Arcaísmos e insustentabilidade de uma riqueza infértil, por Arnaldo Cardoso

Nos últimos anos analistas vem acompanhando com crescente atenção a chamada geopolítica do comércio.

Arcaísmos e insustentabilidade de uma riqueza infértil

por Arnaldo Cardoso

Depois de ocupar por meses o noticiário nacional e internacional com dramáticas imagens de incêndios fora de controle no Pantanal e outras áreas de seu território e, mais recentemente, com notícias sobre o agravamento da pandemia do coronavírus ameaçando colapsar seu sistema de saúde, o Mato Grosso, terceiro estado do país em extensão territorial (903.357 km²) voltou a ganhar espaço de mídia, desta vez, por recordes de produção e exportação do agronegócio,  mesmo em meio a uma avalanche de números negativos da economia mundial.

O estado que faz fronteira com Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Amazonas, Rondônia, Tocantins e com a Bolívia e cuja área corresponde a quase três vezes a da Itália, dez de Portugal e o dobro da Espanha, e com uma população de apenas 3,2 milhões de habitantes, ostenta orgulhosamente o título de maior produtor nacional de soja (35 milhões de toneladas) correspondendo a 26% da produção nacional, além de ser detentor do maior rebanho de gado do país (32 milhões de animais) e líder nacional na produção de milho, com 33 milhões de toneladas. Mas a esses números tão reluzentes, festejados por uma parcela de mato-grossenses como demonstração de uma prosperidade sem fim, são também objeto de análises críticas nacionais e internacionais pelo quanto há de arcaísmos e insustentabilidade num modelo de crescimento que se apresenta como novo, mas que já nasceu velho.

Na semana passada, o jornal britânico Financial Times publicou a matéria “Brazil’s new frontier is transforming its fortunes — but at what cost?” assinada por Bryan Harris e traduzida pelo jornal Folha de S. Paulo com o título “Mato Grosso transforma seu destino com boom movido por China, fé e Bolsonaro”, na qual um número considerável de variáveis, inclusive algumas entrevistas com cidadãos locais, são costuradas compondo um cenário que precariamente se equilibra sobre as marcas da prosperidade material e os sinais evidentes de desequilíbrios e destruição ambiental e social.

No subtítulo da versão em português “Estado enriquece, mas deixa rastro de destruição ambiental” a questão ambiental soa como uma “externalidade negativa” incontornável. Caberia bem um link nesse ponto remetendo a inúmeras pesquisas e demonstrações de viabilidade de outros modelos de agricultura, sustentáveis tanto no aspecto ambiental quanto econômico e social.

No início da matéria o boom do agronegócio nas duas últimas décadas no estado é  explicado por uma combinação de fatores como: mudanças geopolíticas, ascensão da China, crescimento da demanda internacional por commodities agrícolas e, mais recentemente, a chegada de líderes populistas ao poder, como o presidente Jair Bolsonaro, com discurso marcado por apelos ao nacionalismo, valores tradicionais do campo, negação da ciência e de alertas sobre riscos da destruição ambiental e pregação de uma teologia da prosperidade.

A matéria do Financial Times também lembra que a expansão do agronegócio no estado do Mato Grosso tem tensionado a fronteira com o estado do Amazonas e produzido o aumento do desmatamento ilegal.

Um dos empresários ouvidos pela reportagem ao tratar das exportações de soja destinadas à China, fez a seguinte avaliação “Poderíamos esbofetear a China e ela ainda viria comprar nossa soja, porque não tem outra opção”. Esse tipo de arrogância pouco informada que também emana do Palácio do Planalto, vem produzindo seguidos danos para as relações diplomáticas e comerciais do Brasil com o gigante asiático com o qual temos nosso principal fluxo comercial.

Nos últimos anos analistas vem acompanhando com crescente atenção a chamada geopolítica do comércio. Destacadamente desde 2019, quando em meio à guerra comercial entre Washington e Pequim, a Administração Geral das Alfândegas da China passou a liberar a importação de soja de todas as regiões da Rússia, os volumes desse comércio só se expandiram e a cooperação agrícola entre os dois países ganhou tratamento estratégico, atendendo a interesses geopolíticos das duas potências.

A Rússia que é um dos maiores exportadores de trigo do mundo vem canalizando crescentes investimentos para a expansão de produção de grãos, dentre os quais a soja.

Também merece atenção a assinatura em 2020 do acordo comercial conhecido como Parceria Econômica Abrangente Regional (Regional Comprehensive Economic Partnership – RCEP) entre os dez países da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) mais a China, o Japão, a Austrália, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia. Esse acordo tem por objetivo fortalecer as cadeias de abastecimento da região.

Em exercícios de simulação de cenários, tendo em perspectiva as reconfigurações da geopolítica dos alimentos, o agronegócio russo tem ganhado espaço e projetado incógnitas, sobretudo sobre seu potencial de crescimento. A Rússia vem também marcando posição na produção e exportação de frango e carne suína para a China. Atualmente a Rússia exporta cerca de 42 milhões de toneladas de grãos ao ano e tem anunciado seguidos investimentos, especialmente em logística de grãos, projetando crescimento de 40% para os próximos dez anos.

Cabe também aqui destacar as recentes declarações do presidente francês Emmanuel Macron com promessas de expansão da produção de “soja europeia”. O presidente francês que tem na defesa de uma nova agenda ambiental global uma de suas marcas, tendo liderado a campanha pelo Acordo do Clima de Paris, é um opositor ferrenho da postura do atual governo brasileiro em temas ambientais. Em recente encontro com o presidente de Portugal fez declarações de ampla repercussão como “continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia” e “Quando importamos a soja produzida a um ritmo rápido a partir da floresta destruída no Brasil, nós não somos coerentes”.

No final de 2020 Macron prometeu aos agricultores franceses ampliar em 40% as áreas destinadas ao cultivo de plantas ricas em proteínas, como a soja. Tais declarações foram vistas pelo governo brasileiro como propaganda eleitoral de Macron visando as próximas eleições e recaída protecionista.

É de fato sabido que a França trata a sua agricultura como fator de segurança alimentar e social. Organizada por meio de pequenas e médias propriedades produtivas, o campo na França é tratado como questão estratégica. A França enfrenta críticas, por medidas protecionistas, até mesmo de seus pares de bloco, como da Itália que é também um importante produtor agrícola.

Também a Alemanha vem reorientando suas ações no campo da segurança alimentar com inúmeros programas incentivando práticas sustentáveis de seus agricultores e com financiamentos de projetos e cooperação técnica com países fornecedores de alimentos.

No Reino Unido não é diferente, e o que se vê por lá é uma legislação cada vez mais rigorosa com a rotulação de alimentos e conscientização dos consumidores.

Muitos analistas têm apontado para uma tendência para o pós-pandemia de um aumento exponencial de campanhas governamentais e iniciativas da sociedade civil organizada de países pelo mundo com foco em segurança alimentar e defesa de práticas de plantio, cultivo, manejo e processamento sustentáveis.

É também esperado do novo governo norte-americano um efetivo engajamento nessas questões. O primeiro sinal foi dado com o retorno dos EUA ao Acordo do Clima de Paris.

Sobre aspectos da matéria do Financial Times sobre o Mato Grosso consultamos Luís Henrique Soares Gatto, sociólogo, advogado, mestre e doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP que teceu importantes considerações agregando informações ausentes na matéria, que ganham força dado ao fato de Soares Gatto ser cuiabano e ter dedicado anos de estudo e pesquisa sobre o seu estado natal.

Soares Gatto nos conta que “Em meados da década de 1990 essa região do norte, médio norte do Mato Grosso, onde situam-se as cidades de Sinop e Sorriso já era chamada de capital do norte, inclusive alimentava propostas de divisão do estado, de criação do Mato Grosso do Norte. Por um tempo essa ideia foi defendida, hoje perdeu força. Os sulistas chegaram nessa região com uma mentalidade diferente, provocando um choque cultural”.

A menção feita por Soares Gatto é sobre o fluxo de brasileiros do sul, orgulhosos de sua ascendência europeia, que emigraram para o Centro-Oeste ainda durante a ditadura militar – como também aconteceu no Norte do país – entusiasmados com o discurso de “celeiro do mundo” e confiantes de que dominariam a natureza e promoveriam o progresso.

Soares Gatto faz a seguinte avaliação: “Essa visão hoje de volta, de celeiro do mundo, não tem nada de novo. Sem precisar voltar ao período dos militares, de Delfim Netto, lembro-me de uma palestra que assisti em 1998, dirigida a empresários da região, proferida por Fernando Henrique Cardoso, em uma passagem sua pelo estado, no contexto de sua campanha para reeleição a Presidência da República, em que repisava essa ideia de celeiro do mundo”.

Preocupado com uma visão imediatista de resultados, sem planejamento de longo prazo, com valores orientados pelo consumo e não pela cidadania, Soares Gatto não esconde seu incômodo.

“Os entusiastas com a região veem espaço para novos empreendimentos, como a construção de shopping center atraindo marcas de luxo. Também o Aeroporto de Sinop, batizado com o nome do último presidente general da ditadura militar, João Baptista de Oliveira Figueiredo, inaugurado em dezembro de 2008 e que conta com dois voos semanais da companhia Azul para São Paulo atendeu a uma insistente demanda dos empresários do agronegócio.

Os mais críticos veem tudo isso como mais um ciclo econômico que está fadado ao esgotamento”.

Tendo já vivido em Araçatuba, cidade do noroeste paulista que chegou a ostentar o título de “capital do boi gordo” Soares Gatto vê traços que permitem comparações.

“Guardadas as especificidades, uma comparação que se pode fazer é com o noroeste paulista, a cidade de Araçatuba, que chegou a ser uma das principais produtoras de gado de corte e fracassou por não ter diversificado a atividade econômica. Hoje a cidade se concentra na produção de álcool e não se vê o legado do tempo de prosperidade do gado”.

Consciente das diferenças entre crescimento e desenvolvimento econômicos, nosso entrevistado faz a seguinte avaliação:

“Uma parte dos moradores, mais diretamente beneficiados, veem o crescimento econômico e só percebem coisas boas nisso. Mas essa riqueza não é distribuída, não chega à população. Há muita pobreza no entorno da cidade. O dinheiro gerado pelo agronegócio não circula, não produz impacto positivo para a vida da população. Quem é rico é muito rico, igualando-se aos padrões da riqueza de São Paulo.

Essa atividade econômica da soja concentrada mais ao norte do Estado não gera desenvolvimento para todo o Mato Grosso. Na capital, Cuiabá, problemas antigos se arrastam pelos anos, pelos diferentes governos, sem solução. O maior empregador de Cuiabá é o Estado, a economia da cidade depende da renda do funcionalismo público. Se o governo deixar de pagar um mês de salários acontece uma revolução”.

Ainda sobre o caráter concentrador de riqueza, Soares Gatto completa:

“Nessas cidades da soja, como Sinop e Sorriso, o cidadão comum não consegue morar, o aluguel é muito caro. Os loteamentos, os empreendimentos imobiliários são de luxo, predominantemente condomínios fechados. São imóveis muito caros.

Policiais civis e militares alocados nessas cidades comumente pedem para morar no quartel, pois com os soldos que recebem não conseguem arcar com os custos de moradia na cidade.

O pulo do gato para a região e o estado do Mato Grosso está no como o dinheiro gerado pelo agronegócio é investido. Quanto a uma diversificação da economia, expandindo e agregando valor na cadeia produtiva eu não vejo isso acontecendo.

Se amanhã a China decidir parar de comprar soja da região, acabou. É bem isso. É importante ressaltar que essas atividades, tanto da soja quanto do gado geram poucos empregos e pouca diversificação de funções. Essas atividades estão intensivas em tecnologia, importada, com sistemas inteligentes que demandam pouca mão-de-obra, ainda que especializada. Os ganhos de produtividade são atingidos hoje com a incorporação na lavoura da soja e do milho de equipamentos como plantadeiras e colheitadeiras altamente sofisticados, com programação eletrônica, chegando a ter mapeamento e controle por satélites”.

Sobre os quadros políticos e empresariais do estado, Soares Gatto também é crítico.

“Vale lembrar que o estado foi governado por oito anos por Blairo Maggi (Progressistas), empresário tido como um dos maiores produtores de soja do mundo, e não se viu políticas de desenvolvimento do estado, só aumento da riqueza pessoal de uma reduzida elite de empresários, sem nenhuma visão de desenvolvimento social. Tanto os empresários quanto a classe política do estado parecem perpetuar uma mesma mediocridade.

O atual governador, Mauro Mendes (DEM), um empresário de competência questionável, sócio do Grupo Bimetal que entrou em recuperação judicial em 2015, já foi prefeito (2013-2016) da capital com o apoio de Maggi, e não mostra na política talento muito superior ao demonstrado nos negócios.

Quanto a uma paradiplomacia que pudesse qualificar relações de cooperação, com trocas tecnológicas e intercâmbios culturais, projetando interesses do estado na arena internacional, isso também é inexistente. Chegou-se a criar um escritório internacional de representação do estado em São Paulo mas fechou. Na própria Secretária de Comércio do estado do Mato Grosso, um escritório de relações internacionais que chegou a funcionar por um tempo foi desativado. Pode-se concluir que o estado vai a reboque dos interesses particulares do setor da soja. Não é um agente propositor de políticas, um indutor de processos. Faltam quadros qualificados, com visão pública e estratégica para a concepção e implementação de políticas para o setor.

A Famato (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso), criada em 1965, mencionada na matéria do Financial Times e que eu tive oportunidade de visitar e entrevistar gestores durante a realização de meu doutorado, é bastante ativa, mas tem seus compromissos claramente definidos” conclui Soares Gatto.

A matéria sobre o Mato Grosso e sua riqueza, publicado pelo tradicional e influente jornal britânico Financial Times, fundado em 1888, com foco em negócios e assuntos econômicos, pareceu-nos demandar informações adicionais que, em parte conseguimos reunir neste artigo. Ao leitor brasileiro, diretamente implicado pelas questões abordadas na matéria em tela, julgamos ser essencial estar atento às disputas de narrativas e sempre disposto a conhecer a realidade, sempre complexa, através de um olhar crítico e responsável, contemplando diferentes ângulos. Especialmente em tempos de ameaças obscurantistas, o conhecimento ainda se afirma como importante ferramenta de poder. Uma sociedade desenvolvida e próspera é aquela capaz de produzir um conhecimento social voltado para o seu bem-estar e consciente do destino comum de todos.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político

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