Você sabe o que é o “quenelle”?

O jogador francês de futebol, Nicolas Anelka, foi protagonista de uma polêmica no fim do ano passado (mais precisamente em 28 de dezembro de 2013), depois de marcar o gol de empate em 3 x 3 pela sua equipe, o clube inglês West Bromwich Albion, na partida contra o West Ham, válida pelo campeonato inglês. O motivo disso seria que Anelka comemorou o gol fazendo um gesto controverso, originado em seu país, a França, e conhecido pelo nome de “quenelle”, que consiste em apontar um dos braços para baixo, em riste, e colocar a outra mão, de forma cruzada, no ombro do braço estendido.

O gesto pode ter várias acepções, dependendo do contexto, mas a mais polêmica delas é a conotação antissemita (seria uma reversão da famosa saudação nazista). Anelka fez o “quenelle” em homenagem ao comediante francês (filho de francesa como camaronês), Dieudonné M’bala M’bala, que é amigo do jogador. M’bala, que popularizou o “quenelle”, fez fama na França a partir de críticas ao sionismo e chegou a estreitar laços como Jean Marie Le Pen, que é inclusive padrinho de um de seus filhos.

Alguns franceses conhecidos já fizeram o gesto em aparições públicas ou foram fotografados perto de pessoas que fizeram o gesto, atitude dirigida a um certo perfil considerado representante do establishment , a exemplo de Alain Soral (ensaísta e cineasta franco-suíço, fez o gesto), Bernard-Henri Lévy (filósofo francês, foi clicado com pessoas ao redor fazendo o gesto, indicação de que ele seria do establishment), Pierre Bergé (industrial, co-fundador da marca Yves Saint Laurent e parceiro do famoso estilista, tanto pessoal quanto de negócios, foi clicado com pessoas ao redor fazendo o gesto), Manuel Valls (nascido em Barcelona, mas naturalizado francês, membro do partido socialista francês, parlamentar, ex-prefeito de Évry, um dos subúrbios de Paris, e atual Ministro do Interior da França; Valls não chegou propriamente a fazer, mas foi fotografado ao lado de jovens que fizeram o “quenelle”) e Robert Faurisson, um conhecido e não menos polêmico historiador negador do Holocausto, que já fez o gesto e chegou até a ganhar um prêmio criado para pessoas que lutam contram o establishment e que expressam durante o ano os melhores pontos de vista neste sentido, ao meno na ótica de Dieudonné, chamado “Quenelle de Ouro” (ele ganhou um na edição de 2010 do prêmio), numa cerimônia que parodia o Oscar. A Ministra de Esportes e Juventude da França, Valérie Fourneyron, classificou a atitude de Anelka como “nojenta”.

Leia também:  Jamil Chade: Apenas ditadores como Saddam Hussein ou Gaddafi nomearam parentes na diplomacia

O quenelle era mais conhecido na França. Depois que o Anelka fez o gesto, tornou-se a terceira palavra mais procurada no Google, de acordo com o artigo publicado do Haaretz (jornal israelense), de autoria de Allison Kaplan Sommer (ver o artigo aqui: http://www.haaretz.com/blogs/routine-emergencies/1.566422). Anelka chegou a citar, em sua defesa, uma foto do presidente dos EUA, Barack Obama, ao lado do rapper e produtor, Jay-Z, e sua esposa, Beyoncé, em que eles apareciam fazendo um gesto similar. Mas a alegação de defesa foi considerada muito fraca, justamente porque o “quenelle” só é conhecido mais na França. Nos EUA, quase ninguém sabia de sua existência. A foto de Barack Obama, Jay-Z e Beyoncé foi logo associada a uma música de Jay-Z, que fez muito sucesso, chamada “Dirt off Your Shoulder”. Matéria do The Blaze (site conservador-libertário americano de notícias, pertencente ao grupo homônimo, fundado pelo, no mínimo, polêmico Glenn Beck)) sobre o ocorrido com Anelka e a polêmica toda envolvendo entidades judaicas que costumam denunciar o “antissemitismo” na primeira oportunidade: http://www.theblaze.com/stories/2013/12/30/french-soccer-player-gives-nazi-like-salute-after-goal-part-of-his-defense-obama-did-it-too-see-the-pictures/

