Vídeo: Como o PT pode recuperar o voto evangélico? Com Gleisi Hoffmann

O eleitorado conservador e religioso que hoje está com Bolsonaro já foi do PT. Debandaram a partir do processo de desconstrução do partido que atingiu o auge com a corrupção colada em Lula. Assista

Paulo Pinto/AGPT

Jornal GGN – Como o PT pretende recuperar o voto do brasileiro religioso e conservador que debandou para o bolsonarismo na última eleição presidencial? Em entrevista exclusiva às jornalista do GGN, a deputada federal e presidente nacional da legenda, Gleisi Hoffmann, tocou no assunto a pedido dos inscritos no canal no Youtube.

Ela disse que é um “desafio” para o PT recuperar esse apoio, que um dia já foi de Lula e de Dilma Rousseff.

No diagnóstico de Gleisi, esse nicho do eleitorado começou a se afastar do PT porque o PSDB, sem projeto para atrair as massas populares para seu lado, iniciou uma campanha de desconstrução que, primeiro, começou a pautar questões relativas aos “valores morais” – como casamento gay, descriminalização do aborto e outros temas.

“O auge da campanha conservadora da direita liberal foi exatamente fazer com que o discurso da corrupção colasse na esquerda”, disse Gleisi, se referindo à Lava Jato e a pancada sobre a imagem de Lula.

“A gente está recuperando [esse apoio]. Não é simples, não é fácil. Precisamos contar o que aconteceu [com o PT e Lula nos anos de Lava Jato], desconstruir a mentira, ganhar a confiança. É trabalhoso, mas estamos fazendo”, disse a dirigente.

Ainda segundo Gleisi, reatar com a ala religiosa, seja ela católica, evangélica ou de outra vertente, “não pode se confundir com usar a religião para fazer política, que é o que Bolsonaro faz. Fala em nome de Deus o tempo inteiro, Deus virou cabo eleitoral dele, porque ele é o messias. Isso é um absurdo.”

GGN: Depois do uso da redes sociais e da questão da juventude e renovação de quadros, um terceiro tópico muito comentado pelos nossos leitores é a relação do PT com as lideranças religiosas. Alguns leitores perguntaram se o PT está ciente de que não ganhará a eleição de 22 se não conquistar o votos dos evangélicos e se não fizer um trabalho de conscientização com os trabalhadores que frequentam essas igrejas e são conservadores.

Gleisi Hoffmann: Pois é. Esses eleitores já foram do PT e votaram em Lula em 2002, 2006, votaram em Dilma em 2010. Eram eleitores votaram em nós porque fazem parte da base popular da sociedade. Viram em nossos programas e nossos governos uma grande oportunidade para suas vidas. Então o desafio é como a gente recupera isso, esse diálogo com todos esses setores, sem a gente desconsiderar o que foi feito. Porque o que aconteceu?

A direita, não falo nem a extrema-direita, lá trás, o PSDB disputando conosco, eles não tinham o argumento material do voto. O que quero dizer com isso? O argumento sobre a vida das pessoas. O PSDB não tinha o que apresentar, porque a vida deles foi fazer ajuste, cortar o orçamento, reduzir as políticas públicas, tirar direitos. Então quando ia para uma campanha eleitoral, eles perdiam no argumento, não tinha como, eles não tinham poder de convencimento do povo. Por isso ganhamos quatro vezes as eleições. É porque a gente tinha esse argumento e, mais do que isso, a prática no governo de mostrar que era possível incluir o povo no orçamento.

O PSDB nunca teve a fome como objeto de política pública. Não está preocupado com a escola pública. Eles têm uma visão liberal: o Estado tem que ser mínimo e o mercado tocar, e o povo que se vire. Então eles perderam sistematicamente para nós. Onde eles começam a nos atacar? Com valores morais. E começam a inventar.

Que o PT era abortista, que o PT queria casamento gay, que o PT queria não sei o quê, que o PT iria dividir a casa das pessoas. E onde eles conseguiram tirar a cabeça para fora? Quando conseguiram pegar a narrativa da corrupção e colar no PT. Começou a Lava Jato, a perseguição e uma ofensiva por aí.

O auge da campanha conservadora da direita liberal foi exatamente fazer com que o discurso da corrupção colasse na esquerda. ‘O Lula é corrupto, chefe de quadrilha’… Vocês sabem o que aconteceu.

(…)

Aí eles não conseguiram segurar esse discurso porque eles tinham muito fio desencapado. E aí o que surgiu foi abrirem uma porta para a extrema-direita. Abriram a porta para o fascismo. Fascismo sobrevive nessa questão do conservadorismo exacerbado, combate à corrupção, limpar o Estado, contra a política.

Eles abriram a porta para a extrema-direita entrar. Ela entrou e levou uma base que eles já estavam preparando há muito contra o PT. Tinha uma insatisfação, claro, na sociedade. Nós estávamos no meio de uma crise econômica. Mas a forma como a guerra foi feita contra nós, sistematicamente, todos os dias, de 2013 para cá, foi algo muito pesado.

Nós não tínhamos o mesmo espaço e jeito de se defender. A gente demorou muito para perceber a forma de desconstrução que estava sendo. Então recuperar com esse povo, seja católico, evangélico, qualquer um que professe sua fé religiosa, as religiões de terreiro, todos têm direito a ter manifestação política. Isso não pode se confundir com usar a religião para fazer política, que é o que Bolsonaro faz. Fala em nome de Deus o tempo inteiro, Deus virou cabo eleitoral dele, porque ele é o messias. Isso é um absurdo.

Nós temos um núcleo de evangélicos no PT, está organizado em mais de 18 estados. Essa semana [passada] fiz uma live com o pastor Daniel, da Assembleia de Deus. Foi interessante. O tema era ‘os evangélicos e o PT’. (…) Foi uma conversa legal.

Vamos ter um encontro do núcleo no final de agosto. Temos várias candidaturas evangélicas espalhadas pelo Brasil. Hoje temos duas deputadas federais, a Benedita do Rio e a Regiane Dias, do Piauí, que são evangélicas. E temos várias candidaturas. No Paraná tem várias. E na Igreja Católica também.

Tem uma ala conservadora da Igreja Católica e tem uma ala mais progressista, ligada às comunidades de base, foi uma das fontes onde o PT bebeu e se formou. A gente está recuperando. Não é simples, não é fácil. Precisamos contar o que aconteceu, desconstruir a mentira, ganhar a confiança. É trabalhoso, mas estamos fazendo.

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