As festas macabras de réveillon, por Gustavo Conde

Desculpem, mas nossa geração não ver-se-á livre desse caos sanitário, até porque pesquisadores do mundo inteiro alertam - para desgosto geral - que estamos entrando na era das pandemias.

As festas macabras de réveillon, por Gustavo Conde

Festa no Leblon, interditada pelos bombeiros, ontem.

Preparem-se para uma carnificina em janeiro. Quando eu digo que somos todos negacionistas – todos nós, eu, você, tu, eles – é em função disso: não queremos ser “pessimistas” e dizemos internamente “vira essa boca pra lá”.

Para quê atrair o mal, não é mesmo?

Essas armadilhas são do funcionamento da linguagem. Não tem muito o que fazer.

O instinto de sobrevivência coletivo na espécie humana já entrou para o rol das impossibilidades, ainda mais no capitalismo. Estruturada em um discurso neoliberal, a linguagem operacional do Ocidente apenas reproduz a lógica assassina das elites que detém o poder.

Isso é até velho. Está em Marx e mais explicadinho em Althusser.

A rigor, poderíamos usar a linguagem para salvar nossas vidas, como os chineses. Mas, decidimos fazer o contrário.

Cada enunciado, cada entrevista, cada matéria dos veículos de comunicação brasileiros – tradicionais ou não – tem contribuído para aprofundar nossa catástrofe.

Quando uma pesquisadora como Margareth Dalcolmo dá uma aula e nos alerta sobre o que está por acontecer, preferimos tapar os olhos e os ouvidos, todos nós (“todos nós”, a minoria esmagadora que lê uma matéria como esta e consegue minimamente interpretar).

O Brasil, com problemas históricos de educação e leitura, com o jornalismo mais avacalhado do mundo, com o pior governo do planeta, deparou-se com o desafio de controlar uma pandemia feroz e sem precedentes.

Muita gente acha que iremos superar essa tragédia nos próximos meses, “com a vacina”.

Desculpem, mas nossa geração não ver-se-á livre desse caos sanitário, até porque pesquisadores do mundo inteiro alertam – para desgosto geral – que estamos entrando na era das pandemias.

Merecemos essa lição. Destruímos muito o planeta. Fomos muito egoístas. Nos últimos séculos, estamos nos matando uns aos outros com impiedosa competência.

Nessas horas, vem mais uma amarga lição, para os brasileiros em especial. Trocamos a democracia por uma “genocidocracia”. Proscrevemos o mais humanista dos líderes globais de todos os tempos, Luiz Inácio Década Lula da Silva, apenas para voltar a nos matar como antigamente.

Alguém que poderia nos salvar dessa catástrofe até com mais competência que a China. Apenas pelo fato de ser alguém que presa a vida humana – e por ter inteligência e disposição para lutar pela vida humana.

Merecemos.

É verdade que fomos arrastados para essa tragédia pela imprensa, pelos maus perdedores e pelas elites.

Mas, para nosso próprio desgosto, somos uma sociedade e nos apresentamos e nos organizamos como um país, com uma língua soberana, com um gentílico e com uma carta Constitucional.

Para todos os efeitos, somos um povo – o mais desigual do mundo.

Se a linguagem ainda nos serve para alguma coisa, dada a incomunicabilidade em torno de nossa impotência simbólica, que ela signifique a palavra ‘morte’ – e que ressignifique a palavra ‘vida’.

Ambas então próximas demais no léxico desgastado dos falantes animalizados e profundamente desinteressantes que lotam as festas macabras de réveillon.

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