2022: ejaculações precoces e o divórcio do BolsoDoria, por João Paulo Caldeira

Doria está pensando com a cabeça de 2016, e por isso acha que tem capital político suficiente para disputar a presidência.

Foto: Marcos Correa/PR

 2022: ejaculações precoces e o divórcio do BolsoDoria

por João Paulo Caldeira

Nas últimas semanas, apesar de estar ocupado ofendendo Emmanuel Macron, Michelle Bachelet e outros líderes internacionais, Bolsonaro também arranjou tempo para uma briguinha doméstica.

Ele e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), já vem trocando farpas há algum tempo, com aquela refinada baixaria que infelizmente nós nos acostumamos nos últimos tempos.

Nesta quarta, em encontro com jornalistas no Planalto, Bolsonaro disse que Doria pensar nas eleições presidenciais de 2022 é “ejaculação precoce”.

Ao que o governador respondeu com um ataque gratuito ao ex-presidente Lula.

Neste caso, e talvez somente neste, Bolsonaro até que tem razão.

Se Doria já está pensando em 2022, está colocando o carro na frente dos bois.

O resultado de 2016 e a avaliação equivocada

Foto: GOVESP

Doria está pensando com a cabeça de 2016, e por isso acha que tem capital político suficiente para disputar a presidência.

No pleito municipal, o tucano venceu no primeiro turno, com 53% dos votos válidos.

Vencer em SP no primeiro turno é um feito raro. Antes de Doria, o último a assumir o cargo sem precisar disputar o segundo turno foi Paulo Maluf, em 1992.

Entretanto, essa vitória talvez tenha sido menos por mérito dele e mais pelas circunstâncias daquela eleição.

Em 2016, concorreram ao cargo Fernando Haddad (PT), Celso Russomano (PRB), Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL), candidatos com peso que acabaram pulverizando os votos de um eleitorado que não iria votar no Doria.

Além disso, o tucano contou com um ajudinha da apatia paulistana. No total, os votos brancos, nulos e as abstenções totalizaram 3.096.304, número superior ao total de votos no tucano — 3.085.187.

2018: vitória apertada

A vitória nas eleições para o Palácio dos Bandeirantes em 2018 acabou escondendo algumas coisas.

Ao decidir disputar o cargo para governador, ele acabou desagradando uma parcela considerável daqueles 3 milhões de eleitores que o colocaram na prefeitura.

Porém, antes disso, sua avaliação como prefeito já havia se deteriorado.

Segundo o Datafolha, em fevereiro de 2017, 44% dos paulistanos classificaram sua gestão como ótima/boa, número que caiu para 29% em novembro do mesmo ano.

Esse índice ainda despencou para 18% em abril de 2018, quando ele decidiu deixar o cargo. Decisão que, aliás, foi reprovada por 66% dos entrevistados na ocasião.

Em suma, Doria jogou fora uma boa parte do capital político que adquiriu em 2016, e isso foi sentido nas urnas em 2018.

Sua vitória no segundo turno foi apertada: ganhou de Márcio França (PSB) por uma vantagem de 740 mil votos, em um universo com mais de 25 milhões de eleitores.

Quatro anos antes, seu antecessor e ex-padrinho político, Geraldo Alckmin, teve vida bem mais fácil: foi reeleito para o governo paulista ainda no 1º turno, com 57% dos votos.

Detalhe: na capital paulista, Doria teve 41% dos votos, contra 58% de França.

Em suma, o atual governador tem bem menos capital político do que imagina.

Isso sem contar a derrocada no PSDB no nível federal, já que o partido teve o pior resultado em uma eleição presidencial em toda a sua história.

A estratégia que vai dar ruim

Foto: Marcos Correa/PR

Como bom camaleão político que é, João Doria pulou do barco bolsonarista assim que a popularidade do presidente começou a derreter.

E isso só uns meses depois do infame “BolsoDoria” durante as eleições.

A estratégia de Doria não parece ser lá uma boa ideia contra um presidente que reage de maneira bem chucra à qualquer crítica que recebe e que parece ter pouca (ou nenhuma) noção do tamanho do cargo que ocupa.

Não é difícil imaginar que ocorram atrasos e até mesmo cortes em repasses da União para o governo estadual — ainda mais com esse governo que aparentemente quer cortar tudo que vê pela frente.

Ou, talvez, uma operaçãozinha da Lava Jato com gente próxima ao governador.

No embate entre estas duas figurinhas desagradáveis, o único ponto positivo é que talvez o eleitorado paulista acorde para a realidade depois de quatro péssimos anos.

Altamente improvável — mas não impossível.

A ver.

João Paulo Caldeira é jornalista, baixista e também escreve sobre livros e afins em seu blog: livrosdojoao.com

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