Variação climática é desafio ao seguro rural

O seguro rural no Brasil tem crescido nos últimos anos, mesmo que ainda corresponda a uma pequena parcela dos empreendimentos no campo. No caminho da ampliação e adequação dos contratos, está a falta de informações sobre os cenários produtivos e as variações climáticas.

De acordo com estudo realizado pela Swiss Re, intitulado “Apostando a Fazenda? Riscos Agrícolas no Brasil” (Betting the Farm, em inglês), os agricultores apontaram as instabilidades climáticas e a oscilação de preços como riscos mais freqüentes à atividade no Brasil. No Brasil, a penetração de seguros no setor está abaixo dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo o documento.

A principal ameaça às lavouras, apontadas pela pesquisa da Swiss Re, são fatores da natureza, seguido por alta nos preços dos insumos e volatilidade dos valores dos produtos no mercado. De acDe acordo com o levantamento, o potencial médio de perda varia de 20% a 40%, considerando todos os riscos apontados pelos agricultores no relatório.

Apesar da emergência nos últimos anos, menos de 10% do PIB agrícola nacional possuem seguro, de acordo com o Diretor de Negócios Financeiros e Seguros Agrícola da Mapfre, Gláucio Toyama. O avanço, embora modesto, está ocorrendo principalmente pela subvenção ao prêmio, feita pelo governo federal que paga de 30% a 70% do valor do seguro. Entretanto, a medida é refém do orçamento da União.

Para ter acesso à subvenção federal e adquirir seguros mais baratos, o empreendedor deve cumprir algumas exigências, como seguir o zoneamento agrícola de risco climático, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Receber o auxílio para a contratação de seguro do Mapa não impede que o produtor participe de subvenções estaduais. O zoneamento ajuda a reduzir riscos, indicando as melhores épocas de plantio e o risco climático de cada região.

Clima

A preocupação com o clima é constante na área de seguro rural, principalmente pela dificuldade de prever, com exatidão, a intensidade e localização dos fenômenos naturais, bem como a estimativa dos prejuízos financeiros que trazem a reboque, explica o superintendente de Agronegócios da Allianz, Luiz Carlos Meleiro. Ele avalia que, embora o Brasil não tenha contabilizado historicamente fenômenos mais devastadores, como furacões, terremotos e maremotos, o país já sente o efeito das alterações climáticas.

Um exemplo é a especificidade de cada região do país, já que no Sul, segundo Meleiro, os agricultores têm problemas com a seca, enquanto no Nordeste, é verificado o excesso de chuva. “O desafio não é só do mercado de seguro agrícola, mas da agricultura de forma geral, é preciso entender esses efeitos e aprimorar os dados climáticos de forma a ajudar os produtores”, avalia.

De acordo com o diretor da Associação Brasileira de Agrobusiness (Abag), Luiz Antonio Pinazza, ainda há uma grande dúvida em decorrência do que realmente irá acontecer com as mudanças climáticas. Ele explica que diferentes relatórios apontam impactos distintos, o que faz com que o tema seja muito polêmico.

Estudo de risco

Para Pinazza são necessários mais dados estatísticos sobre as perdas e impactos nas lavouras nos últimos anos, o que deverá contribuir com a precificação do seguro. Esses dados devem complementar o zoneamento e envolvem o levantamento de informações sobre a capacitação tecnológica do produtor, culturas, tipo de solo, etc. Os EUA estão mais adiantados na questão do seguro rural, pois possuem dados de 90 anos. Hoje, no Brasil, não existe uma política de seguro semelhante à americana.

De acordo com o Meleiro, as empresas oferecem soluções multiriscos nas áreas de custeio e produtividade. As coberturas estão relacionadas a eventos climáticos, fator que pode levar o seguro rural a ser catastrófico, já que entre períodos médios de cinco a seis anos, acontecem eventos climáticos de grande intensidade.

No entanto, na avaliação do analista da área de Informática e Agropecuária da Embrapa, Eduardo Assad, esses eventos climáticos estão acontecendo com menor espaçamento de tempo, o que ainda não pode ser atribuído ao aquecimento global de forma definitiva, já que existem demais fatores que podem provocar alterações similares.

De acordo com levantamento realizado pela Embrapa e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a mudança no sistema climático pode pôr em risco a segurança alimentar já a partir de 2020. O trabalho aponta que neste ano as quebras nas safras, resultantes do clima, podem provocar perdas de R$ 7,2 bilhões e o valor pode dobrar para R$ 14 bilhões em 2070.

