A encruzilhada da grande burguesia brasileira, por Rogério Maestri

O desarranjo da economia capitalista internacional não está basicamente na transferência da sua indústria da matriz para os estados periféricos, mas sim na incapacidade dos impérios continuarem a extrair mais valia dos principais países periféricos

A encruzilhada da grande burguesia brasileira

por Rogério Maestri

Que a grande burguesia brasileira não tem um projeto de lucrar no país e somente lucrar com a exaustão do país, começa a ficar claro, entretanto o problema para os abutres do Estado Nacional começa a ficar mais grave com a disfuncionalidade do governo atual.

Já é um consenso da intelectualidade que possui uma capacidade de saber que somando dois mais dois resulta quatro, que por características históricas jamais a grande burguesia nacional conseguiu aceitar um projeto nacional que não fosse atrelado a uma economia exportadora primária. Durante curtos períodos da história do Brasil república alguns grandes industriais que abandonaram a lógica extrativista, sonharam na formação de um capitalismo nacional com forte apoio do Estado, esses períodos foram interrompidos a medida que os setores industriais retiraram um pouco da lucratividade das tradicionais oligarquias rurais exportadoras e com a reação dessas últimas o sonho do capitalismo nacional virou fumaça.

Estamos num ciclo em que quem comanda a economia são os setores oligárquicos exportadores, porém tanto para esses setores extremamente dependentes criou-se uma segunda barreira que, excetuando em períodos extremamente curtos, se erguia para a burguesia como um todo, ou seja, a incapacidade do governo de gerenciar até mesmo um sistema de supremacia do setor exportador para o recolhimento do butim acumulado durante uma fase em que havia um certo equilíbrio entre o setor exportador e uma indústria de baio nível tecnológico, mas com alguma capacidade de criar um excedente.

Essa fase de incapacidade gerencial é combinada com um desarranjo na economia global em que para os setores industriais do Imperialismo Internacional perde o controle da indústria pela transferência de seus ativos aos países orientais, enquanto a transferência dos ativos era somente de artigos de segunda linha sem a perda do domínio da tecnologia, o Imperialismo estava em crescimento mudando o seu foco para a financeirização.

A financeirização tem um problema extremamente grave, a volatilidade dos mesmos e a não garantia de controle dos novos produtores de industrializados quando esses independem dessa financeirização para prosseguir seus negócios. Todas as vezes que países de industrialização mais tardia criam seus próprios sistemas financeiros os lucros das matrizes minguam levando a guerras que tentam destruir a capacidade industrial das potências emergentes, tanto a primeira e a segunda guerra mundial foram produtos do crescimento da indústria alemã apoiada por seus próprios meios de financiamento. Criou-se uma expressão que esse impasse “a armadilha de Tucídides”, uma teoria resultante da escolha “como um Buffet” dos conflitos da humanidade, ou seja, escolhe-se a descrição da queda de um império a partir de verdadeiras hipóteses de lutas que transferiram de um para outra região o domínio territorial, mas a falácia dessa hipótese será descrita em outro artigo.

Voltando às origens do texto, o desarranjo da economia capitalista internacional não está basicamente na transferência da sua indústria da matriz para os estados periféricos, mas sim na incapacidade dos impérios continuarem a extrair mais valia dos principais países periféricos, simplesmente porque alguns se negam a continuar periféricos e deixam de fazer uma economia voltada para transferência de renda aos velhos países Imperialistas, ou seja, adotam novas condições de troca em que vão aumentando cada vez mais o valor agregado de seus produtos por introdução de novas tecnologias fabris. Dois exemplos claro da desconforto dos USA com a China é a ultrapassagem da mesma na tecnologia de telefonia e por mais incrível que possa parecer, o fantástico e infantil TikTok, o primeiro demarca a superação numa tecnologia industrial consagrada, a telefonia, e o segundo o bloqueio do mercado chinês para o riquíssimo mercado da diversão digital. O TikTok é somente um pretexto, pois o que está em jogo é o mercado de softwares no mundo, os chineses baseados num mercado interno de mais de um bilhão de pessoas criam seus softwares que no momento oportuno substituirão por completo a centralizada produção norte-americana por produtos testados e otimizados num mercado que para isso tem um público cativo muito maior que o norte-americano.

