O Brasil e o feudalismo industrial, por Luis Nassif

Transpondo para o caso brasileiro, percebe-se que as políticas colocadas em prática, de 2016 para cá, consolidaram a ideia do feudalismo industrial.

O termo “feudalismo industrial” é utilizado para definir sociedades estratificadas em classes sociais fechadas, identificadas de acordo com sua propriedade ou profissões.

Com isso, perde-se o dinamismo original do capitalismo, dos tempos em que removeu as hierarquias hereditárias do feudalismo.

Segundo artigo de Hanna Szymborska e Jan Toporowski, esse conceito surgiu na Polônia na década de 1890, pelo sociólogo polonês Ludwik Krzywicki (1859-1941), quando se consolida a hegemonia social e econômicas das grandes corporações industriais. Os autores estenderam os trabalhos para os tempos atuais.

Um dos seguidores de Krzywicki, o economista Oskar Lange (1904-1965), tornou-se crítico do New Deal e da intervenção keynesiano, argumentando que eram políticas que reforçavam o monopólio de grandes grupos capitalistas. Os privilégios configuravam grupos protegidos, divididos em estratos sociais tão rígidos quanto os dos tempos medievais, dizia ele. O caminho correto do káeynesianismo deveria ser o de uma agenda antitruste progressiva e uma defesa do pleno emprego.

A idéia de ambos é que o empreendedorismo é fonte de mobilidade social. Mas a propriedade concentrada da propriedade – industrial e não industrial – induzem ao feudalismo industrial, dificultando o empreendedorismo e a mobilidade social.

Os autores constatam que, após o pico de concentração em 1910, houve uma tendência de queda da concentração de riqueza até o final da década de 1970.

Nem a crise financeira de 2007 afetou essa concentração. No final da década de 2010, o aumento da desigualdade invadiu a Europa Central e Oriental e a China.

A partir daí, os autores desenvolvem os pontos centrais do novo feudalismo.

1. As classes sociais são definidas por sua propriedade de riqueza e renda.

2. Em cada classe existe uma carteira de riqueza padrão que uma família precisa, para manter-se nessa classe.

3. Existe um piso, para que as famílias permaneçam em sua classe original, composto por classes de crédito.

4. Mas existe também um teto, que consiste na diferença de valor entre a carteira de patrimônio padrão da classe e o da próxima classe, na hierarquia de riqueza.

As disparidades de riqueza dependem dos mercados de ativos, que são influenciadas pelas políticas macroeconômicas, e não pelas características individuais das famílias. É o que comprovou a crise do subprime, nos Estados Unidos.

Do mesmo modo, pisos e tetos de classes sociais são afetados pelas políticas sociais de governos. O estado de bem estar social fortalece os pisos. Quando o Estado transforma os serviços públicos em ativos financeiros, derruba-se o piso e aumenta-se o teto. 

Transpondo para o caso brasileiro, percebe-se que as políticas colocadas em prática, de 2016 para cá, consolidaram a ideia do feudalismo industrial. Várias políticas sociais foram destruídas, experiências em financiamentos de pequenas empresas desmontadas, precarização do emprego, enquanto, na outra ponta, as políticas macroeconômicas ampliaram a riqueza financeira dos estratos de maior renda.

O grande desafio do governo Lula será trazer de volta o país para a modernidade.

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