Zeitgeist. Um ponto de vista cientifico.

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” Por milhões de anos a espécie humana viveu como os animais. Então algo aconteceu que desencadeou o poder da nossa imaginação. Nós aprendemos a falar.”

 
Stephen Hawking
 
Neste ensaio procuro formar uma espinha dorsal em torno do meu tema preferido, a ciência, a partir de interpretação livre das obras “história da filosofia ocidental” e “história do pensamento ocidental” de Bertrand Russell , além de especulações do período pós Russell.  
Ao conjunto de disposições intelectuais e culturais de uma época , os alemães dão o nome de zeitgeist. O espirito do tempo. 
Se tivesse que escolher um fio condutor para descrever a paixão humana , um zeitgeist monopolizador da história, o que seria ? a luta pela sobrevivência seria uma resposta demasiado tautológica. Correta demais ,insatisfatória demais, além de servir para qualquer forma de vida. A história do mercado e do capitalismo provavelmente seriam as escolhas de um humano medíocre do nosso tempo .Arte, cultura , literatura são boas escolhas , entretanto isoladas não esclarecem o fenômeno de uma civilização com 7 bilhões de indivíduos.  
Eureka ! A história da religião. Embora tenha concentrado os esforços da grande maioria de seres humanos nos últimos doze milênios, não é a religião que explica a existência da nossa atual civilização tecnológica.
 
Até o século XIX a população humana nunca ultrapassou a casa de 1 bilhão. A expectativa de vida  nunca passou dos 40 anos. Apenas uma conquista, a  descoberta da penicilina, permitiu que eu, você e nossos filhos tenham vindo à existência. Luta pela sobrevivência, mercados, religiões confluem para o grande zeitgeist da nossa civilização : a Ciência. 
 
Entender e influenciar o ambiente são diferenciais decisivos que nos separam dos animais, entre as estratégias que usamos para submeter a natureza nenhuma é tão poderosa e eficiente como a ciência. Na jornada trilhada até atingir o atual padrão tecnológico , capaz de manipular átomos e enviar sondas para outros mundos, o ser  humano teve que desenvolver ferramentas, cada artefato, cada vocábulo de linguagem de forma a se aproximar aos meios de uma correta interpretação da realidade do mundo externo.  Um processo de milhões de anos. Do gemido à metáfora. Da pedra lascada ao colisor de partículas.
 
 Este desenvolvimento não se deu de uma forma linear e dividiu o discernimento humano entre dois conceitos antagônicos em torno do principio da causalidade. Há uma causa natural inteligível para os fenômenos observados, ou necessariamente temos que recorrer ao sobrenatural para conseguir uma explicação ? Uma forma de pensar leva à ciência , a outra à religião. Duas formas contraditórias de concepção do mundo que entretanto sempre estiveram misturadas ao longo da história.  Na ponta primitiva temos o método que se mantém estagnado desde o começo da história . Não havendo explicação das causas observadas na natureza o homem não passa de um coadjuvante de forças muito mais capazes, inteligentes e poderosas, restando a resignação na forma da fé, dos sacrifícios apaziguadores de deuses e dos rituais de obediência. Esta é a forma da religião. Na outra ponta os primeiros humanos passavam a reconhecer ordem e padrão na natureza. Períodos iguais na passagem dos dias, das estações, do fluxo das estrelas no céu noturno , a partir de rituais passaram a tentar emular as causas que transformam a própria estrutura da matéria. A magia foi a primeira protociência. Este modo multiplicou explosivamente a espécie humana, trouxe conforto , aumentou a expectativa de vida, submeteu a natureza no planeta Terra. Esta é a forma da ciência.          
 


” Uma viva curiosidade,apoiada numa investigação apaixonada, embora desinteressada, eis o que garantiu aos gregos antigos o seu lugar único na história.” Bertrand Russell.
As primeiras civilizações desenvolveram métodos matemáticos e astronômicos com finalidade puramente pratica. Prever e mensurar colheitas, reconhecimento e divisão de áreas eram os objetivos das investigações intelectuais. Especulações que envolvessem um conhecimento além do necessário para a sobrevivência ordinária era objeto de estudo para sacerdotes e misticos que detinham o “dom” da comunicação e interpretação dos deuses.

