Atualidades romanas em pleno século XXI, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Derrotado na Síria e acuado por seus adversários dentro dos EUA, Trump resolveu brincar de incendiar o mundo inteiro para obter o controle do petróleo venezuelano

Atualidades romanas em pleno século XXI

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Comecemos pelo começo. No século I dC existia um império belicoso que era alimentado e movimentado por escravos e expandido por exércitos impiedosos. Roma eventualmente caiu, mas se tornou um modelo para todos os impérios que foram criados desde então.

Há séculos os russos acreditam que seu país é a terceira Roma e que não haverá uma quarta. Os norte-americanos copiaram quase todos os símbolos do poder romano (a arquitetura monumental, a águia, etc…). Não podemos subestimar o poder de sedução da ideologia imperial que foi refinada durante séculos por Roma, nem tampouco sua literatura. 

“Como alguém, numa conversação familiar, dissesse:
Eu morto, que a terra se abrase!
ele respondeu: ‘Não! Mas eu vivendo!’” (A Vida dos Doze Césares, Caio Suetônio Tranquilo, Ediouro, 4a. edição, Rio de Janeiro, 2002, p. 377)

Esse pequeno diálogo protagonizado pelo imperador Nero Cláudio César, ocorrido em meados do século I aC, reverbera até os dias de hoje. Ele resume perfeitamente a situação em que nos encontramos.

O que se costumou chamar de Ocidente foi sacudido por um movimento de jovens que exigem providências emergenciais por causa da mudança climática. Na Europa o movimento foi bem maior e obteve mais êxito do que nos EUA. Me parece evidente, entretanto, que em ambos os lados do Atlântico as elites rejeitam mudanças políticas estruturais que afetem o capitalismo ou o seu controle do Estado.

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Os europeus influentes parecem mais dispostos a lidar com os jovens. Eles estão domesticando-os com elogios, aplausos e exposição na mídia. Envolvendo-os para alavancar uma nova bolha financeira, produtiva e de serviços com a temática ecológica financiada com impostos (e com mais endividamento privado das estruturas estatais europeias). Nenhuma novidade. O movimento anti-consumista de 1968 foi debelado com a farta distribuição de cartões de crédito que ampliou a produção, o consumo e o lixo.

A crianças ecologicamente bem intencionadas também foram utilizadas para desviar a atenção do público dos protestos dos Yellow Vests. Aumentar o padrão de renda dos franceses pobres reduz os lucros das empresas. Criar uma demanda por produtos e serviços focados na ecologia garante os lucros dos empresários. O bem estar social foi empurrado da Europa por uma porta para que o bem estar corporativo pudesse ocupar o centro das preocupações de Bruxelas. O fato de Bruxelas ter se tornado “mais verde” é, portanto, irrelevante.

“Eu morto, que a terra se abrase!”

Os detritos do novo capitalismo ecológico europeu irão se acumular em pouco tempo. A vitória das crianças irá paradoxalmente reforçar as características destrutivas deste regime que pode muito bem ser considerado uma “metamorfose ambulante”. A solução adotada por Bruxelas para impedir que o bem estar social volte a fazer parte da agenda política europeia me parece claramente inspirada na primeira frase do diálogo citado por Suetônio.

A realidade do outro lado do Atlântico é mais delicada e explosiva. O sucesso da Rússia na guerra da Síria se tornou um fracasso insuportável para a Casa Branca. Donald Trump quer compensar a derrota no Oriente Médio com uma vitória na Venezuela. O terreno para a guerra na América Latina vinha sendo preparado há algum tempo. Com a vitória de Bolsonaro no Brasil tudo indica que ela se tornou inevitável. Não porque o Brasil irá participar diretamente do conflito, mas porque nosso país não fará nada para evitá-lo (o que em termos diplomáticos equivale a fazer algo que não será esquecido, nem perdoado).

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‘Não! Mas eu vivendo!’”

Os norte-americanos enfrentam quatro inimigos no tabuleiro de xadrez venezuelano: o primeiro é a própria Venezuela e suas forças armadas; o segundo é a Rússia; o terceiro é a China; o quarto a opinião pública mundial. Como Trump já demonstrou que não estão nem aí para a opinião pública, restam três inimigos. A China se move em silêncio. Putin já disse que está preparado para enfrentar uma nova crise dos mísseis em Cuba. Se a Venezuela resistir e for militarmente apoiada por Rússia e China, o conflito local pode se tornar mundial.

Derrotado na Síria e acuado por seus adversários dentro dos EUA, Trump resolveu brincar de incendiar o mundo inteiro para obter o controle do petróleo venezuelano e comprovar, uma vez mais, a hegemonia dos EUA. Suas ações parecem ser inspiradas pela frase de Nero.

No século I dC nada, nem mesmo um vulcão como o Vesúvio, poderia queimar toda a terra. Ironicamente, vinte séculos depois de ter sido proferida a frase daquele que é geralmente considerado o infame dos imperadores romanos pode realmente se tornar realidade. Em pleno século XXI continuamos prisioneiros do mesmo desprezo pela vida dos outros e pelas nossas próprias vidas. Agimos como se ela fosse um fenômeno banal.

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1 comentário

  1. nero trump é mesmo infame…
    se todos defendessem a humanidade
    com esse estilo do fábio certamente não
    teríamos chegado a essa infamia a
    que chegamos nesse atual regime…

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