Você não é burro por acreditar em fake news, a ciência explica

Num experimento realizado em 1977, pesquisadores concluíram que informações repetidas são consideradas mais confiáveis, mesmo quando não são verdadeiras

 

Rápido: não pense em um elefante. Agora, o que você vê? O volume, o cinza, a tromba de um elefante. Você não pode impedir que a imagem – o frame – seja acessada por sua mente inconsciente. (George Lakoff)

 

O psicológo William James, num artigo publicado em 1907, afirma que nós não usamos todo o nosso cérebro o tempo todo [1]. Isso quer dizer que o cerebro muda os processos a serem executados de acordo com a situação em que estamos inseridos. Essa informação foi usada anos depois no livro Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, afirmando que usamos apenas 10% do nosso cérebro. Acontece que a repetição dessa afirmação em campanhas publicitárias e livros de auto-ajuda acabou fazendo com ela se espalhasse cada vez mais, mesmo sendo falsa.

Num experimento realizado em 1977 [2], pesquisadores concluíram que informações repetidas são consideradas mais confiáveis, mesmo quando não são verdadeiras. Isso porque a repetição aumenta a familiaridade – e nós tendemos a confiar em afirmações que confirmam o que já sabemos [3]. Mesmo com a apresentação de fontes que provam ou refutam a contradição, o que é visto primeiro é o que fica [4].

Apesar de sermos racionais, somos guiados majoritariamente pelo pensamento emocional. Confiar no que é familiar faz parte desse processo. Isso não é ruim. Economiza tempo e nos ajuda a sobreviver em situações de risco. Mas não podemos confiar totalmente em nosso inconsciente quando acessamos a internet. Se você vê uma informação falsa, é pouco provável que vá rejeitá-la quando for confrontado com a verdade.

Confirmar informações não é fácil. De acordo com o Pew Research Center, em levantamento realizado nos Estados Unidos (2017), 62% das pessoas repassam informações encontradas em mecanismos de busca (como o Google) [5]. Acontece que esse tipo de mecanismo trabalha em cima de palavras-chave, não da verdade. Se você digitar “vitamina C cura coronavírus”, o mecanismo vai te mostrar páginas com as palavras-chave que você deu.

O trabalho de checagem de informações acaba se tornando muito mais complexo e cansativo, mas ainda é necessário para a manutenção da nossa saúde física e mental.

 

[1] William James. The Energies of Men. Science, 1907.

[2] L. Hasher, D. Goldstein, T. Toppino. Frequency and the conference of referencial validity. Journal of Verbal Learning and Verbal Behavior, 1977.

[3] I. M. Begg, A. Anas, S. Farinacci. Dissociation of processes in belief: Source recollection, statement familiarity, and the illusion of truth. Journal of Experimental Psychology: General, 1992.

[4] F. T. Bacon. Credibility of Repeated Statements: Memory for Trivia. Journal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory, 1979.

[5] Pew Research Center. Key trends in social and digital news media. pewresearch.org, 2017.

 

Texto publicado originalmente no Bancarrota Mental

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