A controvérsia é justificável. Poucos países no mundo tem uma história de antissemitismo tão forte e marcante quanto a França. O antissemitismo francês é parâmetro. Não chegou a criar um genocídio como o perpetrado pelos nazistas, mas os judeus nunca foram bem tratados na França. De qualquer forma, a gritaria das entidades judaicas é típica e faz parte do uso político do Holocausto como forma de apoiar Israel. O gesto pode até não ter a primordial intenção antissemita que muitos afirmam existir. Dieudonné M’bala M’bala nega que ele mesmo seja antissemita, definindo-se como antissionista. Ele considera o gesto “anti-establishment”. É um gesto que foi criado e pode ter a conotação que quiserem emprestar-lhe. Alguns judeus enxergam no gesto uma menção ao “Hail Hitler!” dos nazistas, só que em posição invertida (ao invés do braço em riste apontar para cima, aponta para baixo, enquanto que a outra mão toca o ombro contrário). É uma interpretação, reforçada pelo fato de que na França, assim como no Brasil, gestos ou símbolos nazistas serem criminalizados. Seria, portanto, uma forma dos antissemitas se verem livres de problemas com a lei.

O que piora a situação é que Dieudonné já foi processado (e condenado) inúmeras vezes por incitação ao ódio racial. Recentemente foi aberta outra investigação contra ele porque teria feito um comentário sobre um jornalista de origem judaica em que ele citou câmaras de gás. Ele teria dito “Quando eu ouço falar de Patrick Cohen [o jornalista], eu digo a mim mesmo: você vê, as câmaras de gás…isso é uma vergonha”. A afirmação foi interpretada como um desejo de que o jornalista, um veterano, tivesse o mesmo destino dos judeus vítimas do Holocausto. Como se não bastasse tudo isso, ainda criou a palavra “shoananas”, uma mistura de “shoa”, palavra hebraica para “Holocausto”, com a palavra francesa para “abacaxi”, o que significaria uma desconsideração do Holocausto como algo real, considerado um mito, uma farsa judaica. Mas eu acredito na visão de um especialista francês no assunto, Jean-Yves Camus, de que pessoas como Dieudonné M’bala M’bala e alguns dos que fazem o “quenelle” não sejam exatamente antissemitas, aos moldes nazistas, mas sim pertencentes aquele grupo de pessoas que acreditam em teorias da conspiração envolvendo judeus, que existe uma ordem global mundial liderada por Washington e Tel Aviv e coisas do tipo. De todo modo, não creio que o “quenelle” feito por Anelka seja tão importante assim, ao ponto de quererem bani-lo do futebol (sim, ele corre o risco de ser banido do futebol por ter feito o “quenelle”).

A jornalista do Haaretz, Allison Kaplan Sommer, sugeriu qual a intenção dele com o “quenelle”. Ganhar dinheiro com essas polêmicas é uma hipótese plausível. Essas coisas consideradas “politicamente incorretas” dão dinheiro hoje em dia. Veja o exemplo do Danilo Gentili no Brasil. A jornalista, que, ao que parece, é americana (talvez judia), comentou, com humor ácido, que, quem sabe, daqui a um tempo, com a venda de camisas e canecas com o símbolo “quenelle”, ninguém precisará do Google para saber do que se trata. Ela disse que quanto mais leu sobre Dieudonné M’bala M’bala, mas sentiu que era um sujeito engraçado. Mas, claro, isso foi dito com ironia.

Essa hipótese ganha força porque Dieudonné M’bala M’bala foi praticamente banido do mainstream francês. O Ministro do Interior disse que o governo não ia tolerar manifestações públicas dele neste sentido. A França não quer continuar com a fama de antissemita.