Na cidade de Mileto, mar jônico, no século VI AC, uma forma contemplativa de observar o conhecimento tornou-se o panorama dos gregos. Surgiu aí a ciência e a filosofia. Conta-se que Tales de Mileto , o primeiro filósofo, desafiado a demonstrar a utilidade de seus conhecimentos teria monopolizado todo o mercado de azeitonas da cidade a partir da previsão das colheitas. 

A filosofia grega é a mãe de todo conhecimento ocidental. Uma forma especulativa, apaixonada e desinteressada de  tatear a realidade.Quando o produto desta especulação se torna um fato conhecido temos uma ciência.
Arte, ética, estética, politica, a filosofia grega influenciaria toda atividade humana e iniciaria o processo que relega aos deuses um papel inicialmente secundário, e finalmente obsoleto no cosmos. 
 


A saga do conhecimento entre os gregos é dividida entre antes e depois de Sócrates. Os pré socráticos formaram um bloco  interessado na physis, ou o mundo natural, introduziram a ideia de um principio unificador para a matéria. Para Tales de Mileto tudo era formado de água, para Aniximenes era o ar e Demócrito introduziu o átomo. A partir de Sócrates o foco da especulação filosófica grega passou a ser o homem e o mundo das idéias. Este foi um marco divisor da evolução do progresso cientifico que atingiu seu auge com os dois filósofos gregos terminais : Platão e Aristóteles. Além da physis , estes pensadores introduziram as bases do pensamento ocidental pelos próximos dois milênios aproximadamente. Politica, artes , ética, lógica ,metafisica. 

Aristóteles ,em especial, teve papel central na estagnação da investigação intelectual por milênios. Não por culpa pessoal, mas principalmente devido ao dogmatismo de seus seguidores.Em Platão e Aristóteles o raciocínio puro toma um status superior em detrimento do empirismo, assim a physis grega é relegada a segundo plano. Princípios aristotélicos equivocados a respeito de leis fundamentais da natureza foram normas intocadas da sociedade medieval. 
 
A partir do século III AC o misticismo oriental volta a dominar o pensamento mundial , num processo simbiótico de auto preservação o império romano lança as bases do cristianismo como forma de manter a hegemonia sobre suas colônias. Estavam abertas as portas para a idade das trevas. Esta era foi marcada por uma ruptura fundamental : o dualismo corpo, alma. O exercício intelectual foi completamente dominado pela igreja. O grande fruto intelectual deste período foi a escolástica que consistia na ideia de que sendo a fé cristã uma verdade inquestionável , buscava no platonismo e no aristotelismo a fundação racional a sustenta-la.  
A filosofia de Aristóteles não é clara e muitas vezes contraditória, suas contribuições modernas estão no campo da biologia. Tinha o comportamento de um professor e os escolásticos o elegeram como seu pensador preferido em boa medida porque tinha uma linha de pensamento apropriada para acobertar as fragilidades da escolástica. Para o homem medieval o mundo era um lugar estático ,finito e bem organizado. O primeiro pensador a romper com os dogmas medievais foi Guilherme de Ockham ,escolástico fortemente identificado com uma ética libertária  , separa a fé do pensamento racional colocando novamente a filosofia no caminho do secularismo. Do século XVI em diante, a igreja não domina mais neste campo. Evidencias de ordem pratica provavelmente decretaram o fracasso da escolástica que se demonstrou incapaz de conciliar fé e razão. Ockham , um naturalista cuidadoso, foi quem decretou tratarem-se de campos irreconciliáveis. Há de se reconhecer que os malabarismos mentais dos escolásticos legaram um grande arsenal linguístico para posteridade.   
 
O pensamento moderno surge em Florença ,Itália, com o movimento conhecido como renascimento que recoloca o homem no centro do cenário. É o humanismo que abre caminho para o surgimento dos quatro grandes fundadores da ciência como a conhecemos : Copérnico, Kepler,  Galileu e Newton. Não cabe neste ensaio descrever o trabalho destes pensadores e sim tentar entender o clima que os cercaram e que criaram.  Era dominante o aristotelismo onde o conhecimento era fruto de uma atividade puramente mental , foram estes quatro pensadores os responsáveis com o rompimento definitivo com Aristóteles. A partir deles o conhecimento seria validado a partir de uma confirmação empírica. O homem medieval que havia rompido com a natureza como fonte da verdade e do bem em favor de um Deus perfeito e inquestionável, no renascimento renova as diretrizes.
 
