo.

    Há alguns meses, aqui mesmo no GGN, afirmei que:

    “Recorrer ao Direito não é a solução. Ele é a fonte do problema. Os índios não precisaram do Direito para se perpetuar. Muito pelo contrário.

    Sempre que se expandiu pelo território de Pindorama, o Direito causou a destruição das comunidades indígenas. Nesse momento, suponho, os índios consideram o nosso Direito uma doença mais terrível e contagiosa do que o vírus da gripe, que os colonos também transportaram em suas caravelas no século XVI. Os índios só conseguiram sobreviver ao objeto de veneração/desprezo dos juízes porque cultivaram duas medicinas: a amorosidade pelos outros seres humanos e um profundo respeito pela natureza.”
    https://jornalggn.com.br/noticia/tirania-em-vertigem-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/

    Vitorioso desde que conseguiu se impor através da farsa do Impeachment, o neoliberalismo é a negação da amorosidade entre os seres humanos. No caso do Brasil, entretanto, esse sistema econômico já demonstrou que não está disposto a construir um regime político baseado exclusivamente no ódio bolsonarista. Os neoliberais odeiam a natureza,sem dúvida.Mas eles não conseguirão conviver com os prejuízos decorrentes da redução de investimentos externos por causa da destruição sistemática da floresta amazônia.

    Destroçada pela fragmentação, vítima de representações cíclicas da história (2016 não é uma repetição de 1964), com sua atenção dividida entre os Bolsonaro e o neoliberalismo e acreditando inutilmente que poderá obter êxito judicializando a política, a esquerda brasileira ainda não foi capaz de se apropriar das duas medicinas indígenas para ministrá-las ao país. O desmantelamento do sistema constitucional de 1988 somente poderá começar a detido quando “a amorosidade pelos outros seres humanos e um profundo respeito pela natureza” forem transformados em mantra pelas lideranças de esquerda.

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