Alguns links para matérias que abordaram o assunto na imprensa internacional:

Leia também:  A estátua e a liberdade, por Rogério Mattos

http://www.dailymail.co.uk/sport/football/article-2530377/West-Brom-coach-Downing-claims-Anelka-paying-homage-comedian-controversial-celebration.html

Quenelle may breach anti-hate laws, French official indicates

www.bbc.com/sport/0/football/25810659

O caso também repercutiu no Brasil, como se observa no link abaixo:

http://placar.abril.com.br/materia/patrocinador-rompe-com-west-brom-devido-ao-gesto-antissemita-de-anelka?utm_source=placar&utm_medium=facebook&utm_campaign=placar

 

 

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19 comentários

  1. Acho engraçado pessoas negras

    Acho engraçado pessoas negras como Anelka, M’bala M’ bala fazerem apologia explícita ao racismo, mesmo que seja enrustido sobre o disfarce do anti sionismo, afinal virou moda essas manifestações de desagravo ao diferente. No Peru país quase majoritariamente indígena o jogador Tinga foi igualado a macacos, tempos estranhos esses, mais estranho ainda é M’bala M’bala se associar a um político da extrema direita direita como Le Pen.  

    E pensar que o Brasil corre o mesmo perigo, é só olhar para Brasília e ver aquela personagem de certa corte judiciária inverter os papéis e negar aos seus.  

    Essas personagens não se dão conta de que estão sendo usadas, e no momento oportuno serão jogadas no limbo da história tais como um cabo Anselmo da vida. 

  2. Já era hora de alguém, em um
    Já era hora de alguém, em um blog brasileiro, dizer alguma coisa sobre o que está acontecendo na França. Mas, como não poderia deixar de ser, o assunto vem etiquetado como manifestação do velho e bom “antissemitistmo” (sempre muito conveniente para muitos judeus e especialmente para Israel). Aos que desejarem obter alguma informação decente sobre o assunto, sugiro acessar o blog http://www.egaliteetreconciliation.fr/
    Também recomendo o blog do músico de origem judaica, Gilad Atzmon, que tem publicado diversos posts sobre o assunto (http://www.gilad.co.uk/writings/)

    • A etiqueta de antissemitismo

      A etiqueta de antissemitismo foi dada pela mídia e pelas entidades judaicas que se dedicam a denunciar casos de antissemitismo, é bom frisar (a exemplo da LICRA – sigla em francês para Liga Internacional contra o Racismo e o Antissemitismo, que é, na origem, uma entidade criada para lutar contra os pogroms, e somente no final dos anos noventa ampliou o campo de ação para o racismo em geral). Recentemente, Dieudonné M’bala M’bala, Robert Faurisson e um cidadão chamado Youssouf Fofana que foi condenado num crime que matou um jovem judeu, de nome Ilan Halimi, em 2006, num caso conhecido como “O Caso da Gangue de Bárbaros”, se uniram e processaram a LICRA contra as acusações lançadas pelo seu atual presidente, Alain Jakubowicz. O trio acusa-o de difamação e injúria pública, requerendo a dissolução da LICRA na ação. Maiores detalhes, ver o link a seguir: http://tempsreel.nouvelobs.com/societe/20131227.OBS0807/quand-dieudonne-s-allie-a-robert-faurisson-et-youssouf-fofana.html

      O Governo francês também endossa esse entendimento, tanto que proibiu as apresentações públicas de Dieudonné M’bala M’bala. Ele teve, de forma inédita na França, apresentações de seu espetáculo “O Muro” literalmente proibidas em Toulouse, Paris e em Tours. O debate na França está acirrado entre liberdade de expressão e suposto antissemitismo, racismo de uma forma geral, etc. Tudo a partir desse caso.

      Não creio que as pessoas que façam o gesto sejam necessariamente antissemitas. Podem ser. Essa hipótese não pode ser descartada. Mas podem ser apenas antissionistas ou encarem isso como um protesto contra o establishment, como defende Dieudonné M’bala M’bala.

      De todo modo, sou contra a censura. O gesto não pode ser proibido a partir da condenação dos que acham que ele é antissemita. Caso isso vingue, tudo pode ser censurado daqui em diante. Basta que alguém consiga vincular, de alguma forma, o gesto ao sentido de antissemitismo. Como disse antes, o sentido depende de quem o interpreta.

  3. Só as recheadas

     É um bolinho de massa tipico da cozinha francesa, que pode ser assado, e servir de base para varios recheios: tipo camarão, lagosta, escargot etc..

     É parente “gastronomico” próximo dos knodels (alemães), spaatzles, blinis e outros tipos de apoios de massa para rechear, inclusive alguns chefs, afirmam que a quenelle francesa, a palavra, é uma corruptela do alemão knödel, eu particularmente, prefiro as recheadas de patê de figado ou as de mossue de escargot.