O empirismo traz uma mudança  de paradigma que possibilita a criação dos pilares fundamentais da nossa civilização contemporânea : o método cientifico e a tecnologia. No método cientifico a especulação filosófica fica subordinada a uma confirmação pela observação dos fenômenos naturais e sua validação poderá se converter numa tecnologia que envolve a manipulação e transformação da matéria de forma a emular ou controlar o fenômeno observado.Nada disso é possível sem o conhecimento da linguagem universal da natureza , a matemática, um tema que para uma correta contextualização caberia todo um texto histórico. Tal combinação , método cientifico, tecnologia , levou a humanidade nos últimos 200 anos a experimentar um progresso e acréscimo de conhecimento que não tinha conhecido desde o surgimento da espécie sapiens há 150 milhões de anos. Tendo a natureza como medida do bem e da verdade cada nova descoberta cientifica amplia os horizontes da condição humana . A modernidade é marcada pelo fim das certezas e regrada pelo ritmo frenético das novas descobertas  .A filosofia a partir da concepção grega hoje fica confinada a ética, a estética e a epistemologia. A partir de um ponto de vista da physis grega a especulação filosófica tornou-se um capitulo ad hoc. A quantidade e complexidade de dados gerados pelo método cientifico tornam a filosofia uma pratica impropria à mente humana para tratamento do mundo natural.Sem computação intensiva e formas de inteligencia artificial o entendimento progressivo do universo não é mais possível.  Um conhecimento decisivo proporcionado pelo método cientifico é o de que praticamente todos fenômenos outrora atribuídos a uma divindade sobrenatural obedecem princípios naturais. Limitações atávicas impedem a total compreensão humana acerca de alguns aspectos da realidade, uma barreira que eventualmente poderá ser quebrada com a criação de novas formas de inteligencia artificial, entretanto os deuses criados pela imaginação humana, hoje são totalmente obsoletos.   
 
Poucos seres humanos tentaram tão apaixonadamente entender o “espirito das eras” como Bertrand Russell. Viveu até os 97 anos que somados a sua prodigiosa intelectualidade forjaram uma temperança ímpar. Cultuava um humanismo intransigente que mesmo diante do ultimo grande filósofo da história , Friedrich Nietzsche, considerou sua superioridade uma demonstração de medo. Incapacidade de empatia e de depreendimento do sentimento fraterno. Viveu o suficiente para conhecer as duas grandes revoluções intelectuais do nosso tempo : a relatividade e a mecânica quântica, mas não o suficiente para conhecer vários de seus desdobramentos. Até hoje ninguém ousou filosofar acerca destes temas que num consenso silencioso pertencem exclusivamente ao campo da ciência. Um estado de espirito que levou físicos como Richard Feynman a desprezar a filosofia , e Stephen Hawking a declarar que a filosofia é uma linha de pensamento morta .Considero este zeitgeist do mainstream cientifico como um positivismo transcendente. A combinação em estado de arte do materialismo, do ceticismo e do reducionismo.
 Pode-se entender a ciência como uma filosofia de resultados. Utilitarista, pragmática .No método cientifico o gesto filosófico se concentra na formulação da hipótese. Entretanto, na ciência, mesmo este passo é uma técnica que pode ser reproduzida por máquinas. O  desenvolvimento cientifico agora é exponencial , em breve nos obrigará a uma revisão radical de nossos paradigmas. A integração com as máquinas mudará radicalmente os conceitos de individualidade e privacidade. O planejamento desta nova sociedade consiste em identificar e preservar nossos valores mais caros , em reconhecer nossa humanidade. Russell nos fornece pistas de quem fomos, o que somos e o que não podemos perder. A ciência fornece os meios para a consolidação de um zeitgeist desolador ou glorioso.                      
 
 
 

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