Agora é que Lula está preso, junto conosco, por Flavio Morgado

E para além de toda adoração que possa envolver em sua soltura, olha-lo, nesse específico cenário, como um corpo de alegria é quase reconhecer que agora é que ele está preso, junto conosco.

Agora é que Lula está preso, junto conosco

por Flavio Morgado

Pensar esse nosso momento de polaridades é possível por vários prismas: moral, ético, estético, histórico. Mas essa soltura do Lula e o seu discurso me fizeram pensar a partir da narrativa criada por cada lado.

Bolsonaro é o irascível, tá sempre ao ponto de explodir e mesmo o seu sorriso é de uma simpatia psicopata. Tem a fala embrutecida não como a de um sertanejo, mas como a de um miliciano, um demiurgo. Reativo, é o próprio ariano mal aspectado. Tem os gestos duros, o mau gosto, o embotamento ignorante. As mãos fazem armas, as palavras são de ódio, revanche, matança, fuzil, repressão. As memórias são as dos porões, sempre no lado do porrete. E mesmo Deus, é um Messias pronto ao octógono.

Lula veste preto desde a morte de Dona Marisa e não deixou de se apaixonar ainda assim. Apareceu elegante e saudável em todas as aparições públicas durante a sua prisão. Escorpiano, mesmo a sua vingança é toda envolvência. Pediu uma esteira ergométrica. Prometeu uma rodada de seleta com o capitão da Morte. Saiu sorrindo, altivo, beijou sua nova companheira, falou só de amor, de reforma, de retomada, de manutenção da alegria. Tinha livros em todas as suas fotos de depoimento. Recebeu mil rosas.

Lula é um corpo alegre, e isso é irrefreável. E para além de toda adoração que possa envolver em sua soltura, olha-lo, nesse específico cenário, como um corpo de alegria é quase reconhecer que agora é que ele está preso, junto conosco. Que sempre estivera livre, e que sempre será livre, e talvez isso até nós possa também redimir a cabisbaixa envergadura dos últimos anos.

Leia também:  O tango de Bolsonaro, por Ricardo Cappelli

Não creio que ele seja por si só uma salvação, mas ainda é o meu mais vivo Macunaíma: nosso único herói possível.

é seu?

Flavio Morgado é historiador.

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3 comentários

  1. Lula e $érgio Moro têm o mesmo modus operandi. Ambos foram chamados de canalhas por Bolsonaro e por Lula, respectivamente, mas nem o Lula nem o Moro responderam.
    Aliás, o $érgio Moro respondeu ao Lula dizendo que não responde a criminosos. Logo, o Lula não é criminoso, pois não há sentença penal condenatória transitada em julgado contra ele. Por esta razão, o $ Moro lhe respondeu e pela mesma razão o Lula não respondeu ao Bolsonaro, que o chamou de canalha

  2. Um Coxinha afirma que a prisão penal após condenação do réu por órgão judicial colegiado e antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória é constitucional, estando prevista no inciso LXI do art. 5º da CF.
    O dispositivo constitucional supracitado sequer fala em órgão judicial colegiado ou em segunda instância.
    Zuristas vêem pelo em ovo e tiram leite de pedra, de cláusula pétrea.

  3. O Jurista Li de Brusque afirma que a interpretação segundo a qual o inciso LVII do art. 5º da CF veda a prisão penal antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória é inconstitucional, porque entra em conflito com o Inciso LXI do art 5 da CF.
    Ora, Sr. Li de Brusque, a interpretação segundo a qual o inciso LXI do art. 5º da CF permite a prisão penal após condenação criminal pela segunda instância é igualmente inconstitucional, pois entra em conflito com o Inciso LVII do art 5 da CF.

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