Xadrez dos preparativos para a luta final, por Luis Nassif

Vamos a uma rodada de Xadrez, em cima de notícias atuais pós-Intercept. Leve em conta o extraordinário dinamismo dos fatos para não tirar nenhuma conclusão definitiva. Vale para entender os movimentos e as contradições do jogo.

Peça 1 – decreto das armas e milícias

Já havíamos antecipado há meses que o armamento da população fazia parte da estratégia dos Bolsonaro de criar suas milícias particulares, ampliando o poder de seus aliados, milícias, empresas de segurança privada, ruralistas dos confins.

A cada dia que passa amplia-se o isolamento de Bolsonaro.

No início do governo, a arca de Noé era composta por negocistas, militares da reserva, fundamentalistas e pelas supostas “âncoras” Sergio Moro e Paulo Guedes.

Os negocistas se afastaram ou foram afastados, e passam a orbitar em torno de João Dória Jr.

A saída do general Santa Cruz sela o fim da parceria com os militares. A foto simbólica do general Villas Boas – principal avalista militar da candidatura de Bolsonaro – ao lado de Santa Cruz é apenas isso: simbólica, um retrato da falta de rumo generalizada que jogou não apenas o poder civil, mas também o militar, sob lideranças de baixa dimensão.

A cada dia que passa, Paulo Guedes se revela um blefe, sem uma estratégia sequer para enfrentar a crise, jogando todas suas fichas em propostas inviáveis para a Previdência, como maneira de preparar antecipadamente um álibi para o fracasso. O Congresso retirou dele o protagonismo das reformas, por sua incapacidade absoluta de comandar qualquer articulação.

Por seu lado, Moro virou um dependente total de Bolsonaro.

Hoje em dia, para obter sinais de aprovação de Bolsonaro, o ex-juiz sai dos auditórios internacionais para estádios de futebol e para o programa do Ratinho, para provável desgosto da senhora Moro.

Ou seja, estimulado pelos filhos e por Olavo de Carvalho, Bolsonaro abriu mão de todas suas “âncoras” e decidiu partir para a guerra individual. Ampliou o discurso ideológico e, em Santa Maria expos a estratégia do armamento da população: armar o povo para resistir a golpes. Daqui para frente, será um crescendo, diretamente proporcional à incapacidade política do grupo Bolsonaro de se colocar no jogo institucional.

Peça 2 – a grande tacada com a Petrobras

Paulo Guedes adotou a estratégia da terra arrasada: o que não puder ser vendido, tem que ser destruído.

Nessa estratégia, a única resistência tem sido do estamento militar, impedindo a privatização de algumas empresas da indústria de defesa.

Há uma série de cúmplices, em jogadas cinzentas, que não escaparão de investigações futuras,

Membros do CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) serão alguns deles. O órgão analisou uma das muitas ações contra a Petrobras, por monopólio do refino. Ressalve-se, a única acusação era ter o monopólio do refino. Não houve acusação sobre qual seria a prática monopolista, pois aí ensejaria um Termo de Ajustamento de Conduta, e não a obrigatoriedade de se desfazer das refinarias. Em vez disso, impingiu uma multa bilionária à empresa, caso não se desfizer de suas refinarias, uma decisão estapafúrdia – que certamente servirá de tema para mais uma CPI, quando a grande noite terminar.

Entra nesse pacote, a privatização da TAG, transportadora de gás da Petrobras, dias antes do anúncio da descoberta de grandes reservas de gás no Nordeste, aí envolvendo decisão do Ministro Luiz Edson Fachin. O Ministro deve explicações.

Á medida que se aprofundar a decepção com a economia, haverá uma releitura de todas as tacadas de Paulo Guedes, acelerando o desgaste do governo

Peça 3 – Levy e o sistema internacional

Mais uma frente de desgaste emergirá do episódio Joaquim Levy-BNDES.

Levy é funcionário de carreira do FMI. Antes de vir para a presidência do BNDES, Levy era o segundo nome no organograma do Fundo, como CHIEF FINANCIAL OFFICER, ou seja, DIRETOR FINANCEIRO. Sua demissão de forma grosseira vai reverberar em Washington, onde ele e família moram faz tempo.

Desgostou Guedes por tentar preservar de forma responsável o banco. Foi Guedes quem provocou a reação de Bolsonaro, colocando a carne fresca do antipetismo na sua frente. Provavelmente para o lugar de Levy irá Gustavo Franco, ironicamente o presidente do Banco Central responsável maior pelas autorizações das contas CC5, do escândalo Banestado, e poupado por Sérgio Moro na época.