Apesar dos impasses, o seguro rural foi a área que mais cresceu no mercado brasileiro de seguro no ano passado, com uma expansão de prêmios de 72,14%, saindo de R$ 452,7 milhões em 2007 para R$ 779,3 milhões, de acordo com dados da Allianz Seguradora. Por outro lado, avalia Pinazza, em todo o mundo o valor segurado não remunera o investimento feito na lavoura em caso de sinistro. De acordo com Toyama, essa é uma queixa comum dos agricultores, pois o valor segurado fica abaixo do custo de desembolso (em torno de 80% do investimento na lavoura) e longe da expectativa de faturamento.

Crescimento


De acordo com o estudo da Swiss Re, alicerçado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano passado o produto interno bruto (PIB) agrícola do país totalizou R$ 163,5 bilhões, montante correspondente a 7% da economia brasileira. Somando a expressiva extensão territorial com a produção agrícola do país, favorecida por um clima subtropical, as previsões do estudo dão conta de um crescimento da atividade nos próximos anos.

A expansão é indissociável do financiamento, conforme explica o diretor da Abag. Alguns agentes financeiros exigem o seguro para conceder crédito, de forma a garantir que possíveis perdas na safra não atinjam a capacidade de pagamento do financiado. Essa relação é mais freqüente com os agricultores de menor porte, pois são os que buscam mais empréstimos para bancar suas atividades.

A Mapfre trabalha com produtos mais e menos expostos ao risco climático, e nos próximos anos deverá apresentar planos mais aderentes às necessidades dos agricultores, de acordo com o perfil de cada empreendedor. Na avaliação de Toyama, as modelagens devem estar preparadas para a mudança nos eventos climáticos, o que considera já ser uma realidade.

Toyama também considera que uma das formas para o setor considera para que o setor de seguro possa reduzir o seu risco em decorrência das alterações climáticas é conhecer melhor o produtor, com estatísticas sobre cada produtor. O trabalho, que deve ficar à cargo do governo, pode não ser tarefa fácil devido às peculiaridades fundiárias de algumas áreas do país, o que demandará um esforço para, por exemplo, contabilizar e verificar dados das propriedades registrados em cartório com dados de satélite.

Enquanto as ações não chegam, um dos principais instrumentos que prestam auxílio ao gerenciamento de riscos ao setor é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, feito pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O levantamento, refeito anualmente, inclui nas análises as séries do ano anterior, para efeito de comparação. Na opinião de Assad, esse é um dos poucos trabalhos de políticas públicas que incorporam a mudança climática no país.

Culturas

Para evitar o impacto expressivo para agricultores, governo, seguradoras e população, são necessárias medidas imediatas de adaptação das culturas no território nacional, que devem ser acompanhadas por ações de redução de emissão de gases poluentes e mitigação de impactos ambientais, na avaliação de Assad.

O trabalho da Embrapa e da Unicamp considerou o impacto das alterações climáticas nas culturas do algodão, arroz, café, cana de açúcar, feijão, girassol, mandioca, milho e soja. Com exceção da cana de açúcar e da mandioca, todas as demais culturas terão a área apropriada para o cultivo significativamente reduzidas. Os dados foram embasados na continuidade das alterações climáticas contadas até o momento.

No caso do café, por exemplo, a cultura poderá migrar das tradicionais áreas produtoras de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo para os estados da Região Sul do país. Por outro lado, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, deverão também apresentar redução da área agricultável em 2070.

Estatísticas

Assad considera que um banco de dados envolvendo as informações dos produtores – assim como é feito no seguro de automóveis, por exemplo -, somado às informações disponibilizadas pelo IBGE e estudos climáticos, podem contribuir para o estabelecimento de preços dos seguros, aumentado a segurança tanto do agricultor quanto da empresa seguradora.

O analista da Embrapa concorda que há uma grande dúvida sobre o aquecimento global, mas não descarta que a temperatura já está aumentando. Com base nos dados colhidos nos últimos 25 anos, foi verificado que em Goiânia, por exemplo, ocorreu um aumento da temperatura em 1ºC. O ponto crítico de aumento da temperatura seria da ordem de 2ºC, a partir daí, segundo ele, amenizar os impactos pode se tornar uma tarefa difícil.

Pesquisa

O levantamento da Swis Re teve como objetivo avaliar a percepção de risco dos produtores e saber como eles lidam com esses riscos. Foram ouvidos 30 cooperativas, 220 fazendas de grande porte e 20 fazendas corporativas, muitas das quais localizadas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

Acesse aqui o estudo da Swiss Re

Clique aqui para ver o site com os impactos em cada cultura.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome