Visão extra-economicista ajuda na conservação

As três formas de valorar a Natureza

A complexidade dos ecossistemas traz consigo espécies de animais e plantas que sempre auxiliaram a sociedade humana moderna na área de alimentos, remédios e produtos industriais. Portanto, o valor de mercado da biodiversidade, ou “cammodity value”, já é reconhecido. Agora, especialista defende a conscientização de ‘novos’ valores da diversidade biológica: valor de amenidade (“amenity value”) e valor moral (“moral value”).

Membro do Comitê Científico do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), do Ministério de Ciências e Tecnologia (MCT), José Sabino, acredita que a exploração desses conceitos, assim como da proposta de uso sustentável da natureza, deve ser fortalecida com bases científicas para atrair e mobilizar a sociedade na preservação de biomas.

As atividades agrária, pecuarista, pesqueira, de medicina fitoterápica, ou mesmo quando os componentes naturais servem para elaboração de modelos sintéticos para indústria farmacêutica e cosmética, são exemplos de valor de mercado que damos as espécies e seus derivados.

“Perto de 2/3 das moléculas usadas na indústria são originárias de moléculas isoladas da natureza”, explica Sabino. “O processo de separação de um princípio ativo da natureza é extremamente longo e sujeito a erros”, completa. Primeiro é preciso isolar a molécula para depois chegar a um medicamente. A estimativa é que de cada 10 mil moléculas isoladas, uma entre no mercado. Portanto, as pesquisas demandam altos investimentos em ciência e tecnologia.

O biólogo destaca, ainda, a importância “bioinspiradora” da natureza. A exemplo da engenharia aeronáutica. Aviões militares preparados para serem abastecidos em vôo foram desenvolvidos a partir da observação das borboletas – a ligação entre as mangueiras das aeronaves simulam a cópula desses animais.

Amenidade

Por outro lado, uma espécie tem valor de amenidade quando o simples fato de existir proporciona alguma experiência não-material na vida humana. Dentre os exemplos dessa condição estão o ecoturismo, a pesca, observação de aves ou fotografia de natureza – todas essas atividades trazem, além de um valor de mercado, estímulos emocionais e estéticos.

“Na semana subseqüente aos atentados de 11 de Setembro, o governo norte-americano percebeu que a visitação da população aos locais de floresta e parques praticamente dobrou. Exatamente na semana subsequente, sem nenhuma forma de incentivo e campanha publicitária para isso”, conta Sabino. Logo, o “amenity value”, estaria ligado ao poder restaurador da biodiversidade.

Esse valor também se refere ao termo “Biofilia”, que significa a necessidade do homem de se aproximar da Natureza. Segundo o pesquisador a palavra foi criada por um dos maiores especialistas em biodiversidade do muno, Edward Wilson.

Todos os seres humanos, em algum instante da vida, já sentiram necessidade de procurar por ambientes selvagens, terras pouco maculadas pela ocupação humana, mesmo que inconscientemente. Trata-se da tentativa de resgatar a natureza, sob uma perspectiva evolutiva. O resultado desse encontro é um sentimento de paz interior, geralmente perdida no cotidiano.

Moral

O valor moral, ou “moral value”, segundo Sabino, é o conceito mais difícil de defender. Pois está sujeito a subjetividade do indivíduo e se altera conforme o conjunto de valores de cada grupo social. Toda espécie tem valor pelo simples fato de existir, independente do homem atribuir qualquer tipo de valor.

O pesquisador afirma que quanto maior a compreensão que tivermos dos organismos e sua natureza, maior será a valorização desses e da nossa própria existência.

O despertar do valor moral junto ao valor de amenidade poderá fortalecer a conservação da biodiversidade. O estimulo a essas (nem tão) novas concepções deverá ocorrer com auxilio do poder público (programas de educação e popularização do patrimônio natural brasileiro), universidades, organizações não-governamentais, iniciativa privada e meios de comunicação.

O cientista lembra que a agricultura e pecuária são as áreas que mais tendem a lucrar com a proteção da biodiversidade. “Isso porque a diversidade genética fornece alternativas às culturas e rebanhos, aumenta o rendimento e oferece possibilidade de adaptação a novas variações ambientais”, destaca.

O uso de mais de uma espécie à produção de uma cultura, isso é, da hibridação, ajudou os Estados Unidos a melhorar a produtividade e aumentar em mais de 1 bilhão de dólares os recursos provenientes da agricultura, entre os anos 1930 e 1980. A hibridação também foi importante na produção canavieira do Brasil, voltada para a troca de combustíveis, desde os anos 1960, quando criado o Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool).

Potencial biológico brasileiro

O território brasileiro abriga cerca de 15% das espécies conhecidas na Terra. Conhecidas, porque se estima que o homem tenha estudado apenas 6% do total de seres vivos existentes no planeta. Segundo dados publicados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o país possui mais de 50 mil espécies de plantas vasculares, número que o coloca como o mais rico em plantas do mundo e detentor de 25% da biodiversidade vegetal do planeta.

O Brasil é o primeiro entre as 17 nações detentoras de Megadiversidade Biológica. Além de ter grande parte da maior floresta tropical da Terra, a Amazônia, abriga os biomas Mata Atlântica e Cerrado, tidos como os mais importantes para a manutenção da diversidade. Sabino explica que o país também figura com três Grandes Regiões Selvagens (GRS) – Amazônia, Pantanal e Caatinga. O conceito de GRS contempla áreas conservadas, com ambientes intactos, alta biodiversidade e baixa densidade populacional.

O pesquisador alerta para o atual estado de pressão ambiental no Brasil, que coloca em risco de extinção mais de 170 espécies de aves e mamíferos. Estima-se que restam 8% da Mata Atlântica original, 70% do Cerrado tem algum tipo de ocupação humana e 15% da Floresta Amazônica já foram perdidos.

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