300.000 mortes por Covid-19 no dia D, na hora H, por Alexandre Filordi

Não faltaram avisos por parte da comunidade científica e jornalística, além dos diagnósticos localizados de colapso como Manaus. Hoje, o Brasil é um país colapsado.

(Le coeur sur la main, la mort dans l’âme – Fréderic Martin)

300.000 mortes por Covid-19 no dia D, na hora H

por Alexandre Filordi (UFLA)

No dia 11 de janeiro, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello anunciava: “todos os estados receberão simultanealmente as vacinas, no mesmo dia. A vacina vai começar no dia D, na hora H, no Brasil”. Tal frase nos parece, cada vez mais, um pote de tesouro embaixo do arco-íris: uma lenda.

Naquele dia, o Brasil contava cerca de 200.000 mortes. Na semana que adentramos, contaremos 300.000 mortos por Covid-19. O número, desgraçadamente, não cessará por aí.

Desde o prenúncio mágico do ministro, a explosão de mortes apenas se justifica pelo total e absurdo descompromisso com uma gestão minimamente sensata e realista voltada para a saúde da população. Não faltaram avisos por parte da comunidade científica e jornalística, além dos diagnósticos localizados de colapso como Manaus. Hoje, o Brasil é um país colapsado.

Aliás, vivemos um efeito de bola de neve mortífera, dado ao negacionismo inicial de que tudo não se passava de uma gripezinha. Isso pode ser chamado de pensamento mágico. Há uma fase nas crianças em que operam assim: creem que o poder de suas crenças e imaginações estão acima da realidade. Um adulto pode ser considerado infantilizado quando não enxerga o dado objetivo ou a realidade acima de sua crença subjetiva. É isso que faz, por exemplo, um grupo de religioso pensar que suas preces em um posto de combustível impedirão os preços de subir.

Mas há outro giro nessa história. O que enfrentamos desde o início da pandemia, mas também antes mesmo dela, é um tipo de gestão pública conivente ao racismo de Estado. Se não fosse assim, o relatório recente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos não apontaria o Brasil como laboratório de mortes violentas, racismo consumado, perseguição e extermínio sistemáticos às minorias etc. (Confira aqui: http://www.oas.org/pt/cidh/relatorios/pdfs/Brasil2021-pt.pdf).

Na última aula do curso Em defesa da sociedade, Michel Foucault nos apresentou o racismo de Estado. Duas características são importantes. De um lado, o racismo de Estado é “o meio de introduzir afinal, nesse domínio da vida de que o poder se incumbiu, um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer”. Aqui, o objetivo do racismo de Estado é produzir uma “maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros”.  Ou seja, deixar morrer é um acumpliciamento político que fortalece convicções, relações de poderes, perspectivas políticas etc., porém, sempre voltadas para as próprias convicções da vida que interessa ao racismo de Estado.

De outro lado, o racismo de Estado institui a perversão de uma guerra biológica constante: “quanto mais você deixar morrer, mais, por isso mesmo, você viverá”, isto é, a morte do outro fortalece a vida de quem deve viver e as convicções que a suportam. “A morte do outro não é simplesmente a minha vida, na medida em que seria minha segurança pessoal; a morte do outro, a morte da raça ruim, da raça inferior (ou do degenerado, ou do anormal), é o que vai deixar a vida em geral mais pura”. Daí as razões de se querer acabar com a “raça” dos esquerdistas ou dos povos indígenas, por exemplo.

A política da cloroquina; a defesa do tratamento precoce sem sustentação científica; a inação na compra das vacinas; o distrato ético com o povo chinês; as notícias falsas sobre a vacina como experimento ou com nano chip para se controlar a pessoa; o argumento de que não se pode parar em nome da economia; campanhas do nível #AglomeraBrasil; a promessa de vacinação em dias inexistentes e em horas atemporais, enfim, tudo isso compõe esse racismo de Estado. E sobre isso, assevera contundentemente Foucault: “do racismo no exercício de um poder assim: é a condição para que se possa exercer o direito de matar”.

Levando isso em conta, nada nos servirá a troca do ministro da Saúde. Pode ser qualquer um. Se o cargo em questão continuar sendo peça de subserviência ao racismo de Estado, a situação será semelhante àquela narrada por Primo Levi em Isto é um homem? Nos campos de concentração existiam os “proeminentes” judeus, “um triste e notável fenômeno humano”, nos termos de Levi.

Os proeminentes judeus aceitavam, em troca de “certo conforto e uma boa dose de probabilidade de sobrevivência”, serem espécie de capatazes e algozes dos demais judeus. Eis os termos de Levi: “ele [o judeu proeminente] será subtraído à lei comum e se tornará intangível; será, então, tanto mais odioso e odiado quanto maior poder a ele concedido. Quando lhe for confiado o comando de um grupo de infelizes, com direito de vida e morte sobre eles, será cruel e tirânico, bem sabendo que, se não o for bastante, outro, julgado mais idôneo, tomará seu lugar”.

A questão que se coloca em tudo isso é: quem são os políticos e os gestores “proeminentes” no Brasil atual? A resposta fala das consequências que vivemos na pandemia com o seu indelével racismo de Estado. Afinal, “morre gente todo dia por série de causas. É a vida!”, disse o proeminente maior.

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