Bolsonaro é um mito, apenas isso, e esse é o grande problema, por Eduardo Borges

Bolsonaro é um mito, apenas isso, e esse é o grande problema

por Eduardo Borges

“o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório
de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”
W. Reich

Não escrevo esse artigo com a pretensão de demonstrar como devemos combater o candidato de extrema direita Jair Bolsonaro. O “fenômeno” Bolsonaro tem gerado esse tipo de iniciativa por parte de alguns analistas, mas não tenho a competência deles para destrinchar essa candidatura apontando os caminhos de como vencê-la. Portanto, o que vou escrever nos parágrafos que se seguem é apenas um olhar alternativo e provocativo do “fenômeno” Bolsonaro, que mesmo com todas as ausências de características tradicionais, que viabilizem uma candidatura presidencial, conseguiu assumir a liderança na atual corrida eleitoral.

A tese que defendo é a de que o “mito” (como o costumam chamar seus seguidores) Jair Bolsonaro hibridizou o político de carne e osso Jair Bolsonaro transformando-se, definitivamente, em um “mito”. Entre as diversas definições de mito, uma que me agrada muito e que cabe perfeitamente na lógica bolsonarista é a seguinte: “Representação de fatos ou de personagens distanciados dos originais pelo imaginário coletivo ou pela tradição que acabam por aumentá-los ou modificá-los.”

Para seus eleitores (na verdade se comportam muito mais como seguidores de uma seita), importa mais o que eles querem que o candidato aparente ser, do que o que ele realmente é. Bolsonaro é isso, uma grande “representação de fatos”. O apoio ao “mito” se constitui da projeção, no outro, de valores que ainda que possam estar ocultos, não são inconscientes. Não se trata, o apoio a Bolsonaro, de uma simples manipulação de “consciências alienadas”, mas de uma adesão consciente de um conjunto de valores representativos de uma grande parcela da sociedade. Portanto, a candidatura de Jair Bolsonaro é um elemento completamente novo e, possivelmente, sem precedentes na vida política brasileira.

Nesse caso, chega a ser ingênuo tentar enquadrá-la na lógica racional que medeia uma disputa eleitoral. A candidatura Bolsonaro vai muito além disso, vamos aos fatos.

Que tipo de político que perguntado em campanha sobre o que pensa sobre a economia do país “remete” a pergunta para o coordenador de economia de seu programa de governo? De maneira jocosa o presidenciável Jair Bolsonaro aludiu ao economista Paulo Guedes como seu “Posto Ipiranga” em referência a uma famosa campanha publicitária do referido posto de combustível em que o personagem central identifica o posto como o lugar em que tudo se encontra. Em uma situação de normalidade, que outro político sobreviveria a tamanho desatino? Sabe o que aconteceu com o “mito” depois desse episódio? Subiu nas pesquisas.

Esse mesmo político, diante da profunda precarização das atuais relações de trabalho no Brasil, com exemplos, inclusive, de regime de trabalhos escravo ou semi- escravista, afirma que em seu governo as leis trabalhistas devem “beirar a informalidade”. Fosse outro candidato dizendo tais palavras no mínimo seria inquirido por seus prováveis eleitores com pedidos de explicações mais detalhadas sobre o que significaria na vida de cada um deles ter uma legislação trabalhista que “beirasse à informalidade”. O que fizeram os eleitores do “mito” sobre isso? Não vem ao caso, o que realmente importa para eles é ter a certeza de que elegendo o “mito” terão a garantia de que o comunismo não irá se instalar no Brasil.

O tema dos Quilombos deveria tocar em muito a um candidato a presidente e, consequentemente, a uma parcela de seus eleitores, pois se trata de uma questão social de profundas raízes culturais que mesmo um político de direita ou conservador (com uma visão liberal da questão fundiária no Brasil), deveria enxergar essa questão com um pouco mais de complexidade. Mas o que fez o “mito” sobre isso? Em visita a um quilombo em Eldorado Paulista, vejamos a “profundidade” com que essa questão foi tratada pelo presidenciável Jair Bolsonaro: “Eu fui em um quilombola em Eldorado Paulista, olha, o afrodescendente mais leva lá pesava sete arrobas, não fazem nada, eu acho que nem pra procriador ele serve mais”.

Sua mediocridade e desconhecimento dos reais problemas do Brasil é tão grande que ele confunde Quilombo com quilombola. Isso acaba sendo um problema menor da frase se percebermos que ele atribui a seres humanos o sistema de peso “arroba” que normalmente atribuímos a animais (quanta sutileza). Qual a reação dos eleitores/seguidores com tamanha expressão de insensibilidade pública? Uma profunda e inexplicável gargalhada, porque o “mito” também tem seus momentos patéticos de stand up show.

Uma rápida investigação pela internet utilizando-se as palavras Bolsonaro e gestão pública encontrará apenas um grande cesto de clichês e lugares comuns, nada que represente o mínimo de profundidade e sofisticação de pensamento. Mas o que diriam seus seguidores sobre isso? O “mito” é honesto, ele não precisa dizer que conhece de tudo, basta termos a certeza de que ele vai ser o cara que acabará com a violência no Brasil facultando a todos nós o porte de armas.

Qual o grau de confiabilidade em um candidato que resume a resolução do problema da segurança pública do país apenas utilizando-se da frase: “bandido bom é bandido morto”? Em que lugar do mundo argumento tão simplório para problema tão complexo receberia aplausos orgulhosos dos eleitores? Acertou quem respondeu,  na outrora Terra de Santa Cruz, conhecida hoje como Brasil.

Recentemente, em entrevista a uma emissora de TV a cabo, em que praticamente não respondeu a uma única pergunta referente a questões de ordem econômica, o presidenciável Jair Bolsonaro, a ser perguntado sobre como iria lidar com a Petrobras, assim respondeu: “Eu entendo que a Petrobras é estratégica, por isso não gostaria de privatizar a Petrobras, esse é um sentimento meu. Agora, se não tiver solução, um acordo, não vai ter outro caminho”.

Percebeu a atrocidade da situação? Simplesmente a maior empresa brasileira, referência internacional na área petrolífera, transformou-se, no “programa de governo” do “mito” Bolsonaro, em uma simples questão de “sentimento pessoal”. Pessoalmente ele não deseja privatizar, mas se for preciso, ele privatiza, simples assim. Será que não existe um único eleitor/seguidor do “mito”, que motivado por um sentimento nacionalista, não tenha sequer a curiosidade de perguntar: Você poderia explicar um pouco mais sobre o que entende como posição estratégica da Petrobras? Não, não espere isso de um eleitor do “mito”. Esse negócio de entregar a Petrobras (e tudo que ela representa em termos estratégicos da projeção do Brasil no mundo) para o deleite do capital internacional ou para uma estatal norueguesa pouco importa para eles, o que realmente importa é que o “mito” vai defender a família, os valores cristãos, cultivar o amor à pátria e acabar com esse negócio de Estado laico porque isso é coisa de comunista bolivariano.

Possivelmente, na história do Brasil, não tivemos um candidato a presidente com um nível tão baixo em termos intelectuais. Seu desconhecimento do funcionamento da máquina administrativa é tão limitada e tosca que chega a aparentar ingenuidade. O grande problema, entretanto, não é fato de Bolsonaro ser um candidato ignorante, o verdadeiro problema é que Bolsonaro se transformou em uma ideia. Ele é, para seus eleitores/seguidores, um símbolo, e os símbolos não precisam se provar e tampouco representar a realidade, eles apenas precisam existir e representar as virtudes reconhecidas nele por seus seguidores.

Não importa para seus eleitores de que uma vez eleito este “símbolo” vai decidir os rumos de uma nação de mais de 200 milhões de habitante com níveis de desigualdades sociais tão complexos, cuja resolução vai muito além da seguinte pérola: “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida. Quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano.” Será que as eleitoras do “mito” sabiam dessa? Creio que não, mas isso pouco importa, o que realmente importa para elas é que além de proibir o aborto ele vai nos proteger da demoníaca ideologia de gênero.

Poderia ficar aqui citando vários exemplos de como Jair Bolsonaro é completamente ignorante (no sentido de desconhecer) em relação à dificuldade de se dirigir os rumos de uma país com a complexidade do Brasil.  Não faltam argumentos concretos para desconstruir sua candidatura usando apenas fatos da vida real. Bolsonaro é o típico “político peixe”, aquele que morre pela boca, tamanha a quantidade de despropósitos que verbaliza. Contudo, ao se transformar, aos olhos de seus eleitores, em um “mito” ou em um “conjunto de valores”, ele extrapola a racionalidade política e tira de nós a possibilidade de entendê-lo utilizando apenas instrumentos racionais. Somente um trabalho sobre a psicologia de massas, como o que foi feito por Wilhelm Reich em relação ao fascismo, poderia nós conceder uma luz na compreensão do fenômeno Bolsonaro.

Como estudioso do inconsciente, interessava a Reich, diante do fenômeno de massas que caracterizou o fascismo, compreender o motivo que levaram as massas a se mostrarem tão receptivas ao engodo e ao embotamento representado pelo discurso fascista. Vejamos como ele ilustrou a estratégia psicológica que constrói a liderança fascista:

“Se ele souber como despertar os laços afetivos da família, nos indivíduos das massas, ele será também uma figura do pai autoritário. Ele atrai todas as atitudes emocionais que foram num dado momento devidas ao pai, severo, mas também protetor e poderoso (poderoso na visão da criança).”¹

Assim funciona a relação entre Jair Bolsonaro e seus eleitores/seguidores. Bolsonaro é a figura do pai autoritário, que na visão infantilizada de seus eleitores/seguidores pode até ser severo e repressor (com quem merece), mas é suficientemente poderoso e estará sempre pronto a protegê-los e a defendê-los dos inimigos da pátria e da família tais como: os comunistas, as feministas, os gayzistas e todos os demais “istas” que possam povoar suas mentes infantilizadas.

Portanto, combater a candidatura  de Jair Bolsonaro não é simplesmente partir para o embate no campo político tradicional. É tentar demonstrar de maneira insistente não só o amadorismo da candidatura, como sua ficcionalidade e completa desconexão com a vida real. É preciso mostrar às pessoas, que uma vez vencendo as eleições, no outro dia, Bolsonaro terá que sair do personagem mítico e efetivamente governar como um indivíduo de carne e osso.

Se isso viesse a acontecer (e eu espero que não aconteça), frases como:  “bandido bom é bandido morto”, “temos que fuzilar a petralhada”, “ o único erro da ditadura foi torturar e não matar”, “não vou estuprar você porque você não merece”, “não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater”, “ o Paulo Guedes é meu posto Ipiranga”, – certamente não resolveriam a complexidade do problema chamado  Brasil. Será que realmente é necessário corrermos esse risco e colocarmos em xeque o futuro de nossos filhos e netos?

Eduardo Borges – Historiador

¹ Reich, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1988,p.67
 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora