Assassinato não é questão de perspectiva, por Mariana Nassif

Sensação de estar quase perdendo os sentidos, estes que me são tão essenciais. Três notícias, três baques. Uma pergunta que não pára de ecoar: quando foi que tudo mudou tanto de perspectiva?

Assassinato não é questão de perspectiva, por Mariana Nassif

Atordoada, suspiro que é pro ar entrar.

Sensação de estar quase perdendo os sentidos, estes que me são tão essenciais. Três notícias, três baques. Uma pergunta que não pára de ecoar: quando foi que tudo mudou tanto de perspectiva?

Como pode alguém, qualquer pessoa, pública ou privada, isso não interessa: como alguém pode comemorar a morte como se fosse um gol? “E se você pensar que aquela pessoa que foi morta poderia matar alguém muito precioso pra você?”. Talvez eu me sentisse humanamente aliviada. Aliviada, não feliz. Comemoração a gente faz quando algo dá certo, confere, produção? Ando bem confusa, atordoada, entorpecida mesmo com as definições sensoriais desse contexto que emerge, quer dizer, que vem emergindo perante nossos olhos. Comemorar o assassinato de alguém. Independente de quem seja. É tão violento quanto invadir um ônibus portanto uma arma, mesmo que de brinquedo. Com a vida não se brinca assim. Com nenhuma, nenhuma mesmo. Suspiro. Enjôo.

Três notas da imprensa (uma local e duas nacionais) dão conta do aparecimento de um corpo na Rodovia Oswaldo Cruz, a estrada que liga Taubaté a Ubatuba, onde moro. O corpo de uma mulher. Negra. Aproximados 30 anos. Pobre. Amarrada pelos pés e pelas mãos. Amordaçada. Uma mulher que aparentemente estava em situação de rua, adicta. Encontrada morta com uma corda no pescoço. Três ou quatro parágrafos em cada pauta e nenhum, nenhum mesmo, questionando as razões para tamanha brutalidade. Uma mulher a menos. Preta, pobre, viciada. É praí que a pauta olha. Como pode? Quem amarrou? Quem amordaçou? Quem largou ali? As margens. Pra que servem, mesmo? Onde andam os contornos? A polícia vai investigar? Vai prender? Vai olhar? Pra quê? Pra quem? Como é que a gente segue a vida cego assim? Suspiro. Choro.

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Um cachorro esfaqueado no bairro onde moro, o Taquaral. Um cachorro esfaqueado. Quem fez isso comemorou como se fosse um gol, é isso? Quem fez isso? Alguém fez isso? Por que fez isso? Pra que fez isso? Como pode fazer isso? Alguém vai conferir, cuidar, proteger? Mais um assassino solto. Violento sim, perigoso mesmo. É mesmo, de todo lado. Suspiro. Socorro.

Que medo desse lado pra onde muita gente está olhando. Mas no fim do dia, vai ver sou eu, quase nada Namastê, que devo estar olhando pro lado errado. Aflita porque tem governante comemorando assassinato na TV aberta. Chocada que alguém que amordaça, amarra e mata anda livre nessa estrada. Desolada porque pode estar na minha frente no caixa da vendinha local esse outro que enfiou a faca no cachorrinho. Vai ver sou eu mesmo a louca, negativa, aquela que não quer mudar de perspectiva. Suspiro. Esse, de alívio, por me saber do lado certo. Ninguém me convence de que o contrário é simples questão de perspectiva.

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