A fala de Guedes sobre as empregadas domésticas e suas prováveis repercussões na sociedade, por Wagner Iglecias

Presumo, por outro lado, que entre seus pares do mercado financeiro, onde é amplamente apoiado, a fala do ministro não tenha surtido maior efeito.

O futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, fala à imprensa após reunião com a Comissão Mista de Orçamento, na Câmara dos Deputados.

A fala de Guedes sobre as empregadas domésticas e suas prováveis repercussões na sociedade

por Wagner Iglecias

Seria interessante ver alguma pesquisa de opinião que tenha mensurado o impacto da fala do ministro Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas. Nas bolhas de esquerda não se fala de outra coisa desde ontem, num sentimento que vai da indignação mais sincera até a perspectiva política – em meio a esse deserto de ideias que é a esquerda brasileira hoje – de ao menos desgastar um pouco a imagem do governo.

Presumo, por outro lado, que entre seus pares do mercado financeiro, onde é amplamente apoiado, a fala do ministro não tenha surtido maior efeito. Pelo contrário, as expectativas de recorde de pontos da Bolsa e realização de lucros talvez inéditos têm monopolizado a atenção desse pessoal. O desemprego, o subemprego, os moradores de rua e as empregadas domésticas são assuntos que não lhes chamam a atenção.

Na classe média tradicional provavelmente tenha havido concordância com a essência digamos “sociológica” da fala de Guedes, dado o desconforto demonstrado por estes setores com as mudanças nas posições relativas de status ocorridas nos governos do PT, quando os de baixo passaram a almejar algo a mais na vida que empregos de salários irrisórios e humilhações cotidianas.

No povo, na massa, sabe-se lá como bateu a fala do ministro. Se é que bateu. Na perifa, no subúrbio, na quebrada a preocupação da imensa maioria é comida na mesa. Que é batalhada nesse ambiente econômico cada vez mais individualista e selvagem, permeado por crescente dose de fé religiosa e mentalidade empreendedorista.

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Se experiência pessoal vale de alguma coisa em debate público digo que tive o privilégio de viajar algumas vezes aos EUA, país onde o serviço de uma empregada doméstica é caríssimo. De todo modo vi, sim, empregadas domésticas brasileiras por lá, especialmente nos parques da Disney, tanto na Flórida quanto na Califórnia. Todas vestindo uniformes e atuando como babás dos filhos de turistas brasileiros. Estes mesmos que muito provavelmente ajudaram a eleger o governo do qual Guedes faz parte.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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1 comentário

  1. Não repercutiu porque não era para repercutir, o problema não é empregada na disney, ou um dólar mais forte ser vantajoso a atividade econômica interna. A pasta, como o resto deste deserto de ideias recheado de fakenews, está é produzindo factóide, o problema é que o governo não tem controle sobre a saída de dólares, não sabe quanto vai durar e não tem ideia do efeito desta saída sobre a economia. Ele, um devoto dos mercados, aposta que vai dar certo, mas é uma aposta, não tem qualquer base, acredita na famosa mão invisível, mesmo depois de 2008. Se isto fizer a economia deslanchar a inflação explode.

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