      Quanto a tais gestos, e o imenos texto acima, é uma imensa “salada”.

      P.S.: já comi, e é gostosa, uma quenelle kosher, recheada com mousse de arenque.

    • Só conhecia

      Só conhecia este sentido de quenelle. Quanto à afirmação do conhecido antisemitismo, afirmado pelo autor, acho estranho. Morei 3 anos em um sibúrbio de Paris e estudava em Paris e jamais notei ou ouvi falar nisso. Ainda mais para ser dito como conhecido, e portnato reconhecido. Tinha sim um vizinho, pode-se dizer nazista, q ainda q por vezes se pretendesse brincalhão, defendia a invasão da França pelos alemães, e achava q se isso continuasse a FRança estaria muito melhor. Isso foi de 1971 a 1974.

      • Claro que na década de 70

        Claro que na década de 70 você nunca teria mesmo ouvido falar. Foi uma coisa criada na França dos anos 2000. Leia os artigos linkados. A própria jornalista do Haaretz não sabia do que se tratava antes da polêmica sair na mídia.

        • Links não ajudam a esclarecer

          Os links dizem respeito, exceto um, a temas referentes à esporte. O único que não é, nada fala sobre conhecido (sic) antisemitismo francês. Diz que o tal gesto ganhou popularidade nos últimos meses. Isso também não significa conhecido, e portanto reconhecido, antimesimitismo. Isso supondo que a informação seja procedente.

          • Claro, eu inventei tudo rsrs.

            Claro, eu inventei tudo rsrs. Brincadeiras à parte, o mundo muito mudou de 1970 para cá. Estamos em 2014. O comediante francês, Dieudonné M’bala M’bala, é muito conhecido na França. Ele é muçulmano, tem motivos políticos para ser antissionista. O gesto existe e é chamado de quenelle. Foi a partir da militância antissionista de Dieudonné que o gesto foi criado (pioneiramente em 2005 e mais notadamente a partir de 2009). Se você não conhece em suas andanças na França, é porque em 1970 ele não existia. Você duvidou da existência do gesto na França (!). Fica claro que só leu as matérias linkadas depois.

            Quanto ao forte e presente antissemitismo francês, isso é um dado histórico. Marcel Proust fala disso na sequência “Em Busca do Tempo Perdido”. Todo mundo que se dedicar um pouco ao assunto sabe que a França quase sempre foi muito antissemita (pelo menos quando os judeus se tornaram notados de uma forma significativa). Não preciso nem citar o caso Dreyfus ou intelectuais como Céline, autor do livro que Trotsky, judeu, considerava uma obra-prima, “Viagem ao Fim da Noite”, notório antissemita. A França quase sempre, na média, em termos sociais, foi antissemita. Existem relatos de judeus que dizem que chegavam na França, em lugares onde existiram campos de prisioneiros judeus durante a II Guerra Mundial, e os moradores locais simplesmente nada sabem informar a respeito quando perguntados onde fica o local. Não preservaram a memória como em outros países. O que evidencia que o Holocausto não é um assunto com o qual o povo, na média, estivesse preocupado.

            Isso mudou nos últimos anos, até em razão das graves leis anti-racismo existentes na França, mas o antissemitismo francês existe e é historicamente conhecido. A França quase nunca foi, historicamente, um lugar bom para judeu. Ponto pacífico. Faça uma pesquisa no Google a respeito.

    • O sentido gastronômico é

      O sentido gastronômico é conhecido. A palavra ganhou outro sentido a partir das apresentações de Dieudonné M’bala M’bala (desde 2005 e mais marcantemente a partir de 2009, nas eleições europeias).

      No texto “salada” acima já trazia o link que explicava os possíveis sentidos da palavra, como se pode ver nos dois links abaixo:

      1 – http://en.wikipedia.org/wiki/Quenelle

      2 – http://en.wikipedia.org/wiki/Quenelle_%28gesture%29

      A informação, portanto, já estava na “salada” acima. Abordei a conotação política, que é a que importava.

  4. É melhor não polemizarmos em demasia

    Não seria mais adequado reconhecer que você foi um tanto longe ao falar em conhecido antisemitismo francês? E você foi ênfático (e como!) ”Poucos países no mundo tem uma história de antissemitismo tão forte e marcante quanto a França.” Será que você não está “impreganado” pelo caso Dreyfus?

    Por fim, como você diz, “De todo modo, não creio que o “quenelle” feito por Anelka seja tão importante assim, ao ponto […] “. Então é melhor ficarmos por aí.

  5. Informações imprecisas

    Achei muito estranho que Bernanrd-Henri Lévy (de origem judaica) e Pierre Bergé (dois intelectuais) tenham feito qualquer gesto de apoio ao anti-semitismo primario de Dieudonné guarda muito rancor do meio artistico francês, onde os judeos são produtores.  Essa informação de apaiodores não bate. So o fato de Dieudonné aliar-se a Le Pen, ja demosntra com ele esta bem pertubado, para dizer o minimo.

    Mas ai vai uma entrevista com BHL. 

     

    Bernard-Henri Lévy : «Sur Dieudonné, Valls a eu raison»

    L’écrivain donne raison au ministre de l’Intérieur ainsi qu’au président pour leur «fermeté» face à la montée du racisme et de l’antisémitisme.

     

    Le geste de la quenelle lancé par Anelka en soutien à  l’a ulcéré. BHL y revient longuement dans l’interview qu’il nous a accordée.

    L’AFFAIRE DIEUDONNÉ 

    Manuel Valls a-t-il raison de vouloir interdire les spectacles de Dieudonné 
     

    BERNARD-HENRI LÉVY. Bien entendu. Je ne comprends même pas le débat. Ce que vous appelez les spectacles de Dieudonné ne sont pas des spectacles, mais des meetings. Et on prêche, dans ces meetings, le négationnisme, la haine des juifs, l’apologie du  contre l’humanité – toutes choses que la loi républicaine condamne. Il y a un moment où, face à ça, face à ces bras d’honneur répétés à la République, il est du devoir de la parole publique de dire stop. Valls l’a fait, Valls a eu raison. C’est bien.

    Certains disent que, si on interdit Dieudonné aujourd’hui, rien n’interdira au  de censurer d’autres humoristes demain pour toutes sortes de raisons… 
    Il y a là une étrange et terrible confusion. Car il n’y a rien de commun, rien, entre le travail d’un humoriste dont la liberté d’expression et donc de provocation est effectivement sacrée, et l’entreprise d’un agitateur néonazi qui fait ouvertement campagne sur des thèmes qui ne sont pas des opinions mais des délits. Ils ne font pas le même métier. Il y a une différence de nature entre ce qu’ils nous racontent. Et, sauf à imaginer Mme Le Pen au pouvoir, il n’y a pas un juge sérieux en France qui dira : « J’ai condamné X parce qu’il insultait la mémoire des victimes de la Shoah – je vais donc condamner Y parce qu’il blague sur le ministre Truc ou Machin. »

    Certains sportifs comme Anelka ou Parker ont effectué la fameuse quenelle en indiquant qu’il s’agissait à leurs yeux d’un geste antisystème. Ne faut-il pas leur accorder le bénéfice du doute ? 
    Tony Parker, bien sûr : l’histoire date d’il y a cinq ans et il s’en est expliqué. Mais Anelka, c’est autre chose. Il sait qu’il exprime ainsi son soutien à un agitateur dont le programme se résume à mettre sa quenelle (sic) « dans le fion du sionisme ». Il sait que « antisystème », chez lui comme chez son complice Alain Soral (NDLR : essayiste), veut dire « les juifs maîtres du monde ». Et il sait qu’en soutenant cela il promeut les clichés antisémites les plus éculés mais, aussi, les plus inflammables. La Fédération de football anglaise n’a, là non plus, guère le choix. Ou bien elle sanctionne durement le milliardaire « antisystème ». Ou bien on verra, comme dans les années 2000, une épidémie de gestes et de slogans nazis dans les stades de foot anglais.