Até para o trabalho sujo, Guedes se mostrou submisso, recorrendo a intrigas palacianas. Bolsonaro, imperial, fez saber a todos que ele bancou a nomeação de Levy e ele o demitiria, passando por cima de Guedes, reduzindo ainda mais a expressão política de seu Ministro da Economia.

A alegação posterior de Guedes, de que Levy não abriu a caixa preta do BNDES é de absoluta má fé, porque nem dispondo do álibi da ignorância. Só um banco suicida vai
colocar problemas na janela para se autoflagelar. Isso afeta o “rating” e o BNDES é ativo captador em bônus no mercado internacional. O que ele pretendia é que o BNDES, por sua própria iniciativa, fizesse o trabalho sujo que a Lava Jato fez em relação à Petrobras.

Peça 4 – os movimentos das instituições

Há movimentos dúbios no sistema de freios e contrapesos.

É evidente que todos os setores responsáveis já se deram conta dos riscos para o país das políticas de Bolsonaro.

Em um primeiro momento, despertam as primeiras conversas entre lideranças, os primeiros encontros reservados, visando construir a massa crítica capaz de segurar definitivamente Bolsonaro. Pela tentativa de montar uma aliança direta com o povo, Bolsonaro certamente já percebeu esses movimentos.

Há destaque para as movimentações políticas, a aglutinação de partidos de esquerda, o papel do Centrão, os movimentos de direita em relação a Dória.

Mas os movimentos decisivos são mais reservados, envolvendo altas autoridades brasilienses, do mundo jurídico, político, militar, dos grupos empresariais representados na capital.

É curioso analisar esses movimentos.

Publicamente, com exceção do Congresso, os poderes vêm recorrendo à estratégia “amansa o touro”.

Dias Toffoli cumpre a missão desenhada para ele: toma atitudes pusilânimes para poupar seus pares da acusação de pusilanimidade. Foi o caso da não inclusão na pauta da votação sobre prisão em segunda instância, por exemplo. Vamos ver qual será seu malabarismo para evitar a discussão sobre a suspeição de Sérgio Moro.

Por outro lado, foi o mesmo Toffoli que tomou a atitude ousada de abrir investigações contra a Lava Jato. É evidente que há uma estratégia em curso.

No momento, o poder que se firma como freio e contrapeso é o Congresso Nacional.

Mas os demais não estão inertes

Peça 5 – os desdobramentos

  1. Não há a menor possibilidade de Bolsonaro baixar a poeira, e definir uma estratégia sutil de destruição nacional. Cada vez mais acelerará a retórica do confronto, da guerra ideológica, do foco único no fundamentalismo mais tacanho.
  2. Sua insistência em armar as milícias, mais cedo ou mais tarde exigirá providências das Forças Armadas.
  3. A tortura chinesa do The Intercept sobre Moro, pingando dia a dia parafina quente na sua testa, tornará sua permanência um fator adicional de desgaste.
  4. A cada dia que passa, mais aumentará o desalento com Paulo Guedes e sua incapacidade de reverter a crise.

Provavelmente, à esta altura ocorrem movimentações relevantes de bastidores, especialmente em Brasília.

E não se assistirá a próxima guerra através de setoristas do Palácio, que presentearam Bolsonaro com uma Bíblia, ou da Globonews.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

" Luis Nassif : ."

Ver comentários (30)

  • Finalmente, mais pessoas têm despertado para a necessidade de priorizar o debate das questões relativas ao fato de que várias das práticas absurdas do desgoverno Bolsonaro caracterizam crimes de responsabilidade enquadrados na Lei 1.079.

    Muitos já percebem também que é indispensável investigar as denúncias de desrespeito ao princípio jurídico da imparcialidade, divulgadas pelo The Intercept, bem como, ao mesmo tampo acompanhar de perto a produção de provas e o julgamento da ação relativa ao uso de propaganda ilegal nas eleições, além de exigir a retirada do sigilo imposto pela justiça acerca da comissão do TSE sobre fake news.

    Agora, urge acelerar estas pautas, que precisam ser simultâneas, para permitir o resgate da democracia através dos mecanismos previstos na constituição e nas leis do país, com vistas à realização de eleições gerais em 2020, pois o novo pleito, livre da influência do uso de propaganda ilegal, constitui requisito para a reconstrução da governabilidade, da sustentabilidade e da civilidade.

  • Imbecis. Todos eles. Infeliz desse país onde que carece de estadistas, mas onde abundam os medíocres.
    E antes que me esqueça: Bolsonaro representa, antes de tudo, a classe média. Suas ideias são as da classe média, que a anos vem sendo devidamente amestrada por Datenas, Ratinhos e Malafaias da vida. Por isso ele ainda tem tantos seguidores. Por isso ainda resiste.

