Peça 1 – a crise do BNDES

Crise no BNDES está apenas começando, o quadro permanente do banco resolveu resistir ao desmonte, há lideranças fortes e, principalmente, a governança do banco, impedindo as aventuras do grupo de amigos de Eduardo Bolsonaro que se apossou do banco. O primeiro que decidiu atropelar as normas do banco sentiu os riscos de ser denunciado e pediu licença. O jogo deve esquentar nos próximos meses.

Peça 2 – a crise do Itamarati

O Itamarati está prestes a convalidar a maior gafe da história diplomática do país: o Brasil abrir mão do status de nação emergente na OMC (Organização Mundial do Comércio).

O status diferenciado dá uma série de vantagens aos países em desenvolvimento, cerca de 40 países, dos 164 membros da OMC. Eles podem recorrer à “cláusula de habilitação”, que permite vantagens nas negociações comerciais com outros países.

Uma delas é o Acordo Sobre Salvaguardas no qual os países em desenvolvimento podem ser isentos das salvaguardas aplicadas por parceiros comerciais. No Acordo de Agricultura, permite-se porcentagem maior de apoio à produção, sem as limitações normais da OMC. Com todo seu potencial econômico, a China tem status de país em desenvolvimento e não pretende abrir mão disso.

O Itamarati está esquivo em admitir se o país abriu mão do status de emergente na OMC. A promessa foi feito a Donald Trump pelo inacreditável Jair Bolsonaro, em troca da possibilidade de fazer declarações ao pé do ouvido do presidente americano e da falsa promessa de apoiar a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), uma entrada que implica um conjunto de compromissos adicionais, limitando ainda mais as políticas de autodefesa econômica.

Se o acordo for aprovado, a diplomacia brasileira terá caído no conto do vigário de um vigarista notório, Trump, conhecido mundialmente, no campo dos negócios, pelas vigarices e quebra de compromissos. E a defesa do Brasil ficou nas mãos de um perfeito imbecil latino-americano, Bolsonaro e família.  Haverá prejuízos de monta para as exportações, como mostramos no artigo sobre os impactos para a soja brasileira do acordo China-Estados Unidos. Esses prejuízos serão ampliados com o comprometimento do acordo com a União Europeia, em razão da irresponsabilidade ambiental do governo.

Peça 3 – a briga no círculo bolsonarista

Explodiu uma mega briga dentro do círculo bolsonarista, no PSL, nas tropas das redes sociais, os olavetes e os lavajatistas, disputando dinheiro e cargos pelo caminho.

É curiosa a expansão dos olavetes. Na matéria do Crusoé sobre as milícias digitais, descobre-se que um dos financiadores é Otavio Fakhoury, filho do Oscar Fakhoury, já falecido, presidente do Banco Mercantil de Descontos, da familia Zarzur. Zarzur pelo lado materno, Oscar estava na presidência do banco, quando foi liquidado pelo Banco Central por irregularidades nas operações de ARO (Adiantamento de Receitas Orçamentárias), montada com estados e municípios. Dora, viúva de Oscar, tornou-se evangélica fanática quando o marido ainda era vivo. Mas chama a atenção de amigos que Otávio tenha se transformado em financiador de uma turma da pesada.

De qualquer modo, esse esfacelamento da aliança está produzindo ruídos diários na base bolsonarista, dificultando ainda mais alianças políticas no Congresso.

Peça 4 – a rebelião dos sargentos

Em todos os momentos da história, a intervenção das Forças Armadas se dava no momento em que a politização chegava nos sargentos.

As manifestações dos sargentos da Polícia Militar, saudando o “mito” Bolsonaro, o aumento da letalidade, as investidas de PMs sobre vereadora do PT, tudo isso converge para um protagonismo cada vez mais letal e explícito das Polícias Militares – que poderá chegar às bases do Exército.

Esse quadro tende a se agravar, colocando alguns condimentos a mais no caldeirão do diabo do bolsonarismo.

Peça 5 – os avanços nas investigações

O conjunto de desgastes apontados nas peças anteriores precisam ser vistas no conjunto. Nenhum deles individualmente derruba Bolsonaro. É a soma deles, o desgaste progressivo da popularidade de Bolsonaro que será a espoleta a deflagrar sua saída do governo.

Lentamente, avançam as investigações sobre os Bolsonaro e sobre a morte de Marielle Franco. Aliás, a retaliação da EBC contra o editor que permitiu alguns segundos de imagem de Marielle, mostram que o caso é um nervo exposto, que bate diretamente nos Bolsonaros.

Há duas hipóteses para a decisão do general do exército Luiz Carlos Pereira Gomes, presidente da EBC, em proibir a veiculação da imagem de Marielle.

A hipótese central é que pretende poupar os assassinos. Mas se o caso estivesse restrito às milícias e ao baixo clero político do Rio de Janeiro, haveria motivo para medidas drásticas de censura? É evidente que não. O general procura preservar pessoas muito mais influentes.

A descoberta de que os primeiros vídeos identificando os assassinos foram descartadas pela Polícia Civil mostra o avanço das investigações.

Na hora em que o desgaste de Bolsonaro estiver mais aceso, há um conjunto enorme de fatos a justificar o impeachment, não meras jogadas contábeis, mas crimes políticos da mais alta gravidade.

 

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Há total acerto na análise do quadro geral e dois erros de interpretação no varejo. Conheço com alguma profundidade o funcionamento do BNDES, sua cultura corporativa e seus "lideres". De onde nada se espera nada vem. Boa parte do corpo técnico de há muito comprou a historinha do mercado, private is good, public is bad, but us. Tem horror de Lula, Dilma e do PT, marchou com o resto dos coxinhas pelo golpe, pelo fora Dilma, fora PT e por Lula preso. Estão dormindo na cama que arrumaram. Exatamente o mesmo aplica-se aos oficiais de chancelaria no Itamarati. Tive contato com alguns em embaixadas brasileiras quando, em negócios no exterior, busquei ajuda para resolver questões burocráticas, como por exemplo, conseguir um visto de trabalho para um engenheiro chinês de uma empresa parceira ou para tentar marcar uma agenda com uma autoridade francesa. A arrogância e a polida falta de interesse marcaram o comportamento de todos. São uns almofadinhas, se é que esse termos ainda é usado. Estão pagando pelo pecados. No que se refere ao BNDES, ao contrário de mim quem, aqui mesmo no GGN, postei diversos comentários defendendo o Banco e sua integridade, nunca tiveram o hombridade, a decência de vir a público fazer o mesmo. Inclusive, na defesa dos colegas humilhados naquela conhecida investida sem pé-nem-cabeça sobre o corpo funcional do BNDES. Considero-os uns canalhas, por ação ou omissão. As exceções que houver, servem como de praxe, para confirmar a regra.

Boeotorum Brasiliensis