    Le racisme et l’antisémitisme progressent-ils en France d’une façon générale ? 
    Pour le racisme, c’est évident : regardez comme le corps politique a tardé à réagir aux insultes contre la garde des Sceaux, Christiane Taubira. Pour l’antisémitisme, j’ai peur qu’il en aille de même et je suis atterré d’entendre de plus en plus de jeunes juifs se demander s’ils sont toujours les bienvenus dans un pays où l’on tolère des saluts nazis devant le Mémorial de la déportation ou en face de l’école juive toulousaine où l’on a tué quatre enfants parce qu’ils étaient juifs. Il faut arrêter cette spirale de la haine. Il faut, au-delà des « spectacles », interpeller les hébergeurs des sites de Dieudonné et de Soral. Et il faut, puisque tout cela est aussi un petit commerce juteux, avec marques déposées, querelles minables entre ayants droit, taper ces gens au portefeuille.

     

    http://www.leparisien.fr/politique/bernard-henri-levy-sur-dieudonne-valls-a-eu-raison-05-01-2014-3463669.php

    • Ser judeu não muda nada

      Você tem razão, não exatamente por serem judeus (caso de Bernard-Henri Lévy, que é um intelectual que nunca conseguiu alçar vôo para além da França, apesar de inúmeras tentativas “pop” neste sentido) ou intelectuais (além de Lévy, Pierré Bergé, conhecido como amante de Yves Saint Laurent e co-fundador da marca, ou seja, por ser industrial e namorado de um estilista famoso, não por ser exatamente “intelectual”), mas sim porque, de fato, eles não fizeram, mas sim foram fotografados ao lado de pessoas que fizeram. Cometi um erro neste ponto. É que alguns apoiadores de Dieudonné costumam fazer o gesto em alguns eventos ou situações onde se encontram pessoas públicas, uma alusão ao fato da pessoa em questão ser um representante do establishment criticado pelo comediante com o gesto (a conotação antissemita é por ele negada). Irei corrigir esse ponto imediatamente. De fato, eles não fizeram. Foram objeto de crítica por meio do quenelle. Isso é bem diferente, de fato.

      No entanto, é preciso que se diga que ser judeu não impediria que se fizesse o gesto, ao contrário, faz todo um sentido para quem endossasse as críticas antissionistas de Dieudonné. Os judeus são alguns dos povos mais críticos consigo mesmos que existem. Todo o humor judaico é praticamente baseado nisso, na auto-paródia, vide o que humoristas como Woody Allen e Groucho Marx fazem ou faziam.

      Sem falar que alguns dos grupos mais radicalmente contra os sionistas são judaicos, como a Neturei Karta, grupo de judeus ortodoxos de Nova Iorque. O próprio Norman Finkelstein, intelectual americano, ativista político famoso no mundo por sua militância antissionista e contrária à política beligerante de Israel, é judeu.

  6. Quenelle

    Me desculpem, mas vou usar lenguagem vulgar aqui,

    Acho que estao misturando coisas. O Dieudonné é um pateta e um antisemita, mas o sentido com que ele usava a quenelle era outro: ”Dans ton cul”, quer dizer, enterrei no teu rabo até aqui, ou voce se f*deu e ficou com ele enterrado no rabo até aqui. É esse o sentido que a garotada da à quenelle na banlieue (aonde eu morei até setembro, por sinal), é esse o sentido da quenelle do Anelka: fiz um gol, enterrei no teu rabo até aqui, engole essa. No Youtube tem um monte de vídeos de stands up de Dieudonné, basta escutar as piadas para perceber o sentido, e nao cair na onda de que tudo e qualquer coisa é antissemita, nazista ou coisa parecida.

    Mas como o palhaço ignorante do Dieudonné é um antissemita, inventaram esse troço ridículo da saudaçao nazista ao contrário, una coisa patética. Como assim ao contrário? Se voce ” inverte”  a quenelle nao forma coisa nenhuma. 99.99% dos garotos que fazem a quenelle nas periferias sequer faz idéia do que seja uma saudaçao nazista invertida…. Querem antisemitas na França? Tem aos montes, em qualquer esquina, como em qualquer esquina da Europa. Mas botar a irritante quenelle nesse saco é simplesmente errado.  A quenelle é simplesmente um gesto idiota. Mas quem é que vai encarar o lobby franc{es e dizer que Dieudonné é um antisemita mas a quenelle n¤ao tem nada a ver com isso?

    Obviamente, França ainda sangra por essa ferida aberta que chama-se Vichy.

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