  • Resolvi rever hoje o meu artigo que o GGN publicou uma semana antes do segundo turno das eleições, que eu chamaria de uma "ficção de terror", "Brasil uber alles, heil mein capitão", passado em um Brasil quatro anos no futuro, seguindo-se a vitória de um certo capitão Olson, de extrema direita, nas eleições presidenciais. Por mais fantasiosa que tenha sido a história que escrevi, me assustou constatar que alguns dos meus escritos estão se concretizando.
    "O desmatamento cresceu vertiginosamente, gerando em reação, uma campanha internacional das entidades internacionais de preservação da natureza, como WWF e Greepeace, que resultou em amplo boicote à carne brasileira e a produtos agrícolas, exceto quando a procedência fosse efetivamente comprovada como sendo de áreas não desmatadas.... A esta altura o Brasil já havia se tornado um pária na comunidade internacional."
    "Foi liberada a venda (de armas) para os grandes proprietários no campo, o que levou ao acirramento dos conflitos contra os movimentos dos trabalhadores sem terra, enquanto que, nas cidades, apenas os grupos fascistas receberam armas, com a justificativa de que atuariam na defesa do cidadão..... levando à formação dos grupos de paramilitares uniformizados."
    Continuo a achar que esta ficção de terror vai ter um final feliz, apesar do preço que já estamos pagando.

  • Moro já está fora. Bolsonaro só aguarda o momento certo para anunciar a sua queda. O "X " da questão é saber quem vai assumir o seu lugar no Ministério da Justiça. Tenho uma aposta. Será um militar do núcleo fascista, tipo Augusto Heleno. Bolsonaro sabe da sua limitação cognitiva, da sua incapacidade de articulação política e de que sua eleição só foi viável com a cassação dos direitos políticos do Lula. Dessa forma, apesar de ser um personagem menor ele é capaz de entender que sua sustentação está no núcleo militar. Com a força que está dando ao núcleo militar de cunho fascista até pegando generais da ativa ele garante o controle do judiciário para manter o Lula preso e o controle do congresso para evitar qualquer tentativa de impeachment. Apenas para registro, Toffoli já se cagou de medo e levou para as calendas a pauta da prisão em segunda instância.

  • Não é somente sobre o -roubo- da TAG que sujeito que atende por Fachin ,deverá dar explicações,essa é só uma.

  • Entregar Moro e comparsas as feras vai fazer bem ao golpe, que aplacará a sede de vingança da esquerda...
    Moro não é bobo de jogar golpista graúdo no ventilador, ele pode perder bem mais que a reputação...
    O aécio sabe muito mais, mas sabe que é melhor ficar calado...
    Ele se tornará mais um novo aécio neves da vida...
    Apenas isso...
    Não será preso pelos serviços prestados ao golpe!
    Será que tinha Instagram na época do mensalão?
    A justiça e seus penduricalhos é bem mais "conservadora", não haverá refresco para a democracia quando estão em jogo trilhões!
    A decepção fica por conta das forças armadas que estão se mostrando frágeis, ignorantes e com baixo nível de nacionalismo!
    São incapazes de perceber que comunismo não é uma causa e sim uma consequência!
    Comunismo só se instalar onde há injustiça. miséria e violência contra o povo!
    Não há luta para tornar comunista a suíça, a suécia...
    Para muitos isso é um mistério, para se tornar comunista, basta ter "marxismo cultural"...
    Para quem acredita em terra plana, isso é fichinha...
    Mas, quem mais fez contra o comunismo no Brasil?
    Quem? Quem?
    Foi LULA...
    Que ascendeu os pobres sem tiros ou revoluções, mas criando dignidade e dando a eles um sonho no futuro via educação e trabalho!
    Foram milhões que poderiam querer mudar de vida de outro jeito!
    Tanto é, que esse público em parte votou no Bolsonaro quando este usou de fake news dizendo que o PT iria implantar o bolivarismo no Brasil!
    É de pasmar!
    E as forças armadas seguem essa cartilha!

  • Quando a longa noite terminar...
    Todos os ativos do país terão sido vendidos?
    Haverá algum resquício de direitos trabalhistas, sociais e civis?
    Terá sido concluído o percurso da democracia disfarçada para a plutocracia deslavada?
    Enfim, de que adiantará chegar o dia, se vendarem os nossos olhos e atarem as nossas mãos?

  • Análise consistente.

    A esquerda deve se manter cautelosa, a direita que se vire com seus monstros.

  • Insisto em comentar que o governo Bolsonaro poderá nos levar a guerra civil. Coisa que não poderemos admitir. Mas se o congresso e parte da sociedade que tem força e poder nada fizer isso acontecerá. Bolsonaro não tem jeito, tem que sair.