USP adere cotas, mas racismo ainda é determinante na academia

Cintia Alves
Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.
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Foto: Agência Brasil

 
Por Ronilso Pacheco
 
No The Intercept
 
CONSELHO DA USP (Universidade de São Paulo) aceitou a instituição de cotas sociais e raciais para o seu concorridíssimo vestibular a partir de 2018 na última terça-feira(4). A repercussão da notícia, tanto nas redes sociais, quanto nos sites, dá a dimensão da importância de uma instituição como a USP se incluir entre as universidades públicas que reconhecem a necessidade de instrumentos que possibilitem o acesso e a reparação, via sistema de cotas raciais, das desigualdades que distanciam, sobretudo, jovens negros e negras, das mais importantes universidades do país.
 
Mas o dilema vai muito além disso. Em junho, o Coletivo Nuvem Negra, fundado em 2015 por alunos negros e negras da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio, divulgaram uma pesquisa, fruto da campanha “Quantos professores negras/os tem na PUC-Rio?”.
 
Dados de 2016 gerados pelo Sistema de Gerência Universitária (SGU) da universidade apontaram que apenas 4,3% do corpo docente da PUC-Rio é negro. Mais precisamente: 1,6% de professoras negras e 3,2% de professores negros. Ou seja: apenas 86 dos 1985 professores e professoras da prestigiada universidade da Zona Sul do Rio de Janeiro., A pesquisa também diz – e aqui é extremamente importante observar – que, se for mantido o ritmo dos últimos 10 anos, o número de professores negros na universidade  só irá igualar o de brancos em 2136. Estes 120 anos de intervalo são quase os 128 anos de intervalo da assinatura da Lei Áurea em 1888 até aqui. É um intervalo emblemático, porque, mais de um século depois, a população negra no Brasil não tem sequer os mesmos patamares na medição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU), que a população branca. 
 
Nenhuma instituição representa tanto a ideia de “produção de saber” do que a universidade. Por isso é tão significativo que o recorte racial dos professores das instituições brasileiras receba a devida atenção.
 
A USP, que só agora se abre às cotas sociais e raciais como possibilidade de acesso, é a mesma que, em pesquisa publicada em 2005,  no livro de José Jorge de Carvalho, tinha apenas 0,2% de professores negros no seu quadro docente, em 2005. Dos mais de 4,5 mil professores que possuía então, apenas cerca de dez professores eram negros. Isso numa pesquisa que identificava os professores negros como apenas 1% de todo o corpo docente das universidades brasileiras Mesmo a UnB (Universidade de Brasília), pioneira na adesão das cotas raciais, possuía, em 2016, apenas 1,77% de professores negros no seu quadro docente.
 
Se a universidade representa o lugar da produção de saber, não é razoável desconsiderar que a condição social e racial influencie no saber produzido?
 
Há de se perguntar, por exemplo, pela ausência de pesquisadores e intelectuais negros nas bibliografias dos cursos de graduação do país. Lélia González, Guerreiro Ramos, Abdias Nascimento, Muniz Sodré, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Luiz Gama, Conceição Evaristo, Nei Lopes, Joel Rufino dos Santos são muitas as referências  para as diversas áreas do pensamento brasileiro que são absolutamente invisibilizados e sua contribuição sempre posta à margem do “cânon” acadêmico.
 
E o que dizer da ausência da obra de Guerreiro Ramos nos estudos de relações raciais e sobre a condição do negro no Brasil? Em que universidade ele divide o lugar obrigatório de referência ao lado de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda? Ao que parece, talvez apenas Milton Santos fura parte (e apenas parte) desse bloqueio, dado sua presença referencial na bibliografia dos cursos de Geografia.
 
Na própria PUC-Rio, a antropóloga Lélia González tem a sua trajetória acadêmica, construída ali nesta mesma universidade, completamente esquecida. Lélia chegou a ser diretora do departamento de Ciências Sociais na PUC-Rio, mas sua produção é apagada da bibliografia da graduação na própria universidade, ao passo que Roberto DaMatta, também antropólogo, também professor na mesma instituição, habita o Olimpo acadêmico e desfruta de ser literatura obrigatória na bibliografia não só da PUC-Rio, mas de qualquer departamento de antropologia no país.
 
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Cintia Alves

Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.

3 Comentários

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  1. Só na academia?

    A professora de sociologia da Fespsp, Roseli Coelho, ouviu na Jovem Pan, no dia seguinte em que as cotas na USP foram aprovadas, e publicou no Facebook:

    – qualquer coisa Vila: não tem nada disso de culpa histórica. Eu não me sinto culpado de nada. Eu não tenho escravos.

    – João Paulo qualquer coisa: universidade não é abrigo social, é excelência.

    Não falha uma, todo fascio-reaça é racista.

  2. sobre a adesão

    O Sindicato dos Trabalhadores da USP vão nesse tom, vitória.

    Aquela frase “não existe sopa grátis” é factível nesta situação e digo alguns motivos, ou, ao menos, desconfianças.

    Em uma universidade que alega estar sem dinheiro, criação de cursos e ampliação de hospitais vão precisar de contrapartidas.

    E o reitor Zago foi aquele que mandou a polícia baixar o cacete em estudante, com perseguição e tudo, com apoio do Conselho Universitário, ainda este ano. Funcionário foi mantido na reitoria trancado e nem saiu para almoçar no dia.  Notícias? Nenhuma! Nenhuma! Ele está em fim de mandato, precisa lavar de algum modo a sujeira feita até agora.

    A cota veio dentro de um pacote, incluindo a criação de curso de medicina em Bauru, ampliação do Centrinho (pra quem não sabe, o desejo do reitor sempre foi desvinculá-lo da Universidade). Quer dizer, pelo menos duas situações descritas não faziam parte do receituário da reitoria e de seu conselho universitário.

    Como assim, mudaram de ideia?

    Pra quem não sabe como a coisa funciona, a votação não é aquilo que aparece só em plenário, mas aquilo que está em bastidores, algo semelhante ao Aécio pedindo para o Gilmar para falar com o Flexa.

    Parabéns, é este o impacto, esta repercussão que o reitor zago, o seu conselho universitário, sua reitoria-prisão (tranquem todo mundo lá e joguem a chave fora) a polícia de choque querem. Reproduzam.

    Se não tivesse um bom pedaço do conselho universitário envolvido com fundações privadas que prestam contas de modo demorado (o Ministério Público nem o Tribunal de Contas do Estado estão ligando pra isso), demorando 3, 4 anos muitas vezes (quanto mais antigo, mais esquecido), resoluções de cursos pagos que tiram a parte que cabe à Universidade alegando que são “despesas módicas”… eu acreditaria em tudo isso.

    As situações não batem. E deveriam desconfiar, e muito.

    Mas não. Trata-se de uma vitória.

    Não foi uma vitória. É a política, estúpido.

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