Com a aliança entre a Rússia e China, em termos militares será impossível enfrentar esses dois países juntos, pois se valendo a experiência militar desenvolvida durante a época da União Soviética, a Rússia tornou-se um polo de inovação tecnológica em indústria de armamentos, transferindo tecnologia para a China que os replica em quantidades fantásticas. Os aliados orientais dos Estados Unidos têm feridas que podem ser abertas a qualquer momento e esses seguirem o polo Chinês-Rússia, não podemos esquecer que todos os orientais passaram no mínimo um século de humilhações perante os imperialistas Atlantistas e por mais que os japoneses, por exemplo, gostem de algumas coisas dos norte-americanos, as bombas de Hiroshima e Nagasaki estão presentes nas suas memórias.

 Mas até aqui onde está o dilema da burguesia brasileira? Simples, apostar no cavalo errado além disso ter seus cavalos com as pernas quebradas é um caminho sem volta. Explico melhor. Devido a perda de mercados orientais, restará para os poderes imperiais norte-americanos superexplorar o quintal latino-americano e para tirar o máximo desse pedaço de terra levarão a exaustão o solo, ou seja, durante todo o período de decadência dos impérios centrais restarão somente no oriente parte da Índia e a América-Latina, pois a África está caindo nas mãos dos chineses, o resto do oriente está se consorciando ao Império do Centro e a Europa tentará manter parte da África sobre o seu poder. A partir dessas considerações fica simples intuir que apesar da burguesia brasileira adorar colocar orelhas do Mickey não há espaço para toda ela na Flórida.

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8 comentários

  1. E para piorar ainda mais o dilema, caro Maestri, não se pode esquecer que esta vitória (geopolítica e econômica) Sino-Russa sobre o Ocidente, talvez seja breve e a última do capitalismo, pois a produção de mercadorias na chamada economia real dá cada vez menos lucros. E um dos pilares do sucesso chinês foi a oferta de mão de obra barata, qualificada e quase sem direitos, diminuindo os custos com a superexploração do trabalho. Se o salário médio chinês começar a aumentar, suas empresas vão partir para a automação, promovendo desemprego estrutural, como já ocorre na Europa e EUA.

    Ou seja, a ascensão da China não vai mudar o curso de colapso do capitalismo, que certamente pegará o Ocidente em péssima situação (de decadência), mas que não poupará os vencedores orientais.

    • Wilton, meu caro, concordamos praticamente em 100% nos artigos escritos por um e comentados por outros, porém vou apresentar uma discordância que apesar de ser pequena em termos de realidade nacional é imensa em termos de análise da estrutura global, o desemprego estrutural na China.
      Vejo em 100% dos críticos de direita e numa pequena parcela dos críticos de esquerda sempre um ranço que é mais produto de uma falta de informação ou de uma informação retirada da imprensa especializada internacional de economia mesmo de viés marxista, o assunto do aumento salarial Chinês como um prenúncio de perda de competitividade dessa, da automação e do desemprego estrutural.
      Vamos aos fatos: O salário médio na China vem aumentando ano a ano e só para exemplificar colocarei alguns anos
      1995 – 5500
      2010 – 37147
      2012 – 47593
      2014 – 57361
      2016 – 68993
      2018 – 84744
      2019 – 93383
      Paralelo a isso até o início da pandemia o número de desempregados vinha caindo de um máximo de 4,6% em torno de 2004 para menos de 3,9% em 2018, onde fecharam uma série de indústrias de baixa produtividade e a taxa subiu para algo em torno de 5%, no início da pandemia subiu a 6% mas já caiu nos últimos meses.
      O salário-mínimo é regional, sendo que nas regiões mais ricas são 2.000 RMB (US$305 sem considerar o valor por custo de vida) que levaria o salário a valores a mais que o dobro conforme a região. As regiões mais pobres o salário-mínimo é bem menor 1150 RMB, mas são regiões não industriais.
      Por outro lado, os salários nas regiões industriais são em torno de RMB 9.700RMB que representa algo em torno de US$1.300, além do salário o empregador tem um custo social de 37,25% de seguro social e fundo de habitação. A contrário do que se pensa o coeficiente de Gini caiu de 0,491 em 2008 para 4,65 em 2016.
      A legislação trabalhista chinesa não permite mais do que 40 horas por semana e no máximo 36 horas extras por mês, apesar dessa lei nas empresas de tecnologia, principalmente empresas como Alibaba, o funcionário que não trabalha fora do máximo (12 horas por dia) é considerado preguiçoso e é mal visto pelos demais.
      Mas só esses números não dão uma ideia do mercado do trabalho na China, tem-se que analisar a aposentadoria chinesa, que é 50 anos para as mulheres e 60 anos para os homens, na China aproximadamente 89% dos homens se aposentam antes do 65 anos e mudanças nessa legislação por FALTA DE MÃO DE OBRA está encontrando fortíssimas resistências na população do país.
      Entretanto o verdadeiro mistério Chinês está na ocupação OBRIGATÓRIA de pessoas nos serviços, ou seja, como a OMC não está ligando para a quantidade de pessoas ocupadas nessa área, os chineses mantêm o câmbio artificialmente desvalorizado para permitir a exportação através de uma indústria que paga salários razoáveis e compensa pela taxa de câmbio.
      Se a China vai manter assim, não acredito, provavelmente sobre o controle do PCCh, em determinado momento vai reverter a privatização de grandes setores para diminuir a disparidade interna. A China está se capitalizando e automatizando a sua indústria e toda essa conversa que haverá desemprego estrutural está exatamente na direção contrária de todos os FATOS.

      • E muito provavelmente, caro Maestri, o pleno emprego permanecerá na China por muito tempo, como na Alemanha e Coreia do Sul também, por serem nações pujantes e fortemente industrializadas. Mas a questão do desemprego estrutural envolve também a diminuição da qualidade do emprego (aumento de temporários, terceirizados, precários, informais etc) que, na China, já não é bom. Eu duvido que vá haver melhoras neste aspecto por lá pois, além do câmbio, a superexploração do trabalho ainda é uma vantagem chinesa.
        Meu argumento é que o aumento da automação causa desemprego nos países menos dinâmicos (como Espanha, França e Itália p exemplo) e precariza o emprego nos países que sugam a indústria para si, como Alemanha, China e em parte os EUA, ainda bastante industrializados. Como o trabalho na China já é bastante precário, minha aposta é que eles nunca vão conseguir criar bons postos de trabalho (bem remunerados e com proteções sociais) para a a maioria da população, como acontece na Alemanha, por exemplo (que, aliás, está precarizando aos poucos seu mercado de trabalho, se achinesando).
        A China já é um país central do capitalismo, o mais rico, dinâmico, com pleno emprego e sem miséria, e com certeza o será ainda mais: será o império. Mas a maior parte do seu povo não atingirá a classe média e será precarizada, em termos de trabalho. Creio que não há mais espaço para nações desenvolvidas (ricas e com razoável distribuição de renda) no mundo atual. Sem falar nos problema ecológico e de falta de insumos causado por um bilhão de chineses com nível de consumo de Portugal (um país nem tão rico), por exemplo,

        • Muito mais sincera e comovente foi a minha visita à casa do Trotsky, em Coyoacán, na Cidade do México. Era uma tarde de quinta-feira e lá não havia ninguém, o silêncio era a maior companhia na visita, estávamos eu e um jovem amigo. Eu lhe expliquei a casa toda, até as marcas de bala do atentado liderado pelo Siqueiros ainda estão nas paredes. No singelo escritório só não está a pequena picareta de gelo usada pelo Ramón Mercader para matar o Velho com um forte golpe de cima pra baixo, bem no meio da cabeça dele. No quintal-jardim bem cuidado, estão as duas sepulturas bem simples, Trotsky e Natasha, olhei em silêncio por minutos e fiz uma saudação comunista em respeito ao supremo comandante do Exército Vermelho, e fui embora. As gaiolas de coelhos, que ele adorava cuidar, ainda estão lá, só que vazias. Fui embora no fim da tarde calma, no portão eu me virei para trás, para um último olhar à casa e à sepultura de Trotsky e Natasha.
          Stalin mandou Mercader até o México para matar Trotsky. Mas Stalin era um assassino psicopata, porque o crime era desnecessário.
          Quem ainda não leu, deve ler “O Zero e o Infinito” do Koestler. Está tudo lá, explicadinho. A maior revolução libertária da história da humanidade, que a meio caminho se perdeu.
          Ainda na Cidade do México, eu tentei localizar o cruzamento no centro onde morreu Victor Serge, um bolchevique belga que estava em Petrogrado em 1917, depois foi preso pela TCHECA e expulso da URSS. Ele morreu dentro de um táxi na capital mexicana, mas o local não foi marcado e preservado.

          • Sei de um amigo meu que fez a visita a casa de Trotsky com a mesma solenidade terminando a visita na Coluna Funeral de Leon Trotsky, ou seja, junto ao local que estão as cinzas do revolucionário.
            Estava este meu conhecido e suas amigos todos imbuídos de um espírito de adoração e se aproximaram da coluna da mesma forma que um católico se aproxima de um túmulo de um santo, só que estavam tão concentrados que chegaram bem próximos a coluna.
            Nesse momento um disse, estamos pisando sobre o corpo do camarada, neste momento todos saltaram para trás numa espécie de ato de contrição por ter feito aquele sacrilégio, todos eram materialistas e ateus e se comportaram como velhinhas carolas frente ao túmulo de um santo.
            Depois quando saíram, pensaram melhor e deram rizadas pelo ridículo que fizeram.
            O culto a personalidade de Stalinistas e Trotskistas é do mesmo nível, ou seja, algo ridículo.

    • “É a nova versão do catolicismo irlandês”, disse Eugene O´Neill do marxismo, já faz um século. Não existe isso: “colapso do capitalismo”. É fantasia, é só um desejo profundo transformado em narrativa. Os países ricos continuarão ricos, porque eles nunca perdem dinheiro, NEVER.
      Karl Marx inventou uma ferramenta teórica que às vezes é útil para analisar a história do mundo. Mas nem sempre. Alguns anos atrás eu visitei o túmulo dele no cemitério Highgate, em Londres. Comprei umas rosas brancas na porta e coloquei na sepultura. Mas eu só tive uns poucos minutos para honrar o velho alemão barbudo, porque logo apareceu um grupo de turistas velhos, que se perfilaram diante da sepultura, um velho aleijado mal parava de pé, apoiado nas muletas, eu o ajudei, eles começaram a cantar a Internacional, eu cantei junto, eles levantaram os punhos fechados, eu não, tão triste a cena toda.
      Hoje, os livros de Marx só servem para acumular pó nas prateleiras das bibliotecas, já que ninguém mais lê isso.
      “O marxismo foi uma brilhante mistura de filosofia alemã, economia inglesa e socialismo francês”, já se disse. Está morto, tão morto quanto o freudismo.

      • Esquece, meu caro, da lei da queda tendencial da taxa de lucro, que está cada dia mais clara e que está levando a queda do investimento no primeiro mundo. Muitos acham que essa queda de investimento é devida a entrada da China no comercio internacional, porém a China também está sofrendo os efeitos dessa lei. Olhe com cuidado o assunto e não fique pensando que os pensamentos de Marx estão mortos.

  2. Tudo muito bonito, tudo muito ilustrado, tudo muito culto. Parabéns aos dois debatedores, mas pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, nós temos de achar um candidato para a eleição presidencial de 2022. AGORA.
    Porque é a eleição que vai decidir o próximo Presidente da República, e é o presidente quem manda no Brasil.
    Por favor, não temos candidato contra Jair Bolsonaro.

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