A volta dos cascateiros!, por João Feres Júnior

A volta dos cascateiros!

por João Feres Júnior

Outro dia ouvia o programa de jornalismo-comédia de Seth Meyers quando ele anunciou que os senadores republicanos se apressavam para passar uma reforma tributária que vai cortar os impostos das grandes empresas e dos muito ricos, enquanto aumentará o imposto pago pela classe média e pelos pobres no médio prazo. Trump trombeteia em seu estilo histriônico e oligofrênico que a redução dos impostos proposta por seu partido será enorme, a maior de todos os tempos, escondendo o fato de que ela é altamente regressiva – ainda por cima cancela um imposto que é fonte de financiamento do programa de saúde de Obama, deixando milhões sem assistência médica. 

Ao fazer isso, o presidente estadunidense comete mais um estelionato eleitoral. Os brancos pobres e a classe média branca ignorante que votou em Trump estão entre os setores que mais perderão com a reforma tributária dos republicanos.

É difícil não fazer um paralelo com o que ocorre no Brasil. A Reforma Trabalhista, aprovada pelo Congresso, foi defendida pelo Governo Temer e pelo mercado como um instrumento de indução de mais empregos e de aumento da competitividade internacional da produção brasileira. Na verdade, a única coisa garantida é que vai fragilizar ainda mais os trabalhadores brasileiros, particularmente os mais pobres. A Reforma da Previdência idem. É um saco de maldades contra os pobres que dependem da previdência, enquanto poupa em grande medida as aposentadorias polpudas das elites burocráticas do setor público. Mas assim como a trabalhista, tal reforma é alardeada como instrumento necessário para equilibrar as contas públicas, salvando, ao mesmo tempo, a previdência.

O elemento comum mais profundo que une os infortúnios do povo brasileiro e estadunidense pode ser denominado de Volta dos Cascateiros. Sim, esse é um trocadilho que junta o significado popular da palavra, contador de lorotas, com uma alusão ao efeito cascata, ou tricke down effect, como os gringos o conhecem. Sim, aquela tese de que a transferência de riquezas para os mais ricos acaba por transbordar para as classes subalternas, via aumento de seu investimento e consumo, produzindo um ciclo virtuoso de crescimento e desenvolvimento geral da sociedade. Trata-se de mentira da grossa, sem qualquer base empírica. Se há uma coisa que os mais ricos fazem quando recebem ainda mais recursos é entesourá-los, canalizando-os para o mercado financeiro, não raro na forma de depósitos em contas no exterior e de outros esquemas de evasão de impostos.

As reformas de Trump e Temer são isso, grandes planos de transferência de mais recursos para os mais ricos, sob o pretexto do efeito cascata. Os profetas dessas grandes soluções, os cascateiros de plantão, são os tradicionais sabujos do mercado, sejam eles alocados formalmente em altos cargos públicos, no sistema político, na academia, na indústria ou no próprio mercado. Há uma diferença crucial, contudo, entre os dois exemplos. Temer não comete estelionato eleitoral. Nunca foi eleito e governa em detrimento de sua popularidade.

Falando em popularidade, ano que vem tem eleição, ou seja, o teste maior de popularidade dos políticos. Resta saber quem vão ser os defensores da agenda hoje encabeçada por Temer e pelo mercado. Nos EUA, Trump conseguiu operar um milagre de mistificação popular, fazendo com que pobres e ignorantes brancos de classe média votassem contra seus interesses mais imediatos. Aqui no Brasil quem ou o que vai operar esse milagre? Será que a grande mídia dessa vez ganha a eleição, por meio de uma campanha de mistificação nunca antes vista na história deste país? Será que Bolsonaro consegue fascistizar gente o suficiente para pelo menos ir ao segundo turno? Será que burocratas do mercado e janotas reacionários como Meireles, Alkmin ou Dória conseguem convencer a maioria do eleitorado brasileiro a aceitar a continuidade de sua própria imolação? Difícil, bem difícil.

Ao fim, ao cabo, me parece cada vez mais crível a hipótese de golpe parlamentar nas eleições vindouras.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora