Brasililiput, um país pequeno de novo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Os únicos beneficiários desta confusão são os norte-americanos. Mas eles não deram ou darão ao Brasil qualquer compensação comercial em razão da devoção dos Bolsonaro à geopolítica imperial dos EUA.

Brasililiput, um país pequeno de novo

por Fábio de Oliveira Ribeiro

O circo armado pelos Bolsonaro para impedir a Huwaei de fornecer tecnologia 5G às empresas brasileiras está armado. Os efeitos desta decisão são previsíveis.

Prejudicados, os chineses começarão a reduzir investimentos no Brasil. Os produtores rurais exportam seus produtos para a China sofrerão um impacto colossal em seus negócios. As empresas de telecomunicação brasileiras provavelmente irão questionar a decisão presidencial na Justiça. O caso terá que ser resolvido pelos juízes.

Não compete ao Judiciário definir a política externa brasileira. Todavia, nenhuma violação ou ameaça de violação de direitos pode ser excluída da apreciação judicial. Em tese a própria Huwaei também pode discutir a legalidade do ato presidencial que afeta seus interesses no Brasil.

Os únicos beneficiários desta confusão são os norte-americanos. Mas eles não deram ou darão ao Brasil qualquer compensação comercial em razão da devoção dos Bolsonaro à geopolítica imperial dos EUA.

Antes da segunda guerra mundial o Brasil oscilou entre os Aliados e o Eixo. Nos anos 1930 a Alemanha nazista chegou a ser o maior parceiro comercial do Brasil. A Inglaterra interceptou uma carga de armamentos “made in Germany” comprada pelo Exército brasileiro. Após ser muito cortejado pelos norte-americanos o Brasil se desvinculou lentamente  daquele parceiro comercial racista e incômodo, o que resultou nas hostilidades navais alemãs contra embarcações brasileiras após o início da guerra.

Não existe qualquer semelhança entre o que ocorreu no passado e o que está ocorrendo agora. Ao aderir aos Aliados, o Brasil conquistou diversas vantagens comerciais e assistência tecnológica para acelerar sua industrialização. Nenhuma vantagem comercial foi oferecida pelos EUA ao Brasil. Não importa quanto os Bolsonaro decidam prejudicar os chineses, as relações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca tendem a piorar depois que Joe Biden tomar posse como presidente dos EUA.

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A imbecilidade infantil da política externa conduzida por Ernesto Araújo é tão evidente que nosso país já desperta um misto de riso e consternação no exterior. O Brasil sofreu uma mutação genética e se transformou em Liliput. Suponho, portanto, que os Bolsonaro imaginem que os EUA é um gigante capaz de derrotar e subjugar sozinho o Blefuscu oriental.

O que está ocorrendo seria cômico se os Bolsonaro fossem leitores de Jonathan Swift. É mais provável, entretanto, que nenhum deles tenha lido As viagens de Gulliver. Eles odeiam os chineses. O fato dos comunistas chineses serem capitalistas mais competitivos do que os norte-americanos acrescenta um componente racial à rejeição da Huwaiei.

No passado, o fardo do homem branco era a sua suposta obrigação de correr riscos para civilizar povos primitivos ou inferiores. Na fase atual, o fardo do homem asiático é conviver com a irracionalidade capitalista dos imbecis que comandam nossa política externa.

Desde que começaram a enriquecer e sobrepujar os norte-americanos em seu próprio jogo os chineses tem sido extremamente cautelosos. Eles sabem que se retirarem totalmente do Brasil os maiores perdedores serão os brasileiros que precisam trabalhar e auferir renda.

Ao contrário dos inimigos que pretendem criar, o presidente e seus filhos estão dispostos a sacrificar nosso país e uma parcela da população. Os chineses são tão insuportáveis quanto os blefuscanos. Eles também  quebram os ovos quentes do lado errado. Em breve não haverá ovos nas geladeiras de milhões de brasileiros, mas esse é um detalhe irrelevante. Uma vitória internacional do anticomunismo bolsonarista é mais importante?

1 comentário

  1. Caro Fabio, sua análise é precisa.
    Não lhe parece que a acusação dos americanos, dizendo que os equipamentos chineses permitem espionagem eletrônica, revela que eles queiram colocar equipamentos deles para fazer justamente o que acusam?
    Devem estar tentando impedir que o terreno seja totalmente ocupado, os chineses já tem os componentes principais da base da rede que suportará o 5G, de forma a complicar a instalação de “back doors” que tanto usam mundo afora.

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